Você com certeza sabe que A Bruxa de Blair” (1999) foi um fenômeno cinematográfico sem precedentes nos últimos tempos, gerando uma revolução na mesma proporção no cinema de horror. Por sinal, renderia uma ótima análise para compreender o impacto do filme e sua relação custo-benefício no cinema. O thriller dirigido pelos amigos Daniel Myrick e Eduardo Sánchez foi precursor do “found footage”, subgênero que mistura tom documental com imagens reais – uma espécie de falso documentário – que até hoje continua a sobreviver nos cinemas; só este ano tivemos pelo menos três lançamentos deste porte nas salas.

O que talvez você não saiba é que 20 anos antes da “Bruxa”, uma figura canibalesca causava um impacto polêmico pelo seu formato bruto e chocante, surgido da mente maluca de um italiano chamado Ruggero Deodato, sem dúvida o Victor Frankenstein deste bastardo subgênero. Ele não desenhou a criatura, mas deu o escopo necessário à fórmula para sua criação. O filme em questão é “Holocausto Canibal” (1980), que este ano completa 35 anos do seu lançamento. Longe do terror psicológico de “A Bruxa de Blair”, este exemplar italiano é controverso até médula com o intuito de chocar o espectador. Pior que ele atinge o seu objetivo, sendo o suprassumo do exploitation  e transforma a produção de 1999 em um cordeirinho perto dele.

Os Canibais Italianos

Na década de 70, o cinema italiano passava por uma ótima fase: além dos Giallos, também surgia o ciclo de filmes de canibais, graças ao famoso episódio do Andes visto no filme “Vivos” (1993), que ajudou a inspirar estes trabalhos. Foram obras baratas, geralmente filmadas em menos de um mês, dentro de florestas, utilizando nativos como figurantes e com tramas recheadas de sensacionalismo como estupro, empalamento, crueldade com animais, nudismo, desmembramentos e muito canibalismo.

O picareta diretor Umberto Lenzi é que inaugurou este ciclo com “Mundo Canibal” (1972), depois dirigindo outros trabalhos como “Os Vivos Serão Devorados” (1977) – sem dúvida o mais divertido da safra –  e “Cannibal Ferox” (1981), uma cópia exagerada no quesito violência do filme de Deodatto. Outros diretores italianos também se aventuram, mas nenhum deles com tanta coragem como Lenzi e Deodato fizeram. Este último começou a carreira como assistente de direção de mestres como Roberto Rosselini e Sergio Corbucci. Do primeiro, herdou a busca pelo realismo e, do segundo, a estética crua e enxuta. Ele já tinha realizado no subgênero o interessante e selvagem “O Último Mundo dos Canibais” (1977), mas é com “Holocausto Canibal” que ele atinge o ápice dos filmes de canibais, a obra definitiva do terror sensacionalista elevado ao extremo.

O Falso Documentário

A ideia do roteirista Gianfranco Clerici não deixa de ser criativa. Acompanhamos quatro jovens cineastas americanos na mata amazônica para fazer um documentário sensacionalista sobre tribos canibais, com o intuito de chocar o público. Resolvem fazer as filmagens no conhecido Inferno Verde da Amazônia. O problema é que eles desaparecem. Um ano depois, a rede de TV à qual eles pertencem manda uma segunda expedição, comandada pelo professor Harold Monroe (Robert Kerman, figura carimbada dos filmes de canibais e ex-ator pornô) para localizá-los. Eles encontram restos do equipamento e os rolos de filme intactos, que revelarão o derradeiro e violento destino dos quatro jovens.

O trabalho foi banido em mais de 30 países e levou o seu diretor a ter que se explicar às autoridades italianas que acreditavam que os atores foram mortos em uma espécie de snuff movie. Todos compareceram em uma audiência pública para comprovar que estavam vivos. Na verdade, tudo foi uma estratégia do cineasta, que colocou uma cláusula no contrato dos atores que estipulava que eles deveriam desaparecer por um ano para dar a falsa impressão de que estavam mortos.

A mesma estratégia utilizada pela “A Bruxa de Blair” nos meios sociais foi usada também pelo picareta diretor italiano, só que 20 anos antes como um marketing inteligente, sem qualquer ferramenta tecnológica para disseminar as informações. Para completar, Deodato sofreu ações penais gravíssimas pela matança dos animais (grande parte reais), e a qual se arrepende hoje de ter realizado. Foi condenado a quatro meses de prisão pela justiça italiana, mas nunca foi preso. Realizou parte das filmagens na Colômbia e Brasil, no caso, no município de Tabatinga. Todas essas lendas de bastidores, juntamente com as cenas de assassinatos cruéis e de efeitos realistas, ajudaram o filme a ganhar a alcunha polêmica e sensacionalista de filme “maldito” até hoje.

Um olhar social e sensacionalista – O Canibal da selva de pedra e civilizado

Quem são os verdadeiros selvagens, eles ou nós? (Professor Harold Monroe)

Dentro de toda carnificina desmedida, o filme não deixa de ser forte no seu viés sensacionalista, mesmo com 30 anos de estrada. É uma farsa, mas que prima pelo apuro técnico. As cenas de morte continuam reais e impressionam por seus momentos, principalmente as que envolvem empalamentos e crueldade com animais. Uma particular até hoje é incômoda: os jovens cineastas do filme divertem-se barbarizando uma pobre tartaruga, cortando-lhe a cabeça, para em seguida arrebentar o casco a machadadas para tirar as entranhas. Enquanto isso, a cabeça decepada observa com os olhos ainda se mexendo. Deodato filma com requintes de crueldade esta cena, de fazer tremer nossas bases pelo realismo brutal.

Só que os méritos do filme vão além da exposição de violência e sangue. Há uma interessante crítica social em relação ao comportamento do homem branco civilizado frente à cultura de outros povos na qual consideram inferiores. Em diversos momentos questionamos: afinal, quem é o verdadeiro canibal? Aquele que vive na floresta, praticando os seus rituais culturais herdados, ou aquele que vive no concreto, no meio urbano, e que, apesar de chamado de “civilizado”, comete as maiores atrocidades longe das amarras sociais, deixando que seu instinto primitivo aflore em situações limite, quando não existem normas e leis sociais para enquadrá-lo? É o ser humano frente à natureza demonstrando todo o seu lado perverso.

Deodato também não deixa de direcionar o seu olhar ao consumismo, no caso, delineia uma crítica mordaz à mídia sensacionalista, ao capitalismo corporativo das TVs que buscam apenas a audiência. Ainda que feito na década de 80, esta crítica continua atual, tendo em vista os diversos programas que são transmitidos hoje na TV – Brasil Alerta, Cidade Alerta e Programa do Ratinho estão aí para comprovar que a barbaridade é lucrativa. Além disso, apesar do seu orçamento modesto e dos improvisos, é uma obra muito bem realizada do ponto de vista técnico. A trilha instrumental do finado Riz Ortolani é sufocante e assustadora – reparem como ela vai de uma melodia doce para os tons tribais com facilidade –  auxiliada pela exímia montagem de Vincenzo Tomassi.

No geral, “Holocausto Canibal” é um filme instigante principalmente pelo incômodo que causa. O lado sensacionalista gera sentimentos ambivalentes, tanto o ódio pela picaretagem na matança desnecessária de animais quanto o fascínio em qual discute a relação sujeito e meio. É a obra-prima dos filmes de canibais e o melhor trabalho do Monsieur Canibal, Ruggero Deodato, que sempre buscou o sensacionalismo nos seus outros filmes, sem jamais atingir a mesma qualidade.

Em 1999, a bruxa assustou explorando o medo do desconhecido, isto é, daquilo que não vemos. Já o trintão canibal aterroriza pelo que vemos, em que as imagens nos devoram em virtude do impacto do terror brutal que presenciamos.

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