Seria difícil abordar “O Estranho Que Nós Amamos”, novo filme de Sofia Coppola que teve a sua première no Festival de Cannes desse ano, sem usar a palavra “feminista”, então pensei que colocá-la logo no primeiro parágrafo me daria a chance de expandir os temas do filme a partir dela.

O projeto se trata de uma refilmagem (ou releitura, como a cineasta prefere chamar) que busca reavaliar seu antecessor à luz da sensibilidade feminina de sua realizadora.

O original era um filme da década dos anos 70 que contava com um dos atores do Panteão dos Machos (Clint Eastwood) e um diretor celebrado no cinema de ação (Don Siegel) em sua terceira parceria. Ele contava a história de John, um oficial Ianque ferido mantido em um internato para garotas no Sul Confederado, onde sua presença começa a alterar todas as relações sociais.

O filme de Coppola se propõe a tirar o foco do soldado e o colocar nas mulheres que ele encontra, que, na sua versão, são a dona do internato, Miss Martha (Nicole Kidman), a professora Edwina (Kirsten Dunst) e as últimas cinco crianças que restaram no lugar devastado pela guerra, das quais o destaque é Alicia (Elle Fanning).

Claro que o soldado, aqui interpretado por Colin Farrell, continua sendo importante e a força-motriz de toda a história, mas a diretora, que construiu uma carreira em cima de seu prisma feminino mesmo em histórias centradas em homens (“Encontros e Desencontros”, “Um Lugar Qualquer”), deixa a câmera se delongar nas paisagens do Sul e nas interações das mulheres, criando um ambiente de delírio que lembra uma versão menos insana de Inocência, de Lucile Hadžihalilović.

Outra palavra difícil de evitar? “Sexo”. O filme é um ode ao tesão e às maneiras como ele consegue se impor em situações adversas e romper com estruturas sociais quando indomado. Na disputa pela atenção do soldado, as mulheres já não respeitam mais seus papeis de matriarca, professora e alunas e todas se dispõem, à sua maneira, a estar com o visitante misterioso, interpretado por Farrell com uma certa ingenuidade que esconde seu real posicionamento sobre sua posição no internato, que vem à tona na segunda parte do longa.

O destaque de atuação, no entanto, resta nos ombros de Kidman e Dunst: a primeira, figura que marcou presença forte na Croisette com quatro projetos em exibição, domina a tela como uma figura que perdeu quase tudo e busca no soldado um pouco de conforto; a segunda explora uma personagem que precisou amadurecer muito rápido mas vê o visitante com um olhar infantil não muito distante das alunas que ensina.

A aura sexual palpável é uma novidade para Coppola, bem como é o ritmo lento, milhas distante de seus projetos mais videoclipescos (Maria Antonieta”, por exemplo). Se o filme tem um defeito, especialmente no contexto de um festival associado com a vanguarda do cinema, é o excesso de formalismo de sua produção e de tradicionalismo em sua narrativa: uma vez estabelecida a premissa, o roteiro não se dá ao trabalho de desenvolver surpresa ou mudanças bruscas, de maneira que o fim parece anunciado muito antes do tempo.

Apesar disso, o trabalho mostra claramente a ambição por um novo ritmo de uma diretora que está conseguindo entrar em uma nova fase sem perder seus charmes. Seus últimos projetos, que vão de uma crítica à cultura da celebridade a um especial de Natal para a Netflix, mostram uma elasticidade revigorante que, creio, é o que manterá seu trabalho firme além de palavras populares que pipocam em resenhas.

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