“Excelentissímos” é um filme caótico. Poderia ser bom se partisse da proposta de ser um simbolismo sobre a política nacional jogada diante de uma direita conservadora disposta a tomar o poder a qualquer custo. Ainda mais compreensível levando em um conta um cineasta claramente petista como Douglas Duarte faz questão de transparecer em cada frame do documentário.

Infelizmente, não é o caso aqui. Com 2h30 de duração, “Excelentissímos” é um projeto inchado, perdido narrativa e conceitualmente dotado apenas de muito amor, militância, medo, mas, sem um pingo de reflexão crítica sobre o que trata, pensamento artístico de como transmitir isso ao público e muito menos planejamento.

A primeira imagem ilustra o espírito do filme com precisão: a câmera busca o melhor ângulo para registrar a então presidente Dilma Rousseff indo em direção a apoiadores em frente ao Palácio do Planalto no meio do processo de impeachment em andamento na Câmara dos Deputados. Uma luta até a petista passar rapidamente em cena com um treme treme da filmagem sem parar.

Caso fosse um momento isolado, ok, porém, tal expediente repete-se ao longo de todo o projeto seja nas andanças pelos corredores do Congresso, nas sessões do processo de impeachment em que sempre há uma cabeça ou algo passando pela frente ou na interminável sequência da cantoria do hino nacional na comemoração dos apoiadores do ‘Fora Dilma’ com a câmera batendo até no suvaco das pessoas. Muitas vezes, não há um sentido ou uma proposta por trás e, sim, apenas o registro do momento histórico. Válido, mas, muito, muito pouco para um documentário de um assunto tão importante.

Como o próprio Douglas Duarte diz em narração em off no início do filme, ele foi até Brasília para acompanhar todo o transcorrer das sessões do impeachment. A sensação que passa é que o plano era apenas este e nada mais. Isso se reflete na falta de acesso a bastidores para revelar algo mais além de tudo o que já foi visto na televisão e até mesmo no documentário “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, a qual esteve ao lado de figuras importantes do PT. Restou ficar zanzando pelo Congresso sem um foco preciso do que iria fazer.

Desta maneira, apela-se para imagens da TV Senado, TV Câmara, NBR, vídeos institucionais do Instituto Lula, Fiesp, PMDB e tudo o que aparecer pela frente. Para piorar, as raras entrevistas obtidas são pobres seja pelo tom factual adotado na conversa com o deputado federal Silvio da Costa (PTdoB – PE) ou na falta de profundidade do bate-papo com Carlos Marun (MDB-MS) que só repete que votaria pelo impeachment de qualquer modo.

Se a captação não ajudou, a salvação poderia ser na montagem com uma espécie de colagem à la “Ilha das Flores” para gerar um resultado contundente. “Excelentissímos”, infelizmente, não alcança nem isso. Douglas Duarte até sabe o que vai contar, mas, não consegue desenvolver uma narrativa que faça sentido, o que leva, por exemplo, o documentário a ter três capítulos encaixados em pouco mais de 30 minutos de filme e a quarta parte fica com as demais duas horas.

O diretor ainda intitula uma das partes de ‘O Ministro Desfeito’, mas, não fecha a narrativa sobre o impedimento de Lula virar ministro de Dilma. Aborda a influência das bancadas evangélica e ruralista em situações não relacionadas diretamente ao impeachment, algo que poderia ser aceitável para mostrar o crescente conservadorismo do Congresso, porém, se desgasta ao passar quase meia hora nisso.

A visão panfletária e partidária de Douglas também impede que o documentário possa ser algo maior do que uma visão puramente apaixonada e ganhe um caráter reflexivo sobre a política e a própria esquerda no Brasil. Evidente que críticas a Michel Temer, Aécio Neves, Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Romero Jucá não faltariam e esta nem é a questão, afinal, como já disse, há um ponto de vista claro e transparente desde o início. O problema é que ao abordar o então governo do PT o cineasta cai em um contrassenso que ele mesmo tenta disfarçar ao não querer aprofundar.

Explico: ao mostrar Dilma no Palácio do Planalto recebendo representante dos sem-terra e grupos de mulheres negras, a narração fala que era uma tentativa da presidente em se reaproximar dos movimentos sociais, algo, inclusive, exigido por Lula em um telefonema grampeado exibido em “Excelentissímos”. Tudo feito rapidamente e nenhum pouco aprofundado.

Essa tentativa de jogar para debaixo do tapete os possíveis erros do PT (por que houve este afastamento com os movimentos sociais? Será que o Partido dos Trabalhadores é apenas uma vítima?) tornam o documentário muito difícil de ser digerido por qualquer que seja o público exceto o petista mais ferrenho. Estas escolhas atrapalham a possibilidade de uma reflexão concreta sobre o que estamos vendo pelo excessivo tom panfletário pairar sobre a obra.

Nem mesmo “O Processo” com acesso direto a nomes como Gleisi Hoffman, Gilberto Carvalho e José Eduardo Cardoso tentou tal subterfúgio. Por outro lado, igualmente o projeto de Maria Augusta Ramos, há uma colocação de Dilma Rousseff no papel de injustiçada, enquanto Lula ganha ares de semideus como mostra a primeira imagem dele em uma fotografia em preto e branco com dezenas de pessoas o olhando encantadas. Douglas, entretanto, cai em uma armadilha mesmo sem perceber: a narrativa focada no popular ex-presidente como salvador da pátria coloca Dilma de escanteio, sendo ele a única esperança de salvação, pois, ela seria incapaz de fazê-la.

Não será “Excelentissímos” o último projeto a falar sobre o impeachment de Dilma – Petra Costa (“Elena” e “Olmo e a Gaivota”) lança um filme sobre o assunto no Festival de Sundance 2019. Porém, igual a situação da esquerda pós-eleições 2018, faz-se necessário repensar novos caminhos e abordagens para conseguir falar com mais gente e não apenas com seus guetos de sempre.

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