A cena tem um indisfarçável sabor de clichê, mas nunca perde a graça (ou o gosto): todo ano, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anuncia seus indicados ao Oscar – ainda o prêmio mais importante e prestigioso da indústria americana –, hordas de litigantes, vindos dos mais diversos rincões (as redes sociais, a blogosfera, a mesa de bar), marcham com zelo e abnegação para entregar-se a uma missão sagrada: abraçar este filme, ou, melhor ainda, execrar aquele outro.

Tratam-se de ruidosas facções de cinéfilos em guerra, trazendo para a telona o espírito de Fla-Flu que deveria pertencer somente ao esporte, mas que parece contaminar todos os assuntos e praças, das eleições americanas à vida íntima de cantores sertanejos. E, em quase todos os casos, servindo apenas para enfraquecer e anular o debate.

A bola da vez é a maré negativa em torno de La La Land, o musical colorido, açucarado, nada original e – por que não? – delicioso de Damien Chazelle (de Whiplash: Em Busca da Perfeição), uma reação passional ao oba-oba exagerado de parte da crítica e do público, que, ao longo dos festivais e premiações, construiu de forma igualmente passional uma reputação quase mágica, transcendental, para o filme, como se este estivesse realizando um milagre ao reviver o encanto ingênuo dos clássicos de Astaire, Kelly e Berkeley, pintando com tons esfuziantes a paisagem amarga e cínica do cinema contemporâneo.

A coisa se complica mais ainda porque a Academia, embora tenha aderido à demanda por representatividade entre seus indicados – numa reação tímida ao papelão do #OscarsSoWhite do ano passado –, fez chover indicações sobre La La Land, dando a entender que, sim, ela está atenta à contribuição de mulheres, negros, latinos e LGBT’s ao cinema, mas o que ela realmente gosta é de um filme passadista, nostálgico, estrelado por pessoas brancas em confortáveis conflitos classe-média, e que, ainda, por cima, comete a suprema heresia de colocar um galã branco (Ryan Gosling) como um purista do jazz (uma arte indiscutivelmente negra, mas não só – ver mais adiante), pontificando sobre arte “autêntica” e comercialismos rasteiros.

Um série de equívocos aí: a adulação excessiva do filme de Chazelle, que encontrou eco em boa parte do público e gerou um buzz gigantesco, que marketing de estúdio nenhum conseguiria criar sozinho – mas que atraiu, também, as frustrações e a antipatia de quem acreditou e se decepcionou com o bafafá; a lentidão dos membros da Academia em conectar-se com um público que anseia por um cinema mais democrático e plural – e, nessa conta, entram não só a ausência de pessoas fora do padrão homem-branco-maduro-abastado, mas também o reconhecimento, em indicações, de artistas com condutas pessoais altamente questionáveis, como Mel Gibson (que emplacou Até o Último Homem para Melhor Filme, Direção e Ator), notório por atitudes de racismo e misoginia, e Casey Affleck (Melhor Ator, por Manchester à Beira-Mar), vindo de um infame caso de conduta grosseira e abusiva com funcionárias femininas da produção de I’m Still Here (2010); e a própria superficialidade dessas discussões exaltadas, onde sobram paixões e faltam argumentos: seria ótimo se o protagonista de La La Land, pianista de jazz, fosse vivido por um ator negro – mas é, de fato, prejudicial para o filme que Ryan Gosling não o seja?

Esse debate é ainda mais estéril em se tratando de jazz, que, assim como o samba no Brasil, é por definição uma democracia musical. Com todas as injustiças aos grandes músicos negros, obrigados durante décadas a se apresentar em estabelecimentos segregados, fugindo de agressões de rednecks ignorantes e da perseguição de policiais racistas, o jazz se desenvolveu como música graças à sucessão ininterrupta de grandes músicos de todas as origens – Bing Crosby e Frank Sinatra, brancos, são cantores tão importantes para o estilo quanto Louis Armstrong e Nat “King” Cole, e o racismo às avessas de críticos de música, sobretudo franceses, condenaria como “trivial” e “não é jazz o suficiente” a arte de grandes instrumentistas brancos, como o pianista Dave Brubeck, e de uma das maiores cantoras do gênero: Doris Day (a própria – influência fundamental para a arte de Ella Fitzgerald), pelo critério único e absurdo da origem – se não se fosse negro e pobre, não se seria capaz de “entender” o jazz, o que seria negar a universalidade da música.

'Aquarius': equilíbrio perfeito entre simbolismos, política e memória afetiva

Por aí já deu pra se ver a série de questões complexas que passam ao largo dos ânimos incendiados, a favor ou contra, de La La Land. E que se manifestam em vários outros dualismos simplistas, que só dificultam o entendimento entre os cinéfilos. O que dizer, por exemplo, da polêmica envolvendo a não-indicação de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro? Por questões principalmente ideológicas – Aquarius seria uma obra de resistência ao devoramento da esquerda no Brasil, um trabalho que aponta de forma corajosa as fragilidades e contradições da elite reacionária brasileira, e por aí vai –, o filme ganhou uma dimensão simbólica gigantesca, e sua não-indicação por parte da comissão brasileira foi não apenas ilustrativa dessa triste confusão entre arte e política, como impediu a colocação em uma perspectiva razoável dos demais candidatos: mal se falou em outros grandes trabalhos, como Boi Neon e Mãe Só Há Uma, e se tomou Pequeno Segredo, o eleito, como um filme obrigatoriamente medíocre, reacionário e indigno da atenção de cinéfilos sérios.

Mas nenhum filme, entre os ligados ao Oscar desse ano, foi tão exemplar dessa volatilidade amor-ódio quanto O Nascimento de uma Nação, de Nate Parker. Com um debute extraordinário no festival americano de Sundance, no ano passado, o filme tinha uma série de armas para se converter no arrasa-quarteirão que acabou recaindo sobre La La Land, mais para o gosto do que para o desgosto de Chazelle: um jovem ator-diretor-roteirista aos moldes de Orson Welles (Parker), tratando de forma vigorosa um tema que é uma chaga permanentemente aberta na história americana: a escravidão dos negros. A boa vontade dos júris por trás desses festivais (em sua maioria, o mesmo padrão homem-branco-etc. lá de cima, que é a maioria da Academia), ávidos em desfazer o equívoco do Oscar anterior, turbinou o hype de Nascimento da mesma forma que o escapismo de La La Land ganhou destaque por tornar sua premiação uma escolha razoavelmente neutra e confortável para a Academia, ou que Aquarius virou uma questão de honra para os cinéfilos mais ligados à esquerda no Brasil. Ou seja: por razões que têm muito mais a ver com política e sociedade do que com méritos artísticos. Antes mesmo que a bolha de Parker estourasse, já havia gente acusando o exagero com que o filme vinha sendo exaltado.

Nascimento de uma Nação

Mas a descoberta de um processo judicial por estupro contra Parker e seu corroteirista, Jean Celestin, no ano de 2002, transformou todo o amor, mais do que depressa, em revolta. Embora o diretor tenha sido inocentado no julgamento, seu parceiro, Celestin, não foi, e a reação indiferente, contrariada de Parker à notícia de que a vítima do suposto estupro cometeu suicídio, em 2012, selou o destino do artista e seu filme. Embora, para todos os efeitos, Parker tenha sido legalmente inocentado, a insensibilidade de suas declarações ao sofrimento da suposta vítima, e indícios de um possível acobertamento dos dois envolvidos por um sistema judiciário que, tal como no Brasil, ainda é muito desfavorável às mulheres vítimas de agressões sexuais, despertou o escrutínio da imprensa e das redes sociais. O Nascimento de uma Nação, o filme, desapareceu em algum momento dessa discussão. Casey Affleck, implicado num caso legalmente menos grave (assédio) e já resolvido num acordo confidencial, não teve o mesmo destino de Nate Parker, por razões complexas que envolvem parentescos e amizades poderosas em Hollywood e possíveis privilégios raciais. Mas movimentos como o #OscarsSoWhite e o caso de Parker abrem precedentes que não podem ser ignorados: a Academia também tem de se mostrar atenta, se não quiser ser acusada por algo mais do que escapismo e nostalgia.

A provar que há, sim, temas sérios e debates relevantes no mais das vezes hilário Fla-Flu do cinema. Mas a tônica das discussões continua a ser o exagero e a simplificação. Se este texto fosse sobre o Oscar do ano passado, provavelmente estaríamos divididos em charangas para Mad Max e O Regresso, com Spotlight logo atrás na tabela. Jennifer Lawrence (por Joy: O Nome do Sucesso) seria a superestimada vilã entre as atrizes indicadas, e Leonardo DiCaprio o sofrido herói, depois de suportar todas as provações de O Regresso. A principal protagonista feminina do ano, a Imperatriz Furiosa de Charlize Theron, teria sido ignorada nas indicações, o que nos faria escrever longas análises sobre o desprezo de Hollywood por filmes de ação e heroínas femininas no gênero. E por aí vai. Mudam os filmes, mas a vontade de torcer apaixonadamente, contra ou a favor, não.

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