O Cine Set lança o novo site com uma série de entrevistas com os sete candidatos ao Governo do Amazonas. Propostas para o setor, a falta de cinema no interior do estado, o curso de audiovisual da UEA e a situação do atual secretário de cultura, Robério Braga, são temas discutidos nas conversas com os postulantes ao cargos.

Pela ordem alfabética, o candidato do PROS, José Melo, é o quarto entrevistado pelo Cine Set. Formado em economia pela Universidade Federal do Amazonas, ele foi duas vezes deputado federal e eleito uma vez para deputado estadual. Vice-governador durante a gestão de Omar Aziz, Melo tenta agora a reeleição no cargo principal.

CINE SET – Dos municípios do interior, apenas Itacoatiara possui salas de cinema. É interesse do seu governo levar salas cinema para os municípios do interior do estado? Se sim, como pretende fazer isso?

JOSÉ MELO – Sim e já demos os primeiros passos. Uma das principais estratégias é a criação de unidades do Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro em municípios-polo. Minha proposta é intensificar a política de museus e centros culturais com os polos de cultura. O projeto começou por Parintins onde a gente fez do Bumbódromo, onde Caprichoso e Garantido se apresentam, um Centro Cultural com atividades o ano inteiro. Lá tem cursos de artes, formação técnica, e também um espaço para acesso a cultura, com lugar para cinema, teatro, dança e artes plásticas. Criamos um cineclube com programação diária e acesso gratuito. Com o projeto Arte Itinerante, também levamos arte para as cidades e comunidades rurais. Não posso deixar de lado o Amazonas Film Festival. No governo do Omar, demos a clara determinação de interiorizar as ações de cultura e isso envolveu o festival de cinema. Levamos filmes e oficinas com gente especializada para os municípios. Nos nossos editais de fomento, criamos uma categoria para estimular quem quer fazer audiovisual e mora no interior, e oferecemos apoio logístico e financeiro por meio da Amazonas Film Comission para as produções que realizam as filmagens. A iniciativa privada tem sido tímida no processo de abertura de salas por razões que todos conhecemos. A cadeia de exibição hoje está nas mãos de grandes conglomerados, que ditam as regras do mercado. É assim não só no Brasil. Isso atrapalha bastante porque sem expectativa de retorno o capital privado não entra. Meu plano é fazer mais usando a UEA, que hoje é a maior universidade multicampi do Brasil. Vamos implantar espaços culturais e incentivar a produção artística com a nossa Universidade. Isso, sem dúvida alguma, inclui cinema uma vez que criamos o curso de audiovisual.

CINE SET – As principais capitais do Brasil possuem parcerias entre governo e prefeitura com empresas privadas para a implementação e revitalização de cinemas de rua, além de espaços alternativos visando a divulgação de filmes fora do circuito comercial. O seu governo pretende fazer algo do tipo? Se sim, como?

JOSÉ MELO – Temos total interesse. O governo do Estado tem programa de cineclube e disponibiliza equipamento e acervo. Vamos dar continuidade levando para o interior. Em Manaus, a secretaria de Cultura também desenvolve um programa de cineclube em vários dos seus espaços, com a exibição de filmes de arte, de filmes de cineastas amazonenses e de alunos do projeto Jovem Cidadão. Agora, diferente do que acontece em vários estados brasileiros, no Amazonas os investimentos nessa área cultural são quase que exclusivos do Governo Estadual. Temos a parceria do Bradesco e da Coca-Cola, que nos apoiam em diversas ações culturais, mas é preciso contar com maior participação da iniciativa privada e, através de uma articulação maior com empresas do Polo Industrial de Manaus, acredito que podemos melhorar isso.

CINE SET – Há dois anos um curso de tecnólogo em audiovisual foi implementado na UEA, e tem sofrido com problemas de infraestrutura e equipamentos. O seu governo pretende investir mais neste curso? Se sim, como?

JOSÉ MELO – A classe audiovisual reivindicava há bastante tempo. Havia promessas de governadores anteriores, mas foi o governador Omar Aziz que, mesmo sem ter prometido, enfrentou o desafio e tornou realidade o curso a partir de uma solicitação da Secretaria de Cultura. O curso audiovisual é uma conquista que ninguém mais abre mão. A UEA tem vestibular para a segunda turma e virão muitas outras daqui para frente. Superamos as dificuldades iniciais em adquirir os equipamentos e hoje temos o que há de mais moderno disponível, um investimento de mais de oitocentos mil reais. A Universidade tem buscado novas parcerias. Com a Ufam, vamos ter outros trezentos mil para instalar um núcleo de produção digital do Ministério da Cultura. Acredito que com a garantia de novas turmas vamos avançar para um novo estágio que é oferecer mais qualidade no curso e buscar qualificação em outros níveis. Nesse sentido, a Universidade tem buscado parcerias com instituições especializadas do Brasil para um projeto de pós-graduação. Sem contar que, através da Fapeam, nossos estudantes também podem concorrer a vagas de especialização, mestrado e doutorado.

CINE SET – O Amazonas possui editais de incentivo a cultura, mas nada que se compare a quantidade de investimento que os principais estados da região sudeste, sul e nordeste já aplicam. É interesse do governo aumentar o investimento feito nos editais para o fomento de obras de artistas amazonenses?

JOSÉ MELO – Temos uma política cultural que abrange todas as áreas, incluindo a produção audiovisual, mas quero avançar. Hoje, o Amazonas tem o quarto orçamento em cultura do Brasil. Ficamos atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Temos investido bastante e continuaremos nesse caminho não só com os editais de fomento à produção, mas também na capacitação de pessoal, na formação de jovens talentos e na popularização do cinema. Minha determinação como governador é oferecer tapete vermelho para o artista e a cultura amazonense, isso inclui a área audiovisual. Hoje temos uma cultura ascendente nesse campo e que precisa de apoio. No meu plano de governo, valorizar o artista regional é um ponto que não abro mão. Eu proponho, por exemplo, montar um programa que valorize os conhecimentos populares e tradicionais. Nossa cultura é riquíssima e precisamos potencializá-la para que, a exemplo do que acontece com o Festival de Parintins, possamos atrair turistas, gerar riquezas com a nossa cultura. Vamos apoiar as festas populares dos municípios, priorizar nos eventos que a secretaria de cultura promove a participação de artistas locais, hoje isso já vem acontecendo, mas é preciso aprofundar. Com o programa de editais de fomento, o foco é firmar uma política que valorize e, ao mesmo tempo, popularize a nossa cultura.

CINE SET – De que maneira o seu governo observa o projeto do governo federal “Brasil de Todas as Telas”?

JOSÉ MELO – Enviamos nossa proposta para a Ancine. Aliás, eu soube que o Amazonas é um dos poucos Estados que enviou proposta. Foram até agora seis no total. Agora, o trâmite não é rápido. Teremos novidade daqui a algumas semanas, mas acredito que vamos participar.

CINE SET – Qual a sua opinião sobre o Amazonas Film Festival? Pretende ampliá-lo?

JOSÉ MELO – É um evento de dinamização do setor, como todos os outros festivais. O meu governo vai atuar no sentido de prestigiá-lo, de intensificar a sua interiorização e estimular, sobretudo, a produção local.

CINE SET – De que maneira o festival de cinema pode chegar a zonas da cidade como a norte e leste? Há maneira de integrar áreas mais distantes do centro da cidade no festival?

JOSÉ MELO – Isso já acontece em todas as edições do Amazonas Film Festival. O evento tem na sua programação a exibição de filmes em todas as zonas da cidade de Manaus, nas escolas, nos centros de convivência, nos terminais de ônibus, nas unidades de saúde e nas instituições sociais.

CINE SET – A cultura terá papel importante no seu governo? Que projetos o senhor tem para a área?

JOSÉ MELO – Sim. Como professor não deixaria de investir em cultura e quero fazer isso de maneira abrangente, aprofundando o trabalho que fazemos hoje na promoção cultural, na qualificação artística e na interiorização da nossa política e do nosso calendário. Como professor, também vou incentivar a leitura criando parceria com as prefeituras e com associações para implantar salas de leitura e cinevideo nos municípios. No interior, quero novas unidades do Liceu Cláudio Santoro para impulsionar a formação artística.

CINE SET – O secretário de cultura do Estado, Robério Braga, está no cargo há mais de uma década. De que maneira o senhor avalia o trabalho do secretário? Pretende mantê-lo no cargo?

JOSÉ MELO – No meu governo, todos aqueles que não tratarem bem as pessoas, não cumprirem as minhas diretrizes, são demissíveis. A vida pública nos impõe isso. Mas defeitos a parte, o Robério tirou o Amazonas do ostracismo e colocou no contexto nacional e internacional do ponto de vista cultural. Precisamos avançar? Sim. E Vamos fazer. Vamos fazer eventos de envergadura com tratamento especial para o caboclinho, o artista daqui que tem talento. Eu vou pessoalmente cuidar disso. A minha música de campanha, a que mais adoro, foi composta pela Helen, uma artista de Carauari. Como podemos deixar um talento como o Chico da Silva no ostracismo, deixar de lado centenas de jovens que precisam de oportunidades?

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