Quais as chances de um filme baseado em Nicholas Sparks ser bom? As mesmas de ganhar na loteria ou de ser atingido duas vezes por um raio, você talvez diria. E se eu disser que Diário de uma Paixão, lançado em 2004, é um filme bom? E quero propor com isso uma acepção assertiva e confiante de bom, de uma experiência estética satisfatória e sem desculpas – um filme que, apesar do material evidentemente açucarado, é redimido por uma direção elegante e delicada, e pelo trabalho superlativo de seu par central – especialmente uma maravilhosa e magnética Rachel McAdams, a caminho do estrelato.

Se o nome Nicholas Sparks, em si, não lhe disse nada, então que tal títulos como Uma Carta de Amor (1999), Um Amor para Recordar (2002) e Querido John (2010)? Histórias tipicamente lacrimejantes, e tão carregadas de açúcar quanto melaço – e mesmo os que não têm uma alergia inata a esse tipo de material, como eu, tendem a observar com desgosto a necessidade do autor de manipular emoções primárias e recair no dramalhão.

Seria o caso em Diário, e há um número suficiente de diálogos ruins e situações dramáticas vulgares para estampar a marca NS – a pior de todas provavelmente sendo a proposta de Noah (Ryan Gosling) para que Allie, a personagem de McAdams, saia com ele: o rapaz escala uma roda-gigante e ameaça se soltar dela, a menos que Allie tope o encontro – o tipo de coação agressiva que passa por uma demonstração fulminante de amor à primeira vista. Mas as coisas melhoram: não só o par central tem uma química fabulosa em cena, como o filme consegue ser consistentemente superior a seu material, criando cenas de genuína ressonância emocional e, quem diria, sensualidade – as cenas de sexo entre Noah e Allie são incomumente convincentes, orgânicas, vaporosas.

A trama, com certeza, é a coisa menos interessante do filme. Se você ainda não viu, me eximo desde já da obrigação de não entregar spoilers, porque Diário não faz segredo nenhum de seu desfecho – antes da metade já sabemos que o narrador da história e o senhor calmo e firme que lê para a bela senhora são Noah na velhice (vivido, aqui, pelo veterano James Garner, mais conhecido do público brasileiro por sua participação em Cowboys do Espaço [2000], de Clint Eastwood). Basicamente, acompanhamos as dificuldades de Noah e Allie para conseguir consumar sua paixão adolescente, ameaçada pelas diferenças de origem e classe social dos dois. Ambientado na década de 1940, Diário usa todos os apelos mais óbvios de um filme de época, dos figurinos elegantes às noções mais conservadoras (e, quando convém, ingênuas) de vida em sociedade.

Mas o diretor Nick Cassavetes, um artista talentoso que depois entregaria o estupendo e inquietante Alpha Dog (2006), não teme a cafonice do material – sua convicção e sinceridade ao pintar as idas e vindas de Allie e Noah fazem com que o espectador também deixe as reservas de lado mergulhe no melodrama (uma frase dessas mostra que eu estou nesse exato espírito agora).

Há mais triunfos no caminho: a fotografia de Robert Fraisse cria lindos planos com uma luz que sublinha o conteúdo emocional das cenas, dos planos fechados e de iluminação tímida no asilo dos idosos às vistas pastorais quando o idílio dos protagonistas finalmente se concretiza. E a escolha ambiciosa dos atores eleva o filme a alturas inesperadas: Garner empresta a Noah um despojamento franco e sem enfeites, que torna pungentes as suas cenas finais com Allie. E a Allie idosa é vivida por ninguém menos que a grande Gena Rowlands, mãe do diretor Nick e estrela de tantos filmes históricos de John Cassavetes. James Marsden, como o outro pretendente de Allie, o rico Lon, Joan Allen, como a mãe resignada e reacionária de Allie, Anne, e o grande Sam Shepard, como o pai de Noah, Frank, dão uma vida imerecida a seus pequenos papéis.

Mas Diário é mesmo Rachel e Ryan. Note como, agora, eu pus o nome de McAdams em primeiro lugar. Gosling inegavelmente vive Noah na medida, e eu aprendi a enxergar o seu laconismo como uma qualidade, após ver as diferenças minuciosas de tom que ele empresta a trabalhos tão diferentes quanto Tudo pelo Poder (2011), La La Land: Cantando Estações (2016) e Blade Runner 2049 (2017). Mas, por melhor que ele seja ao lado de McAdams – e o casal é de uma intensidade que eletrifica a tela –, o filme sem dúvida é dela. É um prazer acompanhar o trabalho transparente, primal, de Rachel, a adesão total a sua personagem, os muitos matizes que surgem de um trabalho tão completo e convicto – qualidades que a elevariam do cult adolescente Meninas Malvadas (2002) a trabalhos maduros e intrigantes, como Spotlight: Segredos Revelados (2015) e a segunda temporada da série True Detective.

Muito mais do que uma história de Nicholas Sparks merecia, e certamente o motivo pelo qual Diário de uma Paixão é de longe o filme mais interessante baseado no autor. Curiosamente, as brigas constantes dos personagens eram ecoadas no set pelos dois atores – Ryan chegou a pedir a Cassavetes que encontrasse outra atriz para o filme, de tão desgastantes que estavam as turras entre os dois.

Mas a velha fórmula segue valendo: um filme romântico, para ser grande, ou pelo menos bom – e Diário de uma Paixão, nesse sentido, certamente se saiu muito bem – só precisa de um casal que funcione. Rachel e Ryan são tão bons que Nicholas Sparks ficou bom. Um raio caiu duas vezes. Você ganhou na loteria. Assista sem medo.

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