Nos últimos meses, enquanto você dormia, a Neflix produzia mais um filme para ser lançado no seu serviço. Por isso, Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo é a produção original do streaming lançada no mês de fevereiro deste ano. Assim como outras produções disponíveis no serviço, o filme teve sua estreia marcada no último Festival de Sundance, onde foi o vencedor do júri no Festival.

Marca a estreia do desconhecido ator Macon Blair (com passagem por várias séries de Tv e filmes menores) na direção e acompanha Ruth Kimke (Melanie Lynskey), auxiliar de enfermagem deprimida, frustrada e desgostosa com o mundo e as pessoas a sua volta – são todos idiotas, verbaliza em certo momento para uma amiga -, que segue uma vida ordinária, amortecida pelos seus ressentimentos emocionais. Após ter a casa invadida e notar o descaso da polícia em relação a sua situação, ela sofre um rompante de revolta, despertando da tediosa vida, para recuperar o que foi roubado. Nesta aventura, ela vai contar com a ajuda do seu excêntrico vizinho, Tony (Elijah Wood), um rocker apreciador de lutas marciais.

Tirando, o ótimo título, Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo pouco apresenta de novidades e, de certa maneira, desperdiça a bela premissa oferecida ao público. O filme não deixa de ser uma concha de retalhos (de boas intenções, vale ressaltar), que mesmo divertido, não foge da sensação de você já ter visto as mesmas situações apresentadas no longa, porém de forma mais original em outros trabalhos. Falta qualidade por parte da produção em desenvolver uma narrativa que crie laços emocionais com o seu público.

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Falando nela, Blair aposta na ironia e no propenso humor negro para alinhá-la a violência explosiva e situações inusitadas (e nonsenses). Na verdade, sobram influências e homenagens aos filmes dos irmãos Coens e Tarantino feitas pelo jovem diretor, porém, sem o “toque de gênio” que estes cineastas sabiam impor nos seus trabalhos: criar personagens e situações interessantes.

Já Não Me Sinto abrange temas tão diversos que não consegue abordá-los satisfatoriamente, tropeçando nas suas próprias ambições. Temos o drama depressivo e de inadequação social; a comédia de humor negro e de paródia; o suspense de violência e vingança. Neste sentido, a obra apresenta a excentricidade de outro filme presente na grade do Netflix (Um Cadáver para Sobreviver), ainda que passe distante em transformar esses mais variados subgêneros em uma unidade narrativa satisfatória.

É difícil por exemplo, entender o sentimento de inadequação e a visão de insatisfação de Ruth em relação as pessoas se o filme pouco aprofunda suas motivações e conflitos internos, dando a impressão que as emoções da protagonista não passam de “frescura”. Há mais preocupação por parte de Blair de criar situações absurdas que ela e Tony irão enfrentar, do que desenvolver os elementos emocionais que facilitem o público entender a dinâmica individual de ambos ou entre eles. A própria jornada de transformação da personagem não ganha a complexidade exigida por parte do roteiro e quando atinge bons momentos em volta dela, é graças a própria atuação de Lynkey.

É graças a ela e Elijah que temos um filme mais interessante que a sua própria proposta. Atriz é mais conhecida pelo sua stalker Rose na série Two and a Half Men. O fato de Ruth e Rose guardarem semelhanças pela sua instabilidade emocional, fica apenas na teoria, até porque na prática, Melanie se entrega totalmente e desenvolve aqui, uma figura humana e irônica, que aos poucos vai a moldando o estado depressivo e de letargia da personagem, para a revolta, fornecendo mais na sua interpretação subsídios emocionais do que criados pelo roteiro. Já Elijah Wood, desde que abandonou a figura benevolente de Frodo na trilogia do Senhor dos Anéis, vem apostado em figuras excêntricas e diferentes. Seu Tony é responsável pelos momentos mais divertidos do longa, graças a forma como ator brinca com os estereótipos do seu estranho rocker. No elenco secundário, o destaque fica para Jane Levy, a protagonista de O Homem nas Trevas (2016), quase irreconhecível como um dos vilões do filme.

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É claro que a direção de Blair permite que o filme jamais se torne enfadonho. As sequências de ação são pontuais e eficientes e a sucessão de situações inusitadas que se metem Ruth e Tony, são divertidas, ainda que não tragam nada de original dentro da temática. Inclusive outro filme alternativo que trabalha a questão da inadequação e humor negro, Deus Abençoe a América (2011), oferece elementos narrativos bem mais sólidos. Isso não impede os fãs que adoram finais explosivos, se divirtam com a meia hora final de insanidade que potencializa a violência até então ensaiada.

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo segue a linha intimista que tenta retratar o mundo egoísta e solitário em qual vivemos hoje. Pena que não evolua nesta discussão, trazendo novos questionamento que já não vistos em outras obras. Há momentos divertidos, estranhos e inusitados, mas que não saem da zona de referências, impedindo a produção de ter personalidade própria. A Netflix tem acertado na qualidade de suas séries, pena que a fórmula em relação aos filmes ainda não adquiriu, a mesma potencialidade.