Você já pensou como seria o encontro entre o Halloween e o Natal? Não é preciso ir muito longe para imaginar como seriam os sustos com canções natalinas ou ganhar presentes assustadores. Tim Burton e Henry Sellick conseguiram fazer esse match em 1993 ao contar a história de Jack Skellington, o Rei da Abóbora, que, ao descobrir o mundo do Natal, resolve inseri-lo no seu próprio universo, percebendo que a tarefa é mais difícil do que ele imaginava.

Desenvolvido completamente em stop-motion, o universo apresentado em “O Estranho Mundo de Jack” contém a base do que viria a ser a construção imagética de outros projetos da dupla, como é o caso de “A Noiva Cadáver” e “Coraline e o Mundo Secreto”. Desta forma, a técnica utilizada se tornou uma das características dos realizadores e ofereceu um tom charmoso ao filme. Justamente por causar estranhamento tanto visual quanto narrativo.

A composição visual de “O Estranho Mundo de Jack” é impressionante. Há um encanto peculiar na mistura entre a perspectiva sombria que a cidade do Halloween exala ao mesmo tempo em que é divertido. Os personagens assimilam muitos dos piores pesadelos das crianças, como o monstro que se esconde debaixo do armário com o corpo inteiramente composto por insetos. Entretanto, acompanhar como esses seres góticos reagem a uma ideia nova sem fazerem ideia do que ela trata, tem um vigor excepcional.

Uma das questões mais interessantes da narrativa de Jack é o contraste presente nas personagens. Enquanto a canção de abertura reafirma o terror infantil dos monstros do Halloween, conforme a trama avança e as relações são desenvolvidas, percebe-se o teor humano que compõe os conterrâneos do Rei da Abóbora. Embora sejam criaturas do imaginário de horror infantil, é fácil identificá-los com características corriqueiras do mundo real. E quem melhor exemplificar isso são Jack e Sally.

A boneca de pano criada pela versão do Dr. Frankenstein de Burton tem um grande coração. Ela consegue extrair o que há de melhor na cidade do Halloween e parte disso se deve a ingenuidade com a qual lida com a realidade que a cerca. Soma-se a isso o carinho que nutre por Jack, apesar do relacionamento entre eles ser um dos pontos mais fracos e esquecíveis da trama. Sally está sempre a velar por ele e querer alertá-lo de sua megalomania pelo Natal, mas o contato entre o casal é praticamente nulo. As atitudes dela lembram as de Ofélia, em Hamlet. Constantemente a espreita do amado e na tentativa de avisá-lo sobre os equívocos que comete, mas é ignorada com sucesso.

É interessante este paralelo da boneca com a obra de Shakespeare, porque Jack também apresenta aspectos semelhantes ao príncipe da Dinamarca. Apesar de ser o rei do Halloween, Jack cansou do terror, se sente entediado e preso a uma existência vazia e repetitiva que o desnorteiam. Seguindo o mesmo ritmo de Hamlet, ele quer algo mais. O qual desconhece, mas que necessita encontrar para preencher o vazio dos seus ossos. Suas indagações sobre o sentido da própria existência, a morte e o sentido de suas atividades são reverberações dos pensamentos de Hamlet, que mesmo após tanto tempo se mantém real. A similaridade é tão profunda que na canção em que ressalta sua angustia, Jack cita trechos de Shakespeare e repete signos como se estivesse a declamar o monólogo mais famoso da peça: To be or not to be.

Apesar de ser uma obra infantil, O Estranho Mundo de Jack é uma produção que levanta questões filosóficas e existenciais. Provando que nem sempre as pessoas com fama e poder estão completas e realizadas como seus sorrisos e postura política amistosa. Às vezes, tudo é uma capa e elas só não querem sofrer mais. E por isso partem em buscam das respostas as suas questões cometendo equívocos e sobressaltos em sua jornada, como Jack. Amado por todos, mas se sentindo extremamente incompleto e vazio. Jack é um líder nato e é isso que faz com que todos respeitem seu desejo de comemorar o Natal, ainda que não façam ideia do que se trata a festividade.

Essa atmosfera em torno da personagem revela a importância de arriscar e se permitir a mudança de ares, que podem expor opções outrora desconhecidas como respostas as indagações. Isso possibilita despertar coisas que estejam adormecidas. Pois dessa forma o Rei da Abóbora se permite sonhar e se aventurar quando conhece a terra do Natal e a felicidade que não consegue sentir em seu mundo. Mas como não está acostumado a isso, Jack não entende como funciona o Natal, o que acaba ocasionando um desastre.

Diferente de outros anti-heróis natalinos, Jack não quer destruir o Natal. Seu interesse na festividade se concentra nas diferenças que esta possui de sua realidade. Tais discrepâncias são tão evidentes que até mesmo o corpo do Papai Noel lhe é uma representação estranha. É ao observar o espaço que habita e o que há para além dele que Jack contempla o quanto as possibilidades que o circundam são responsáveis por sua insatisfação. O que torna cada novo espaço descoberto místico e encantador. Porém isto não o exime de errar e descobrir no processo do equívoco o sentido de ser quem realmente é: o rei do Halloween.

São essas buscas e desencontros que tornam “O Estranho Mundo de Jack” um filme atemporal.  Jack quer se encontrar, preencher os espaços entre seus ossos e oferecer significado as suas atividades. As indagações dele possuem um magnetismo que nos engole e deixa um rastro de paixão e susto pelas músicas, o ambiente e as temáticas. Um mundo invertido que vale a pena entrar e embarcar nas reflexões. Uma obra importante e inesquecível.

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