– Boa tarde. Quero ingresso de meia-entrada para “Mesmo Se Nada Der Certo”.

– É legendado, senhor.

– Sim, eu sei.

– Ok, então. R$ 9.

O diálogo travado acima pode ser visto como cotidiano e até mesmo inofensivo, entretanto, esconde algo muito maior para quem realmente encara o cinema como algo maior que mero entretenimento.

Tal situação aconteceu comigo no Playarte do Manauara Shopping. Complexo com 10 salas de cinema, o espaço decidiu nos últimos anos adotar a preferência por filmes dublados. Atualmente, 48 sessões estão com áudio em português e apenas 4 na versão original. O fato se repete integralmente no Cinemark do Studio 5 (8 salas), Cinépolis do Manaus Plaza (8 salas) e Kinoplex do Amazonas Shopping (5 salas). A situação fica um pouco (ênfase nesse pouco, por favor) melhor no Cinépolis do Millenium Shopping e Ponta Negra Shopping em que as legendas dividem espaço com os dublados.

Não sou daqueles radicalistas que defendem o fim das sessões dubladas. Considero que essas versões possam ajudar pessoas com problemas visuais (não falo de cegueira, por favor) ou gente que não consegue acompanhar a velocidade das legendas. Além disso, há a preferência de parte do público por essas versões e impor um padrão, por melhor que seja, nunca é a melhor solução.

O problema começa quando há não há opções. Para quem vive em Manaus, as redes de cinema esqueceram quem gosta dos filmes no áudio original. Perceber que “A Bela e a Fera”, por exemplo, possui apenas uma sessão legendada (18h30 na Ponta Negra) para 24 dubladas chega a ser absurdo. A possibilidade de escolha termina por simplesmente não existir.

Esse cenário impositivo da versão dublada afasta das salas de exibição quem ama o cinema como arte. A riqueza do áudio original com todo o trabalho de voz dos atores e a qualidade técnica do som perdida no processo da dublagem deixam um vácuo para quem aprecia um bom filme. Mesmo com o esforço feito ao longo da projeção, o espectador mais atento sente a artificialidade de ouvir um George Clooney ou Kate Winslet falando um “Vamos nessa” ou “Beleza” vindo da voz do sujeito que dubla o Seu Madruga ou a Dona Florinda.

Toda vez que ouço um “É legendado, senhor” sinto-me como se fosse estranho, diferente, antinatural assistir o filme nesta versão. A frase despretensiosa mostra como a lógica do dublado serve para aproximar o cinema da televisão. Isso não apenas por ser o padrão de como os filmes são exibidos nos canais abertos e fechados (a praga, infelizmente, dominou até mesmo o Telecine e a HBO), mas, também para escancarar a visão de que a Sétima Arte passou a ser enxergado pela população com um mero passatempo em que imagens pulam a todo instante sem que se pense muito naquilo que está sendo exibido. Vale a distração e a diversão, se possível bem longe de qualquer compromisso com a reflexão e o valor artístico.

Se você acha que a dublagem não afeta em nada e toda essa discussão é uma grande bobagem, veja como o americano assiste “Tropa de Elite” em inglês e perceba a diferença do impacto da cena com a versão em português.

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