Mark Ruffalo é, de acordo com todos os relatos, um sujeito legal. É ótimo ator, ativista, e que usa sua força de astro, adquirida por participar dos blockbusters do Marvel Studios, para ajudar a viabilizar filmes pequenos, muitos deles com consciência social e que abordam temas relevantes da atualidade, como Minhas Mães e Meu Pai (2010), The Normal Heart (2014) e Spotlight: Segredos Revelados (2015). Ruffalo estrela e produz este O Preço da Verdade, baseado numa história real de corrupção, destruição ambiental e luta por justiça. É um bom filme, quem o assistir vai se entreter e se envolver com a história – Ora, é até difícil não se envolver. Mas, infelizmente, é também um filme que sofre por ser… banal.

A cena de abertura do filme parece a de um slasher film: vemos uns jovens festeiros indo nadar num lago, à noite. Quando esperamos que o Jason Voorhees apareça para acabar com eles, surge algo pior: uns sujeitos num barco, com roupas escuras, expulsam os jovens do lugar e começam a despejar algo na água. Décadas depois, o advogado Rick Billot (Ruffalo) é praticamente intimado por um fazendeiro que conhece a sua avó para representá-lo num processo por dano ambiental – os animais da fazenda do sujeito começaram a ficar doentes e a morrer de formas estranhas. Billot trabalha defendendo as grandes firmas de produtos químicos; mesmo assim ele aceita o trabalho, apesar da cara feia do seu chefe. O que ele descobre o leva a empreender praticamente uma luta de um homem só contra uma grande corporação, a DuPont, que envenenou indiscriminadamente o país. E o mundo…

As grandes corporações realmente viraram as vilãs de preferencia no cinema de Hollywood, e isso já de um tempo – mas elas fizeram por merecer, não é mesmo? E já vimos obras sobre advogados lutando contra elas em casos em que corporações causaram doenças ou mortes de milhares, ou milhões, de pessoas. De certa forma, O Preço da Verdade é quase um novo Erin Brokovich (2000), só que menos triunfante e sem os momentos de bom humor. O Preço da Verdade é 100% sério, filmado de forma sóbria e até meio distanciada pelo diretor de fotografia Edward Lachman – a fotografia exclui as cores fortes da paleta e as paisagens e cidades pequenas norte-americanas parecem cinzentas e sem vida, locais onde o sol nunca brilha. Como todo filme que coloca seu tema, sua “relevância social”, acima do seu valor como cinema hoje em dia, O Preço da Verdade é sério e deixa isso claro para o público.

E esse é o aspecto mais decepcionante do filme. O diretor Todd Haynes, responsável pelos marcantes Velvet Goldmine (1998), Longe do Paraíso (2002) e Carol (2015), tinha estofo para fazer um filme mais incisivo, mais diferenciado, o que até poderia beneficiar o tema. Haynes nunca foi um cineasta convencional, por isso é decepcionante ver que O Preço da Verdade poderia ter sido feito por qualquer diretor de filme da semana da Netflix e o resultado seria praticamente o mesmo. A história é filmada e conduzida do jeito que se espera, sem nada especial, e com um tom didático e meio autoimportante. Até intimidade para aliar a temática ambiental com um clima de paranoia Haynes já demonstrou com Mal do Século (1996), seu forte e estranho drama estrelado por Julianne Moore. Mas O Preço da Verdade não tem nada daquele clima ou daquela visão. É um filme protocolar e careta, e esse é o seu grande problema.

ECOS DE ‘ERIN BROCKOVICH’

A atitude convencional do filme é a enfermidade que se manifesta em sintomas espalhados pela narrativa: a esposa de Billot, vivida por Anne Hathaway, é um papel insosso e clichê que só serve para “reclamar que o marido trabalha demais”. Em dado momento, o protagonista “explica” didaticamente toda a tramoia da DuPont para a sua esposa, como se ela fosse uma criança – e a esposa assume meio que o papel do espectador. Já o chefe de Billot, interpretado por Tim Robbins – outro ator conhecido pela consciência social – começa antagônico ao herói, mas, no meio da trama, se redime bruscamente e faz um discurso que explicita o posicionamento do filme, para que nenhum espectador tenha dúvidas quanto a ele.  São momentos e clichês que parecem saídos do “manual do drama social hollywoodiano”. A história real merecia mais.

E de fato, até há alguns momentos em que os cineastas fazem justiça à história. Como na cena em que uma pessoa tendo seu sangue testado defende a própria corporação que a envenenou; ou a arguição sombria que Billot faz de um dos executivos da DuPont. Nesses momentos, o pulso de “O Preço da Verdade” acelera e o espectador sente a indignação dos personagens – um sentimento que o longa desperta de vez em quando apesar da abordagem dos cineastas trabalhar contra ele.

Ruffalo está ótimo, como sempre, e Bill Camp como o fazendeiro que inicia todo o processo também tem uma presença forte e humana dentro do filme. E a história, em si, é interessante. Mas precisava ser um filme igual a tantos outros que já vimos antes? No passado, cineastas como Steven Soderbergh no próprio Erin Brockovich ou Michael Mann em O Informante (1999) trataram com histórias similares, mas suas abordagens foram tudo, menos protocolares. As opções estéticas e narrativas de Todd Haynes são compreensíveis e até defensáveis, mas não conseguem evitar de fazer seu filme parecer com um drama da semana na TV. A história é assustadora e impactante, e Ruffalo, como o motor dela,  a impulsiona corretamente. Pena que o próprio diretor meio que o sabota fazendo uma obra formulaica, um bom filme que podia ser ótimo, um longa definido mais pelo ativismo do que pelo cinema.

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