Octavia Spencer é um tesouro de atriz. Tem presença; é boa tanto em humor quanto em drama; tem um rosto muito interessante, capaz de iluminar a tela e fazer todo mundo rir, ou com um simples contrair da face, fazer com que todo o público fique em suspense. Ela já nos fez rir muitas vezes, mas é essa última faceta que mais exercita em Ma, suspense da produtora Blumhouse que reúne Spencer com o diretor Tate Taylor, diretor do drama Histórias Cruzadas (2011) e pelo qual ganhou o Oscar de Coadjuvante.

É o tipo de filme do qual, quanto menos se falar, melhor. De maneira bem geral, o roteiro de Scotty Landes cria uma personagem interessante para Octavia Spencer interpretar: ela vive Sue Ann, uma funcionária de clínica veterinária em uma cidade pequena, solitária e com poucos traquejos sociais que se torna amiga – na verdade, uma mãezona, de onde vem o Ma do título, o apelido pelo qual se torna conhecida – de um grupo de jovens que querem farrear. Ma consegue comprar bebida sem problemas para eles e lhes fornece um lugar para fazer suas festanças: o porão da própria casa. Mas por trás da gentileza, Ma esconde uma personalidade instável e motivos para se aproximar dos jovens…

A primeira metade do filme é bem sucedida em estabelecer o clima de tensão estranha da história. O filme brinca com o temor social e extrai força do constrangimento: a figura da Ma é limítrofe, em uma cena ela é legal e divertida; na outra, parece a um passo de explodir. Os demais personagens ora gostam dela, ora a toleram, dependendo dos seus interesses no momento. É nesse trecho do filme que Spencer mais brilha, e o desempenho da atriz nos seduz e repele alternadamente. Quanto ao resto do elenco, os jovens da história não brilham, mas também não comprometem, e veteranos como Juliette Lewis e Luke Evans atuam bem com o material que o roteiro lhes fornece. Mas, sem dúvida, este é um filme que possui uma “dona do show”, e aparentemente o resto do elenco tem consciência disso.

SUSPENSE SOFRÍVEL

Pena que, quanto mais a história progride, mais fica claro que a atriz é a única real qualidade do filme. O roteiro começa a introduzir elementos que ora não dão em nada, ora são pouco explorados. Não é difícil adivinhar a motivação de vingança da Ma também, o que torna a história bem previsível. E para piorar, Tate Taylor não tem vocação para o suspense – aliás, já tinha demonstrado isso no seu filme anterior, o fraquinho A Garota do Trem (2016). Na desconjuntada meia hora final, parece que tanto o diretor quanto o roteirista ficam com pressa para acabar o filme, resultando em cenas rápidas e desenvolvimentos de trama atabalhoados que poderiam até ter ressonância emocional, mas, da maneira como foram concebidos e filmados, só demonstram a confusão dos envolvidos.

Há na história um inegável subtexto racial. Em flashbacks mostrando a juventude da Ma, vemos que ela era praticamente a única pessoa de cor numa cidade branca. Sua vingança é a vingança dos excluídos, em todos os aspectos, inclusive o racial. Embora essa noção seja interessante, ela é infelizmente pouco explorada pelo filme: no presente, o roteiro se limita a colocar na boca da vilã a frase “Não há espaço para dois de nós aqui” quando ela ataca o único (de novo) rapaz negro do grupo de jovens. Um comentário social e racial mais incisivo poderia aprofundar a protagonista e ajudar o filme, mas não dá para esperar muito disso do realizador do já mencionado Histórias Cruzadas, outra obra bem neutra e insossa no tocante ao debate da questão racial. Pelo menos há coerência aí.

O que resta no filme é o trabalho digno da atriz principal. Ma continua a trajetória da produtora Blumhouse na produção de filmes de terror e suspense com pequenos orçamentos. Alguns deles tiveram bons resultados, alguns foram fracos, e Ma pertence ao segundo grupo. Pena, pois até parecia que este iria resultar em algo especial. Por causa de Octavia Spencer…

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