Sensação estranha essa de ver um filme nota 6,0.

Ele vai desenrolando-se pela tela, é um trabalho sério, que se leva a sério, desenvolve sua trama sem afetações, possui uma atuação interessante do seu elenco, e principalmente do seu protagonista, conta uma história importante, com personagens de várias camadas, mas alguma coisa não bate, e você nem sabe como explicar.

O filme, mesmo que pareça ser bem realizado, bem produzido, cheio de qualidades, não te desperta simpatia, não te conquista, não possui charme suficiente para isso.

Ele chega ao fim, e você está tão incomodado com essa situação que começa a se culpar, racionaliza as coisas, admite que não estava num bom dia para assistir àquele filme, que provavelmente o culpado por aquela não ter sido uma sessão agradável foi você, e que daqui há algum tempo você vai dar uma segunda chance, tendo quase certeza de que ele vai crescer muito na revisão.

Bom, como vocês podem adivinhar, o filme em questão poderia, facilmente, ser Getúlio, pois todos os sintomas listados anteriormente batem com os que senti durante a sua exibição. Talvez a única diferença seja o fato de que não me culpei ao término da sessão. Já fiz isso outras vezes com outros filmes, certamente, mas não nesse. O longa dirigido por João Jardim acompanha os últimos dias do segundo governo de Getúlio Vargas (Tony Ramos), a partir do momento em que o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges) sofre um atentado, e os indícios apontam que o mandante do crime foi um dos homens de confiança do presidente. As investigações avançam e outras denúncias vão sendo expostas para a opinião pública, fazendo com que a situação do presidente torne-se cada vez mais difícil e, sendo pressionado por todos os lados, acabe preferindo se matar a renunciar ao cargo de Presidente da República.

Em certos filmes fica difícil dizer onde está o problema invisível que tanto nos incomoda, mas em Getúlio é perfeitamente possível verificar onde está o problema. Os aspectos técnicos estão bem inseridos no trabalho, com destaque ao excepcional design de produção; os atores e a direção executam bem seus papéis, mas o fato é que vemos uma hora e quarenta da mesma coisa. O filme mantém o mesmo tom levemente tenso, do primeiro ao último minuto de projeção, não sendo possível perceber descidas e subidas da trama, não acelera nem desacelera, e não apresenta situações variadas que despertem na plateia emoções que variem com o decorrer do trabalho.

Uma cena muito tocante é quando Getúlio lembra-se do filho, morto há alguns anos, e podemos ver que por trás daquela figura imponente há um homem extremamente triste e cansado por certos acontecimentos de sua vida, ou quando, num momento de intimidade, testemunhamos que o presidente não sabe amarrar os cadarços do seu sapato. Mas estes são raríssimos momentos que vemos algo diferente, paralelo a “história principal”. O grave problema de ritmo apresentado pelo filme faz com que ele se torne sempre morno, na iminência de apresentar algo pulsante, mas sempre apenas na promessa.

Já virou um clichê falar bem de Walter Carvalho. De fato, é dos melhores profissionais do cinema brasileiro, sempre agrega um tom de excelência aos trabalhos que participa. Aqui, ele acerta em cheio no uso da iluminação, apresentando os cenários, principalmente o Palácio do Catete, sempre numa perspectiva sombria, mal iluminada, dando um ar de falta de vida, que agrega muito a linguagem do filme. Ao mesmo tempo, o uso da câmera na mão, com suas inevitáveis tremidas, soam deslocadas, incoerentes com a atmosfera austera do longa. Soa como um maneirismo injustificado.

Críticas à parte, não há como não destacar o trabalho de Tony Ramos, que nos apresenta a um Getúlio Vargas cansado de sua condição de vítima de constantes ataques, numa atuação inteligente, que demonstra toda a experiência do seu intérprete. Sabendo que seria muito fácil cair numa caricatura, Ramos assemelha-se a Day-Lewis em Lincoln, e nos apresenta a um homem de fala mansa, tom de voz baixo, sem gestos espalhafatosos, que demonstra a sua autoridade no olhar e na firmeza da voz. Um trabalho de generosidade para com o filme, que sabe que menos é mais, e que mais, neste caso, significa distração para o público.

Talvez o único deslize claro apresentado pelo filme seja o tom do final, com violinos surgindo aos montes após a morte de Getúlio, e imagens de pessoas chorando a sua morte, inclusive os seus inimigos. Evidente que tudo isso faz parte do que foi Getúlio Vargas, e de todas as controvérsias que envolvem o seu nome, porém a maneira que o filme escolheu de mostrar esse momento soa maniqueísta, preferindo cair na armadilha de escolher um lado da questão, quando era muito mais interessante não se posicionar, como o filme fez anteriormente.

Conforme disse no início, é bem difícil delimitar o que pensar sobre este trabalho. Mas vou ver se lembro de coloca-lo na lista de filmes esquecíveis de 2014.

NOTA: 6,0

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