Ambos dirigidos por Ari Aster, Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” “Hereditário” guardam semelhanças e diferenças. Se o longa de estreia era uma produção mais intimista fechada em um pequeno núcleo familiar e ambientada em grande parte em uma casa escura e fechada, aqui, a história se passa em longa campos verdes cercado por uma floresta com personagens das mais diversas idades e um sol incessante presente em quase 24 horas do dia. 

Por outro lado, traumas familiares desencadeiam uma vulnerabilidade enorme nos protagonistas que acabam se vendo dentro de uma espiral de loucura e misticismo enlouquecedora. Tudo isso conduzido por um diretor criativo, hábil suficiente para construir atmosferas imagéticas e sonoras perturbadoras e inquietantes, muito longe do que o mainstream hollywoodiano confortavelmente oferece dentro do terror. 

Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” inicia quando Dani (Florence Pugh, excelente) perde os pais de forma trágica. Abalada, ela busca o apoio do namorado Christian (Jack Raynor), antropólogo que se sente sufocado no relacionamento de quatro anos, mas, sem coragem para terminar o caso. Dias depois, os dois recebem um convite do amigo de Christian: passar algumas semanas em uma comunidade rural na Suécia para observar como funciona a vida dos moradores, seus hábitos, costumes e religiosidade. Evidente que o local guarda terríveis segredos e as coisas não saem como se espera. 

De longe, o maior mérito de Ari Aster em “Midsommar” é construir uma atmosfera de paranoia e estranhamento quase próxima da perfeição. Seja para trabalhar o deslocamento de Dani junto ao grupo de amigos e do próprio namorado ao chegar em uma casa, no deslocamento de carro em uma estrada na qual a câmera vira 180 graus ou na transição muito bem construída de um sonho para um plano-sequência dentro do quarto da comunidade, o diretor elabora, junto com o precioso auxílio da trilha sonora de violinos cortantes composta pelo músico britânico The Haxan Cloak e da equipe de som, um cenário em que deixa o espectador sem rumo, afinal, as bases daquele universo soam sempre enganosas. 

Nos primeiros minutos, por exemplo, “Midsommar” coloca em dúvida uma possível instabilidade de Dani ao sugerir uma pessoa exagerada e possessiva ou se as preocupações com o namorado e a família são críveis. Este elemento clássico do terror, porém, não vem gratuitamente, afinal, o roteiro observa os componentes machistas nesta observação ao colocar elementos de um relacionamento abusivo e depreciativo de Christian e dos próprios amigos dele quanto à personagem de Florence Pugh, além do nosso próprio como sociedade ao sempre avaliar os problemas de uma mulher como histeria.  

ESPIRAL DE LOUCURA 

Ari Aster, porém, se torna ainda mais ácido e provocador no momento em que os personagens chegam ao vilarejo sueco. Aqui, “Midsommar” escancara gradualmente as hipocrisias dos dogmas religiosos e os males do fanatismo levados ao extremo. 

Tudo começa com a abordagem suave e pacífica feita por missionários, os quais aproveitam as fragilidades emocionais de uma pessoa para arrebatar novos fieis, como ocorre com Dani após a perda dos pais e toda a situação turbulenta do relacionamento com Christian. Daí por diante, a espiral de loucura só aumenta através dos sacrifícios em nome de um Deus regados a muito sangue, a estrutura rígida da sociedade, a intolerância com outras crenças, a morte de pessoas inocentes em nome da proteção daquele povo, entre outros. 

Apesar da inevitável comparação com “O Homem de Palha”, cult de terror dirigido por Robin Hardy em 1973, e do próprio clima de horror instaurado pelo diretor, é possível enxergar uma certa ironia em “Midsommar” semelhante ao visto em “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro. O deformado líder religioso, por exemplo, guia a todos com rabiscos coloridos em um livro semelhante à Bíblia assim como os rugidos e grunhidos incompreensíveis dos rituais deixam tudo ainda mais sentido.  

A presença dos jovens convidados vindos dos EUA, sentados à mesa com roupas informais enquanto todos vestem branco como no século XV, somente amplifica o anacronismo deste universo. Isso tudo culmina na fantástica sequência final em que gritos dominam a cena, gerando risos angustiados e nervosos da plateia. 

Com uma duração levemente excessiva (10 minutos a menos não faria mal), subtramas desnecessárias (a rivalidade das teses de doutorado) e personagens coadjuvantes mal aproveitadas (pobre Will Poulter), “Midsommar” pode até não ser perfeito, porém, revela-se mais um grande exemplar do terror recente. A produção consolida Ari Aster como um autor inventivo e corajoso suficiente para tocar em assuntos polêmicos de maneira original. Isso para um cinema americano cada vez mais convencional, é um grande feito. 

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