Alguns filmes parecem capturar uma estranha energia em celuloide, e O Massacre da Serra Elétrica é um dos que se encaixa nessa definição. Realizado em meio ao mal-estar da Guerra do Vietnã e numa época em que o cinema americano buscava romper tabus, o filme de Tobe Hooper chega ao seu 40º. aniversário ainda capaz de perturbar o espectador, justamente por explorar esses tabus de forma criativa e visceral.

Hoje em dia as origens do Massacre são conhecidas. Hooper e seu co-roteirista Kim Henkel eram cineastas residentes no Texas e rodaram juntos Eggshells (1969), o primeiro longa da carreira de Hooper como diretor. Ambos haviam ouvido falar, na década de 1950, de Ed Gein, o fazendeiro maluco que violava sepulturas para roubar pedaços de corpos e usava-os para fazer estranhos objetos de decoração. Gein também matou duas mulheres e serviu como inspiração para o personagem Norman Bates no clássico Psicose (1960) de Alfred Hitchcock. Quando foram criar seu filme de terror, Hooper e Hinkel foram também influenciados pelos noticiários sobre o Vietnã, pela brutalidade da guerra e pelo clima de insegurança geral na sociedade americana – basta lembrar que no mesmo ano em que o Massacre foi lançado, Richard Nixon renunciou à presidência americana devido ao escândalo de Watergate.

Se o governo espionava o partido rival e mentia para o povo, o filme de Hooper e Henkel iria tentar convencer os espectadores de que tudo nele era verdadeiro. Por isso, Massacre começa com uma assustadora narração, estabelecendo para o espectador que o filme era baseado em fatos reais – e não era, apenas algumas características do assassino e da sua louca família apresentavam semelhanças com o caso Ed Gein. No entanto o publico acreditou, e até hoje muitos ainda acreditam, que a história do Massacre realmente aconteceu. E essa é a maior qualidade do filme: ele realmente puxa o espectador para dentro daquela narrativa quase-documental e não o larga até o final.

Logo no início, após a narração, fica clara outra grande qualidade do Massacre: ainda hoje, é um dos filmes de horror que melhor utilizou o som como ferramenta narrativa em toda a história do gênero. Por algum tempo a tela permanece escura e não vemos nada, apenas ouvimos estranhas batidas… Então um flash ilumina a tela, ouvimos aquele som inconfundível da máquina fotográfica polaroide e percebemos o que está acontecendo: na escuridão da noite, alguém está violando uma sepultura e tirando fotos do cadáver. Depois, já de dia, vemos esse cadáver transformado numa estranha escultura, e então tem início a “viagem ao inferno” a que Hooper e seu elenco conduzirão o publico.

Sob o calor texano vemos um grupo de jovens – que se tornaria um clichê dentro do gênero – a caminho do cemitério. Sally (Marilyn Burns) ouviu sobre a violação do cemitério e foi até lá para ver se a sepultura do seu avô não foi mexida. Depois, os cinco jovens partem para visitar a velha casa da família de Sally e seu irmão Franklin (Paul A. Partain), não sem antes pegarem um estranho carona (Edwin Neal). Após esse susto, chegam à velha casa, de visual semelhante a uma “mansão assombrada”, sem saberem que, pertinho dela, fica uma propriedade com muitos carros escondidos na parte de trás, guardada por sujeito grandão com problemas mentais e que está preparando o almoço… Apelidado mais tarde no filme de Leatherface (traduzido, seria algo como “Cara de Couro”), este mascarado personagem vê os jovens apenas como carne para o abate.

Logo no início o filme aperta um poderoso botão de medo do publico, o tabu da violação de cadáveres, apenas para introduzir outro tabu no final, o do canibalismo, na famosa “cena do jantar”. Massacre assusta pela desumanização: o filme equipara seus personagens a animais. Hooper nos mostra gado bovino, na casa do Leatherface há uma galinha presa na gaiola e nesse ambiente ouvimos na trilha sonora cacarejar de galinhas ou guinchos de porcos, estabelecendo o paralelo entre os bichos a serem consumidos e os próprios personagens que serão mortos.

E é interessante notar como a tensão é construída, pois nesse sentido o Massacre ainda permanece muito além da maioria dos exemplares de gênero e de todos os seus imitadores. Hooper alterna momentos de surpresa – como a primeira aparição do Leatherface, que surge do nada, sem quase nada para antecipar sua entrada em cena – com uma tensão que vai escalando cada vez mais. Os momentos que antecedem a morte da personagem Pam (Teri McMinn), por exemplo, são construídos com capricho: quando ela adentra a casa de Leatherface, a câmera a enquadra de costas, passando por baixo de um balanço, enquanto a moça caminha na direção da estrutura cada vez maior e ameaçadora à sua frente; depois, já no interior, a direção de arte absolutamente bizarra cria a atmosfera de pesadelo muito antes da aparição do maníaco. Afinal, a cadeira decorada com um esqueleto e o chão coberto por penas são elementos difíceis de esquecer após serem vistos.

Como o Massacre inventou algumas convenções desse gênero, é interessante notar como ele faz uso de elementos que mais tarde seriam assimilados pelo publico. O personagem Franklin, por exemplo, é paralítico, e ao invés do filme tentar criar no espectador uma simpatia por ele, Hooper e o ator Partain acabam fazendo o inverso, eles o tornam o mais antipático e chato dos personagens. O próprio Leatherface perturba e desafia o publico, sendo caracterizado como uma criança – seu intérprete, o ator Gunnar Hansen, desenvolveu uma linguagem corporal quase infantil para ele, como na cena em que ele mostra perturbado por todas as pessoas aparecendo em sua casa. Porém, ele é também sexualmente ambíguo. Na meia hora final do filme, quando Sally se torna prisioneira do maníaco e da sua família, vemos que ele parece ser a “mulher” do grupo – até sua máscara se torna feminina e suas atitudes, submissas.

Nesse trecho do filme outro tabu entra em cena, quando surge uma versão distorcida da unidade familiar. A grotesca família do Leatherface não tem papeis claros: O “Cozinheiro” vivido por Jim Siedow é o pai ou irmão dos outros? Por que não há nenhuma mulher, exceto pelo cadáver no sótão? E o “Vovô” – interpretado por John Dugan, na época um jovem disfarçado sob pesada maquiagem – é um personagem que desafia a compreensão, pois parece estar morto e volta à vida ao provar sangue. É nesse segmento que Massacre extrapola os confins do seu gênero e se torna também uma bizarra comédia de humor negro. Há muito humor no filme – nem sempre facilmente perceptível, é claro – decorrente do contraste, do choque entre os jovens mais “normais” e o louco núcleo familiar dos vilões.

Ninguém expressa melhor esse choque do que a atriz principal do filme, e Marilyn Burns tem aqui uma das mais incríveis atuações da história do gênero. Na meia hora final, basicamente a sua personagem passa o diabo nas mãos da família canibal, e o impacto do filme, em grande parte, se deve a ela, pois poucas atrizes conseguiram ser tão convincentes ao retratar medo e pavor quanto ela. Também viraram lendárias as histórias sobre as dificuldades das filmagens, e Burns foi uma das que mais sofreu: parte do sangue visto no sue figurino durante os minutos finais do filme não é cenográfico, a atriz realmente se machucou para fazer algumas cenas, o que só adiciona ao realismo da sua atuação.

Esse realismo é o que falta na maioria dos sucessores de O Massacre da Serra Elétrica dentro do gênero. Mas uma das coisas que o tornam fascinante é que ele não é completamente realista: ao adentrar dentro dos domínios loucos da família do Leatherface, Tobe Hooper diminui a verossimilhança da primeira parte do filme e cria uma atmosfera maluca onde tudo pode acontecer. Afinal, o tema principal de Massacre é a loucura, sobre o quanto ela está próxima de nós e, no filme, a loucura tem a forma mais assustadora possível, a forma humana. Não à toa, uma das imagens mais icônicas do longa é o super close no olho de Marilyn Burns enquanto ela grita, desesperada – é quando o assalto aos sentidos promovido pelo filme alcança seu auge. A imagem do olho, e outras com teor quase expressionista – como a tempestade solar que acompanha os créditos – convive junto com outras completamente banais e realistas, como a do tatu atropelado na beira da estrada.

São cenas como essa que dão ao filme sua força, ainda depois de tantos anos, e não a sanguinolência ou as mortes, pois O Massacre da Serra Elétrica não é tão gráfico ou sangrento quanto sua reputação sugere. É a energia indefinível do filme, criada pelo contraste entre realidade e estilização e pela exploração dos tabus sociais, que não consegue ser recapturada por todas as continuações, remakes e imitações do filme. Outros cozinheiros de Hollywood tentaram, mas o sabor e os temperos daquele primeiro churrasco de 40 anos atrás simplesmente não conseguem ser reproduzidos.

Nota: 10,0