O caos político iniciado nas manifestações de junho de 2013 gerou uma onda de produções com tamanha velocidade nunca antes vista sobre fatos históricos tão recentes na história do audiovisual do Brasil. “Democracia em Vertigem” surge na mesma leva dos documentários “Junho – O Mês que Abalou o Brasil, “O Processo” e Excelentíssimos, da ficção “Polícia Federal – A Lei é Para Todos” e da série “O Mecanismo”.

Se a necessidade de um posicionamento urgente dentro do contexto atual faz-se necessária como forma de resistência e até para não ficar para trás das mídias sociais, por outro lado, diretores e produtores correm o risco de uma abordagem passional tomar a tela ao ponto de soar mais como uma obra panfletária sem ajudar o espectador a refletir, de fato, sobre o assunto.

Em “Democracia em Vertigem”, Petra Costa não consegue fugir totalmente desta armadilha, porém, realiza o trabalho mais consistente entre todas as produções sobre o assunto até agora. Igual fizera em “Elena” e “Olmo e a Gaivota”, é o tom mais pessoal remetendo aos contextos familiares e às próprias impressões sobre o que observa, com paralelos consistentes em relação à nossa história, o que torna o documentário original da Netflix realmente diferente dos seus pares.

Mais do que o mercado consumidor local, “Democracia em Vertigem” mira apresentar os fatos para o público estrangeiro a partir da ótica de que a deposição de Dilma Rousseff abriu o caminho para o que mais de retrógrado possui a política e a sociedade brasileira. Com isso, presenciamos novamente as mesmas sessões das comissões do impeachment, a patética sessão no Congresso Nacional para o afastamento de Dilma com votos para a família e Deus, as manifestações em Brasília e São Paulo com os radicais começando a dar as caras com pedidos de intervenção militar, os grampos telefônicos de Aécio e Temer, e por aí vai.

Apesar disso, o documentário da Netflix surpreende com imagens inéditas de acesso aos bastidores dos atos derradeiros do governo petista. Muito disso se deve ao acervo de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, o que permite ricos registros históricos de um ex-presidente visivelmente tenso pouco antes da posse como ministro da Casa Civil, em 2016, e dos últimos momentos dele em liberdade na sede do Sindicato dos Metalúrgicos. Além disso, o acesso e a intimidade de Petra com Dilma proporcionam ainda o belo momento em que a ex-presidente admite a saudade do anonimato e demonstra certo abatimento.

DO SONHO À QUEDA NA REALIDADE

“Democracia em Vertigem” aponta para quase um universo mágico no Brasil pós-ditadura militar, especialmente, após a chegada de Lula à presidência da República. O crescimento econômico, as vitórias eleitorais nas urnas e o inédito respeito internacional do país obtido pelo governo petista durante 2003 até 2012 colocaram a esquerda brasileira em estado de graça, a ponto de até ser possível aceitar as conciliações e alianças duvidosas para chegar e permanecer no poder.

Nada mais simbólico do que ver Petra Costa rodopiando pela Avenida Paulista ao comemorar a noite da eleição de Dilma Rousseff, em 2010. Segundo ela, a chegada da primeira mulher presidente ao poder era a concretização do mundo sonhado com a redemocratização brasileira, a partir do fim dos anos 1980. Esta ilusão de que este era um estado permanente parece ter inebriado o PT, Lula, Dilma, Petra e a toda esquerda.

Como se ainda acordando no meio do sonho para uma realidade terrível, Petra Costa tenta juntar os pedaços de um quebra-cabeça, narrando melancolicamente tudo o que aconteceu para, enfim, entender a guinada no Brasil. Algumas constatações são hoje óbvias como a aliança entre PT/PMDB, Michel Temer como vice de Dilma e Eduardo Cunha como maestro da queda, enquanto outras resvalam na ingenuidade ao mostrar como o impeachment não tinha a ver com pedaladas fiscais – afinal, todo processo de destituição de um presidente leva em contas fatores muito maiores do que apenas a denúncia tratada no papel. Temer e Clinton, que o digam.

Por outro lado, quando explora mais a fundo as raízes do nosso país historicamente, Petra Costa torna, de fato, “Democracia em Vertigem” um filme potente. Aqui, o próprio entrelaçamento da vida pessoal faz-se fundamental para entender estas relações. Neta de um dos fundadores da Andrade Gutierrez, a diretora mostra como as relações da elite econômica se dão dentro da política nacional com uma pequena placa no Palácio da Alvorada ligando a construtora aos governos Lula e Collor. Satisfazendo a eles, a permanência no poder está garantida. 

Dando sustentação a este pequeno grupo de famílias donas da economia brasileira, surgem as forças de repressão do Estado. Se os pais de Petra foram vítimas da tortura nos porões escondidos do regime militar, a violência policial, hoje, se dá sem restrições, em plena luz do dia com orgulho de ser exibida, como “Democracia em Vertigem” exemplifica na chocante sequência da agressividade desmedida contra manifestantes em Brasília. Bolsonaro eleito presidente da República dentro deste contexto é, infelizmente, mais do que natural dentro da realidade histórica.

O MÍTICO LULA PARA O BEM E PARA O MAL

Petra Costa não esconde em nenhum momento o viés mais à esquerda de sua obra. E Lula, claro, ganha papel central dentro desta história. “Democracia em Vertigem” abraça os argumentos da defesa do ex-presidente de que a Operação Lava-Jato foi, a partir de um determinado momento, conduzida para que o Ministério Público Federal, a partir da figura do procurador Deltan Dallagnol, em parceria com o então juiz Sérgio Moro, prendesse o líder petista. Desta maneira, as recentes revelações divulgadas pelo jornalista Glenn Greenwald, em matérias exclusivas do site Intercept, contribuíram muito para a tese defendida pelo filme.

O documentário da Netflix até tenta, eventualmente, adotar uma abordagem mais crítica ao próprio ex-presidente quando lamenta alianças com oligarquias tradicionais do país, entre elas, os Sarneys. Há também espaço para a tal propalada ‘autocrítica’ do PT feita, aqui, por Gilberto Carvalho, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência de Dilma ao falar sobre o partido ter esquecido as bases sociais e a regulamentação da mídia. Todos discursos já ditos como um mantra dentro do próprio PT nos últimos anos. O momento mais revelador acaba sendo com a própria Dilma, em uma conversa com a mãe de Petra, ao falar quase despretensiosamente sobre a naturalidade de Lula em fazer política, algo totalmente oposto a ela.

O caráter mítico de Lula, entretanto, ressoa mais alto e a parábola utilizada na abertura e fechamento de “Democracia em Vertigem” deixa claro a mensagem de um líder vindo do povo, compreendido por seus pares, abraçado e querido pela população. Um fato que atravessa quatro décadas. O documentário capta, quase em caráter messiânico, as reações das pessoas ao ver seu líder e ouvir suas palavras.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser triste constatar como a esquerda no Brasil segue gravitando em torno de um único homem nestes 40 anos. A adoração a Lula não se dá apenas pelo fato de ter sido um líder história ou um presidente extraordinário do ponto de vista social e econômico para os mais pobres, mas, também, por não ter surgido (e nem o próprio Lula ter deixado) ninguém que o substitua dentro do imaginário da população neste campo político. Com isso, novas possibilidades de propostas políticas de esquerda além do PT ficam estagnadas, abrindo portas para a oposição, entre eles, os radicais de direita.

Sem dúvida, “Democracia em Vertigem” acaba sendo uma obra fundamental não apenas para reforçar teses de que foi golpe contra Dilma ou pró-Lula Livre: a partir de si própria, Petra Costa consegue espelhar o estado de espírito atônito e desnorteado da esquerda brasileira, fruto de um doce sonho de um breve período do poder. Porém, a visão de desânimo da diretora sobre como tirar forças para lutar novamente, apesar de compreensível, soa um tanto quanto alarmista e não há exemplo melhor do que se espelhar em milhões de negros e indígenas que, há séculos, resistem contra tentativas de massacre sistemáticos das mesmas forças políticas, religiosas e econômicas do país. Inspiração maior não há.

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