Amor Pleno se inicia na França, enquanto acompanhamos o americano Neil (Ben Affleck) e a francesa Marina (uma luminosa Olga Kurylenko). Eles parecem muito apaixonados. Quando eles se mudam para os Estados Unidos junto com a filha dela, o amor desaparece. Para onde foi? Por que os sentimentos surgem e se vão sem o menor aviso? Esse é o tema da nova meditação cinematográfica de Terrence Malick, um filme um pouco inferior aos seus trabalhos anteriores, mas ainda repleto de momentos capazes de maravilhar o espectador.

Como de praxe nos trabalhos do veterano diretor, os voice-overs dos personagens dirigem a narrativa. Marina é a primeira narradora, nos transmitindo seus pensamentos sobre a sua felicidade. Mais tarde acompanhamos os pensamentos de Neil. Um terceiro personagem aparece na história, o Padre Quintana (Javier Bardem), para quem ambos pedem conselhos. O padre, por sua vez, está passando por um momento de questionamento da sua fé. Cada uma dessas vozes e seus pontos de vista falam em sua própria língua: francês, inglês, espanhol. Com essa pluralidade de vozes Malick transmite a universalidade do seu tema.

Depois entra em cena a quarta personagem, Jane, vivida por Rachel McAdams, com quem Neil se envolve após se separar temporariamente de Marina. Então acontece de novo: aquele sentimento tão intenso e capaz de modificar a vida do novo casal é subitamente destruído. Aliás, vale a pena dizer que, a exemplo do longa anterior de Malick, A Árvore da Vida (2011), este também possui elementos autobiográficos. Nos anos 1980, enquanto esteve recluso do cinema e viajando pela Europa, Malick teve um romance com uma mulher francesa, casou-se com ela e ambos se mudaram para o Texas. Eles se divorciaram e o diretor se reaproximou de uma antiga namorada do colégio, com quem está até hoje.

A ambientação no meio-oeste americano de Amor Pleno lembra bastante o cenário de A Árvore da Vida – uma daquelas cidadezinhas que parece não se modificar com a passagem do tempo. Apesar disso, o tema de Amor Pleno é mais humano, mais próximo de nós e menos voltado para Deus e o universo como o filme anterior. Como Neil, Marina e Jane são personagens meio indefinidos, o espectador se sente à vontade para projetar seus próprios sentimentos e vivências neles. Afinal, muitos de nós já amamos, magoamos e fomos magoados, frequentemente sem saber por quê. É essa meditação que Terrence Malick nos convida a fazer com seu filme, procurar esse por que.

As performances dos atores são completamente livres, como já se tornou hábito nas produções do diretor. Quem melhor se aproveita disso é Olga Kurylenko, que realmente encanta e conquista o espectador – sua atuação lembra em alguns momentos a etérea Sra. O’Brien, a mãe das crianças de A Árvore da Vida, vivida por Jessica Chastain. É curioso perceber como muitas vezes a câmera de Malick se detém sobre Olga, deixando Ben Affleck meio sumido nos enquadramentos – a atitude de quase observador do personagem dele dá crédito às suposições de que ele representa Malick no filme, e o diretor está recriando uma experiência da sua vida.

É um filme de imagens, com os diálogos sendo usados apenas quando realmente necessários, para transmitir informações ao publico, mas nunca de maneira intrusiva ou demasiado expositiva. E algumas dessas imagens são muito belas, como é o padrão num filme do diretor: um pôr-do-sol, os campos nos quais a personagem Jane treina seus cavalos, ou mesmo a cena que mostra Marina e Neil andando na beira da praia, com cuidado para não afundarem na areia molhada, são momentos visualmente belíssimos, captados por maestria pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki.

E as imagens também apresentam, muitas vezes, significado temático. A cena de Marina e Neil andando sobre a areia fofa indica ao espectador, de forma visual, o quão frágil será o relacionamento do casal. Quando Neil assume seu trabalho como inspetor ambiental, ele percorre paisagens desoladas e cinzentas, justamente quando seu relacionamento com Marina está no pior momento. A destruição externa reflete o drama interno, e novamente Malick faz da natureza uma extensão dos sentimentos dos seus personagens. O diretor pensa seu cinema de forma eminentemente visual e nunca explica mais do que o necessário para o espectador – ele prefere criar imagens que sugiram os temas e sentimentos trabalhados na obra.

No entanto, Amor Pleno apresenta alguns problemas que obras anteriores de Malick não apresentavam. A natureza livre da obra pode levar a momentos de autoindulgência. Só isso explica cenas desnecessárias como algumas tomadas da natureza, visivelmente rodadas para A Árvore da Vida, serem introduzidas aqui (e isso é confirmado nos créditos). Elas não se conectam com a história nem com o tom da narrativa. Porém, o maior dos problemas é o fato do cineasta não conseguir realmente conectar o drama espiritual do Padre Quintana com a narrativa dos casais. Apesar da boa atuação de Javier Bardem, esse trecho tem mais a ver com A Árvore da Vida do que com o drama sobre relacionamentos humanos que representa a alma de Amor Pleno.

No entanto, são problemas que não comprometem muito porque a beleza de outros momentos e as indagações propostas por Terrence Malick nos levam a uma reflexão valiosa sobre nós mesmos e nossas vidas. Amor Pleno é uma meditação e como tal não precisa necessariamente chegar a respostas – Malick as deixa a cargo de cada espectador. Ele não responde “para onde vai o amor”, só tenta captar, com sua câmera em estado de movimento constante, esse sentimento tão fugidio e tão importante para nós. Talvez seja por isso que a câmera se movimente, acompanhando os atores, e a edição tenha um caráter fluido – Malick deseja, com seu cinema, filmar aquele sentimento invisível que está sempre escapando do alcance de tantas pessoas.

Nota: 7,5

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