Quando o primeiro “Mamma Mia!” foi lançado, há uma década, foi inevitável que muitos fãs do grupo Abba questionassem a escolha de uma ou outra música em detrimento de outras que ficaram de fora do longa. É como um Greatest Hits ou um Acústico MTV da sua banda preferida: nunca vai dar para colocar tudo. Junta-se a isso o fato de que o filme dirigido por Phyllida Lloyd foi um sucesso absoluto de bilheteria e, pronto, uma continuação era o caminho óbvio. Estranhamente, essa sequência demorou dez anos para chegar aos cinemas, mas, hey, ninguém está reclamando (muito pelo contrário). Sem a promessa de ser a obra-prima para salvar o (sub)gênero musical, “Lá Vamos Nós de Novo” é um delicioso reencontro, daqueles de deixar o espectador com a mandíbula dolorida de tanto sorrir.

A história, porém, confirma o que o trailer já sugeria: Donna está morta e o filme (quase) não tem a presença de Meryl Streep, que tanto contribuiu para o sucesso do primeiro filme. O que poderia transformar a produção agora dirigida por Ol Parker em mais um exemplar para a prateleira das continuações esquecíveis do cinema, contudo, é driblado por uma escolha esperta de mostrar, em duas linhas temporais, a Donna de ontem (Lily James) e o quanto ela contribuiu para que a Sophie (Amanda Seyfried) ser a mulher que é hoje.

Ambientado cinco anos após o primeiro filme, “Lá Vamos Nós de Novo” nos apresenta uma Sophie diferente da que se despediu da mãe e dos três pais ao fim de “Mamma Mia!”. Momentaneamente afastada do marido (Dominic Cooper, numa atuação no melhor estilo ‘tô aqui apenas pra cumprir tabela’), ela está às voltas com a reabertura do hotel criado por sua mãe, o que traz de volta à Grécia as antes inseparáveis amigas de Donna, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski). O novo momento de Sophie é a deixa para que a história faça um salto de 25 anos no passado, quando sua mãe era uma jovem recém-saída da faculdade, cheia de ideais e sem muita vontade de ficar presa a um relacionamento sério.

Habemus camp!

Quase sempre ligando as duas linhas temporais por meio de raccords (que também são usados em números musicais como a sequência cafonérrima de ‘One of Us’), “Lá Vamos Nós…” segue apostando na beleza das paisagens para emoldurar sua história. Sem a fotografia estridente do filme de 2008 – mas com aquele indefectível chroma key que faria o cenário da série “Revenge” ruborizar de inveja -, a continuação tem um tom mais sóbrio (se podemos falar assim) que sua antecessora. Mas, ainda há os dois pés fincados no camp e prontos para produzir sequências tão impensáveis quanto as do primeiro filme.

Apoiado em um repertório com mais lados B do Abba, o roteiro consegue contar a trama sem precisar (tanto) forçar a barra para que algumas canções caibam na história (pensem em ‘Money, Money, Money’ ou ‘Does Your Mother Know?’ no primeiro filme), mas isso não significa que estamos diante de um musical que transborda coesão: o delicioso nonsense impresso em “Mamma Mia!” segue aqui, com performances divertidas de “Angel Eyes” e “Waterloo” – essa última, uma das canções reprisadas do primeiro filme para fazer as vozes dos espectadores mais desavisados ecoarem nas salas de cinema.

Um desafio que o filme precisa administrar é o número maior de personagens. Sai Meryl, entra todo um casting jovem da “turma de 1979”, além de Andy Garcia e Cher na fase atual da trama (ainda falarei sobre os dois, calma). Acaba que muitos personagens não têm o destaque do filme de 2008, mas, verdade seja dita, o roteiro tenta encaixá-los e dá, pelo menos, um número musical para que eles brilhem em conjunto – a exceção fica por conta do trio de pais formado por Pierce Brosnan, Stellan Skarsgard e Colin Firth, mas talvez seja uma bênção não precisar ouvi-los cantando de novo.

Com vocês, Lily e Cher!

E se Amanda Seyfried carrega o mesmo carisma e voz cristalina que lhe fizeram brilhar no primeiro “Mamma Mia!”, Lily James cai como uma luva em um papel que poderia ser ingrato. Como uma versão jovem da Donna de Meryl Streep, ela não tenta imitar a estrela, mas mantém a essência rebelde da personagem, sin perder la ternura. A bela voz da atriz é uma grata surpresa, e faz dos números musicais por ela protagonizados verdadeiros deleites de se assistir, da impensável “When I Kissed The Teacher” à nova versão para a música que dá o título à franquia. Por outro lado, os atores que a acompanham não têm muito a fazer, e equilibram canastrice e um certo desconforto em performances que não chegam a comprometer a projeção.

Mas a aparição mais aguardada mesmo é reservada para o ato final. De volta ao cinema quase oito anos após o fraco “Burlesque”, Cher não precisa de muito para ter a plateia na palma da mão. Sua personagem nem precisava existir no filme e a sequência de “Fernando” com Andy Garcia é totalmente avulsa, mas, quem se importa com tantos elementos irresistivelmente trashes em cena? Reverenciada como a diva que é, ela tem uma entrada triunfal e toma conta de todas as cenas em que aparece. Nada mais justo.

Não dá para ignorar que há erros cronológicos (Andy Garcia da mesma idade que Cher, e ela mãe de Meryl?) e falta de continuidade entre os dois filmes (a mãe de Donna não estava morta? Well, de certa forma…), mas “Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo” é eficiente no que se propõe: um filme divertido sobre vida, amores e amizade, embalado pela leveza que só as melhores canções do Abba podem transmitir.

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