Com sua estreia mundial no Festival de Sundance desse ano, A Ghost Story (2017) tenta desenvolver a ideia do existir além do tempo, a necessidade de aprender a partir e as complexidades inerentes ao tema, mas acaba frustrando com um enredo por vezes confuso e ineficiente.

A produção mais recente do diretor norte-americano David Lowery, mesmo com um orçamento apertado de apenas 100 mil dólares, troco para os padrões de Hollywood, conta com nomes de peso para seu elenco, Rooney Mara e Casey Affleck estrelam a obra.

O longa-metragem narra a história do casal C (Casey Affleck) e M (Rooney Mara) que vivem juntos uma rotina tranquila em uma área afastada de alguma cidade pequena no Texas. Certo dia, o personagem interpretado por Casey morre em um acidente de carro em frente à sua casa. Após sua trágica morte, C toma forma de um clássico fantasma das fantasias de Halloween, passa então a vagar pelos lugares comuns e a observar sua ex-namorada enfrentar o luto da sua perda.

Ainda que contenha certo aspecto sobrenatural e da história desenvolver-se sobre um espectro, não se trata de um filme de terror ou qualquer outro subgênero. É um longa com um ritmo diferenciado, quase sem diálogos e completamente contemplativo, que usa a aparência de um fantasma coberto por um lençol branco para desenvolver seu enredo. A ideia do diretor foi criar uma figura misteriosa, com uma expressão impassível, que manifestasse complexidade e pouca emoção. Contudo, é aqui que a representação criada não funciona tão bem. Na maior parte das cenas a criatura fantástica soa infantil e inocente, sem qualquer profundidade.

Ao tentar criar uma atmosfera de afinidade com os personagens, falha na condução das alegorias criadas. Por vezes as cenas do fantasma soam desnecessárias e caricatas demais e não criam qualquer empatia. Em alguns momentos a presença sobrenatural quebra o clima criado em determinadas cenas. Ouso dizer que o filme poderia ter funcionado melhor nesse aspecto, caso tivesse focado mais na personagem de Rooney para aludir as ideias e questões provocadas.

O diretor, que também assina o roteiro, usa o ente fantasmagórico como símbolo daquilo que o tempo significa e do como aprender a seguir em frente com o que nos resta. O personagem de Casey Affleck flana pelos espaços, stalkeia a ex-namorada tentando seguir a vida e ao final tem sua redenção. O protagonista representa aquilo que deixamos de importante, nosso legado, as memórias que criamos, bem como a efemeridade da vida, sua finitude, mas também que nossos esforços em vida podem não fazer sentido ou ter relevância no final.

Essa ideia é explicitada em determinado ponto do filme, quando durante uma festa na antiga casa do casal, um homem (Will Oldham) que aparece apenas nesse momento, faz um monólogo inflamado sobre a humanidade e a razão ou não dos nossos atos e esforços. O texto existencial e niilista soa um tanto pretensioso e conveniente, como se o diretor se refletisse diretamente na voz para fazer o espectador compreender o ponto de partida para construção da narrativa.

Lowery faz bom uso de planos longos e planos-sequência que atravessam o tempo e o espaço. Um dos pontos altos do filme é uma das cenas sem cortes, particularmente interessante, em que durante cinco minutos tudo que o público pode assistir, – ou contemplar -, é a personagem de Rooney Mara comendo uma torta. Aqui o diretor foi bastante bem-sucedido.

Apesar da trivialidade do ato, a cena diz muito sobre o filme e sobre a própria atriz. Lowery queria que a audiência sentisse que eles tivessem vendo algo que não deveriam, que a passagem de tempo fosse palpável e que o espectador tivesse plena noção dos minutos, e de fato conseguiu intrigar quem assiste, como também transformou o banal em algo difícil de ser visto.

Inclusive, um dos melhores elementos na obra é a atuação de Rooney Mara. A cena da torta deixa claro o completo domínio da atriz sobre aquele personagem. Teoricamente simples, comer uma torta inteira sem o real desejo de comê-la, exige físicamente e mental mais do que se imagina, requer uma preparação para algo que não é tão espontaneamente executável assim.

Em entrevista, o diretor disse que para os planos longos se inspirou no filme da diretora belga Chantal Akerman, “Jeanne Dielman”, o longa é focado quase inteiramente nas atividades mundanas que compõem a rotina, e como essas ações reiteradas podem ser complexas e fascinantes para quem assiste. Foi nesse conceito que ele buscou fazer A Ghost Story funcionar.

Filmado em formato clássico 4:3, a narrativa é visualmente interessante, pois cria uma atmosfera nostálgica e fotográfica que agrada os olhos, como se toda sequência fosse o agrupamento de polaroides antigas. Conta, ainda, com uma trilha sonora atraente e uma música tema gostosa de ouvir. Mesmo que todos esses pontos não façam completamente do filme o que ele tenta ser, o longa tem seu valor e vale a pena ser visto.

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