A sinopse de “Enterrado no Quintal” acabou ficando assim: Isabela, ainda adolescente, enterrou uma arma no quintal de casa como uma maneira de ter em mente uma forma de se vingar do seu padrasto, que agrediu a sua mãe diversas vezes durante a sua infância. Ela relembra de ocasiões em que viu a mãe sangrando, jogada no chão da cozinha com sangue pelos móveis, situação muito difícil. Anos depois ela finalmente decide por em prática o plano que alimentou por muito tempo. Descobre que o pai se mudou para o Lírio do Vale, e com a sua moto sai a procura dele para enfim acertarem as contas. 

Ao contrário de outros projetos, este gravamos sem nenhum apoio de edital, nem nenhuma perspectiva futura de dinheiro. A grana que tínhamos foi pra alimentação e transporte, apenas. Então trazer o filme para o meu bairro, e não para Parintins como é no conto, é uma solução simples de tomar, e que remete a um mantra do cinema de baixo orçamento: a limitação se transforma em linguagem. Se é mais barato filmar no meu bairro, que isso se transforme no que o filme é. 

Fui atrás de filmes baratos que pudesse usar como referência, filmados com câmera na mão, e que transmitissem alguma “precariedade” através de movimentos de câmera, iluminação, transições, imagens desfocadas ou fora de quadro.

 Aronofsky, Nachtergaele e, claro, Von Trier

Logo de cara me veio em mente Claire Denis, e lá fui eu rever pela décima vez Bom Trabalho (1999). É sempre um prazer, claro. Assisti também a Desejo e Obsessão (2001). E… senti falta de algo mais cru, menos poético. São dois filmes poderosos, só não era exatamente o caminho.

Revi O Lutador (2008),  do Darren Aronofsky, e pude lembrar o quanto este filme é realmente extraordinário. O nervosismo da câmera somado a figura intensa e decadente do Mickey Rourke causam um impacto muito grande. Trabalho muito consciente da direção na forma como estabelece as suas imagens que são caóticas sempre por uma razão muito plausível.

A Festa da Menina Morta (2009) também vem forte, principalmente como são filmadas as cenas internas de dia, com muitas sombras projetadas pela iluminação que vem de fora das casas. Não tivemos quase nenhum equipamento de luz durante a gravação, então beber da fonte de um filme especial como esse sempre é um bom caminho.

Mas o que ficou mesmo martelando na minha cabeça, e que vi várias vezes em pouco tempo foi Dançando no Escuro (2000). Rever contínuas vezes um filme do Lars von Trier é algo desafiador, mas que fiz com grande prazer com este, que é o seu filme mais… doce.

Sem dúvida é um dos diretores que me fez despertar para outra ideia de cinema quando tava iniciando na vida cinéfila. Resisti muito a ideia de tentar copiá-lo nos meus trabalhos anteriores, pois só ele é capaz de fazer bem o cinema que ele se propõe a fazer. É particular demais.

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Mas neste momento da vida em que outras ideias de cinema já não são tão escassas no imaginário, me senti bem pra investigar o cinema de baixo orçamento do dinamarquês, que já tinha dado algumas “dicas” sobre a sua produção ao lançar (e abandonar logo na sequência) o Dogma 95. Dançando é um filme do Dogma só que muito mais arejado e aberto a possibilidades.

A câmera na mão passeia pelos rostos dos atores, sempre em movimento ou tremendo desfocada como se estivesse procurando algo olhando tudo pela primeira vez. Fulano entra na sala em um plano médio, e no plano seguinte já está sentado à mesa de frente para o outro falando e o vemos num close. O intervalo entre um plano e outro (ele fecha a porta, cruza a sala, senta à mesa para falar) é o público quem completa. Depois que essa linguagem se estabelece, o estranho fica cada vez menos estranho.

Referência fundamental do que filmamos.

É claro que o sucesso do filme também tem muitíssimo a ver com o trabalho fenomenal de Björk. E até nisso o filme se transforma numa inspiração para mim, afinal tenho como protagonista uma atriz que é capaz de entregar um filme.

MAGNETISMO ESPECIAL

Não irei de forma alguma ficar lançando expectativas sobre o trabalho da Isabela Catão no filme, pois sei que isso pode criar um efeito reverso, que as pessoas estabeleçam um padrão que o trabalho dela “precise alcançar”.

Nos últimos anos eu e Catão estivemos em alguns testes de atuação, passamos juntos em alguns trabalhos, não fomos selecionados juntos para outros também. E ali, dividindo camarim, set, filas, ou depois conversando sobre essas experiências que estamos alcançado como atores de vídeo, percebo o quanto vejo nela uma parceira que comunga de ambições parecidíssimas às minhas, que são também similares as de toda uma geração de artistas que se fortaleceu nos últimos anos, mas que ainda precisa correr tudo de novo pra continuar tentando viver do seu trabalho na arte, e não voltar a trabalhar em escritório ou qualquer outra função (no meu caso, a redação de algum jornal). 

Catão é uma atriz ética, com caminhada contínua no teatro há pelo menos seis anos, e que, da sua maneira, compreende bem a discussão sobre o papel político da função que desempenha. É ser atriz porque isso é uma vocação que remete a tradição de artistas que tornaram o mundo do jeito que o conhecemos hoje. É levar adiante uma maneira de pensar que contribua para que a sociedade tenha meios de escapar de uma existência em que apenas se trabalha para se ter dinheiro e se vai ao culto para ir ao céu quando morrer. Ter uma artista tão séria liderando o seu filme eleva o trabalho de toda a equipe.

Eu sinto que a Catão já merece voos mais altos, com destaque em produções nacionais. Mas creio que por conta da sua continuidade é questão de tempo para que isto aconteça. Ficaria muito satisfeito se este filme for lembrado mais pela Isabela, do que pelo meu trabalho, ou o do Diego Moraes. Porque ela realmente tem algo diferente no olhar. É magnetismo, algo que vem e se estabelece. E isso não há diretor no mundo que seja capaz de criar.

Torço muito pra que tudo o que envolve “Enterrado no Quintal” faça sentido como uma representação da Manaus de 2019 com as suas contradições. E tomara que com ele seja possível viajar, conhecer outros lugares, entender como nossa realidade é vista por pessoas de outros contextos e de que maneira isso nos afeta de volta. Ainda tem mais perguntas que respostas, mas os afetos envolvidos me fazem ter um sentimento muito bom sobre fazer este filme.

Na pior das hipóteses, descobri várias ruas no meu bairro que ainda não conhecia.

CONFIRA MAIS FOTOS DOS BASTIDORES DE “ENTERRADO NO QUINTAL”:

“Enterrado no Quintal” foi gravado entre os dias 26 e 29 de outubro de 2019

Diego Bauer conversa com o diretor de fotografia, César Nogueira

Últimos ajustes no penteado de Isabela Catão antes das gravações

Previsão de lançamento é para o primeiro trimestre de 2020

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