Em 2014, é quase curioso considerar o filme “Pulp Fiction – Tempo de Violência” como um filme “cult”. Sua popularidade é incontestável, assim como a de seu diretor, Quentin Tarantino. Os filmes deste chegam aos cinemas sem problemas, concorrem a grandes prêmios e passam na TV aberta. Porém, em 1994, “Pulp Fiction” era algo tão estranho, inovador e, ao mesmo tempo, tão irresistível, que não poderia ser encaixado em outra categoria entre os cinéfilos. É para lembrar esse frescor que o Cine Set dessa semana homenageia os 20 anos do filme.

A trama de “Pulp Fiction – Tempo de Violência” entrelaça os caminhos de diferentes indivíduos não muito honestos: há o casal de assaltantes Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), os assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson), que trabalham para o chefão Marsellus Wallace (Ving Rhames) e sua esposa, Mia Wallace (Uma Thurman), além do boxeador Butch Coolidge (Bruce Willis), dentre outras figuras memoráveis. Todos possuem uma ligação direta ou indireta uns com os outros, o que é decifrado a partir do desenrolar não linear da trama.

A primeira coisa a se dizer sobre “Pulp Fiction” é como Tarantino levou à perfeição o “remix” de influências cinematográficas num só filme. Esse retrabalho de gêneros específicos e filmes emblemáticos já estava presente na American New Wave dos anos 1960-1980; quando ele entra no contexto das então novas tecnologias do VHS, DVD e Internet nos anos 1990, “Pulp Fiction” diz como o cinema norte-americano pode se reinventar: a partir de mil referências, como que uma “wikipedia cinematográfica” na qual o cinéfilo mais ávido seria aquele que entenderia todas essas citações. Se não entendesse, tudo bem; o filme seria divertido do mesmo jeito, como o cinema gringo sempre tratou de ser.

Uma Thurman como Mia Wallace em Pulp Fiction

Foi dessa maneira que Mia Wallace surge como uma releitura de Anna Karina em vários filmes de Jean-Luc Godard; a enigmática (e cobiçada) maleta dourada é emprestada de “Kiss Me Deadly” (1955); e a lanchonete em que Vincent Vega e Mia vão é recheada de sósias de astros da música e do cinema como Marilyn Monroe e Buddy Holly. São tantas as referências a filmes, programas de televisão e cultura pop em geral que só recorrendo a um guia para lembrar ou descobrir todas.

Outro ponto querido a Tarantino e muito bem executado em “Pulp Fiction” é a ressurreição da carreira de atores já meio decadentes. Hoje é comum lembrar o filme como “o retorno triunfal” de John Travolta e Bruce Willis, mas na época o feito realmente pegou público e crítica de surpresa. Travolta não fizera nada de relevante desde o emblemático “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977), e mesmo com o sucesso da comédia “Olha Quem Está Falando” (1989), ninguém esperava que ele fosse capaz de apresentar uma performance mais marcante que seu Tony Manero dos anos 1970.

Bruce Willis estava num patamar semelhante. Tinha como pontos altos de sua carreira a série de TV “A Gata e o Rato” (anos 1980) e a série de filmes de “Duro de Matar” (anos 1980-1990). Foi só depois de “Pulp Fiction” que ele mostrou não ser só o herói de ação engraçadinho, estrelando filmes mais interessantes como “Os 12 Macacos” (1995), “O Quinto Elemento” (1997), “O Sexto Sentido” (1999), até culminar no já clássico indie “Moonrise Kingdom” (2013).

No quesito elenco, devemos a “Pulp Fiction” a presença de Samuel L. Jackson em vários filmes queridos aos fãs do cinema depois de 1994. Esse foi o filme que o lançou ao estrelato, e não poderia ter sido de maneira melhor. Na cena em que Jules recita um trecho da Bíblia enquanto pondera se matará ou não dois personagens, fica claro que a parceria criativa entre Tarantino e Jackson gerou um personagem pronto para entrar na história do cinema. Que mais dizer sobre a direção de elenco num filme em que o público descobre, atônito, que Uma Thurman consegue atuar de fato?!

Uma Thurman e John Travolta dançam em Pulp Fiction

“Pulp Fiction” soube como poucos agregar elementos “modernosos” a outros clássicos. Esmiuçando o caldeirão de referências do filme, percebe-se que a profusão de falas malucas que Tarantino ama colocar na boca de seus personagens é inserida no mesmo contexto que expressões chocantes de violência gráfica, uma trilha sonora com o melhor dos clássicos dos anos 1970 e itens clássicos do cinema como o McGuffin (termo que designa um objeto que impulsiona a ação dentro da trama e cuja função não é devidamente explicada) dos filmes de Alfred Hitchcock. Essa proposta de reinvenção do clássico, do culto e do popular num mesmo produto é o que deu a “Pulp Fiction” a importância que ele tem hoje, depois de posteriormente copiado e recopiado à exaustão por outros diretores e roteiristas.

Dentre os vários elementos caros à filmografia de Tarantino, o cuidado com o roteiro se destaca em “Pulp Fiction”. O entrelaçamento das histórias de Vincent e Jules, Vincent e Mia, Pumpkin, Honey Bunny e Jules, Butch e Marsellus e todos os outros personagens menores é um pequeno quebra-cabeça que o espectador monta no decorrer do filme, de uma maneira não exatamente original, mas ainda assim atraente.

Parece não ter bastado a Tarantino deixar claro seu enorme conhecimento sobre a sétima arte (o que não raro o faz ser acusado de plágio por “emprestar demais” certas referências); a riqueza de detalhes, a fluidez das tramas paralelas se encontrando ou se esbarrando e a construção do clímax garante que “Pulp Fiction” não seja apenas um filme para “nerds cinéfilos”, mas também um produto que gera choque, risadas, temor e empolgação como os bons filmes pipoca. Seu tom não é tão épico como os posteriores “Kill Bill” (2003; 2004), “Bastardos Inglórios” (2009) ou “Django Livre” (2012), mas já se percebe nele a vontade de não fazer filmes para um público restrito.

A importância de “Pulp Fiction” pode ser avaliada também para além da obra em si. Isso acontece porque o filme mostrou à indústria de cinema não apenas norte-americana, mas do mundo como um todo, que há a possibilidade de um filme independente ser distribuído de forma a gerar não só respeitabilidade, mas rentabilidade, e que nem sempre fugir às regras do cinema mais “convencional” é sinônimo de prejuízo. No caso de Tarantino, todos saíram ganhando.

Fanart de Pulp Fiction

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