ALERTA: Sob os olhos dele o texto é leve e com spoilers.

“Será que uma mãe pode esquecer o seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou?” Isaías 49:15

Quando Offred foi levada pelos Olhos ao fim da primeira temporada de “The Handmaid’s Tale”, muitos questionamentos foram junto com ela. A série havia sido renovada para o próximo ano ao mesmo tempo em que cobrira toda a obra de Margaret Atwood, a qual a distopia toma o nome e o conteúdo. Entretanto, sua renovação mostrou certa continuidade na trama e a expansão da narrativa encontrada em “O Conto da Aia”.

O roteiro que se baseou no primeiro momento em acompanhar a história de Offred na República de Gilead e nos introduzir àquele universo fictício, nesta segunda temporada ampliou a visão do que é Gilead, por meio de novos personagens, tramas secundárias e o aprofundamento daqueles que já estavam em evidência anteriormente. Conhecemos as Colônias, as econoesposas e o que aconteceu com certos segmentos durante a implantação do regime, como as feministas e os lgbts. Há um desenvolvimento mais imerso das discussões de Atwood, que continua oferecendo consultorias a série, entretanto a narrativa se constrói em cima de dois pilares que a tornam mais visceral e impactante. A grande questão por trás de tudo isso são os rumos que ela assume a partir de agora, embora todos seus passos conduzam a ações e emoções mais assombrosas do que vistas até aqui.

Os caminhos de Gilead – Composição visual e narrativa

Quem acompanhou o desenvolvimento da temporada inicial, tomou alguns sustos com os caminhos que a trama assumiu. Cada episódio manteve um grau de tensão elevado, com muitas situações se desdobrando consequentemente durante o par de horas e transformando atos que já eram viscerais emocionalmente em estranhavelmente violentos. Perceba que ao tocar na questão da violência, não podemos esquecer que o regime de fé e subserviência a religião que foi imposto pela República, é um ato fundamentalista e terrorista. Nem toda imposição fundamentalista tem propostas terroristas, mas a forma como Gilead foi formada e é orquestrada revela a magnitude dessa característica em suas entranhas.

Muito da violência apresentada no início era mantida por meio da mis-en-scène, que alinhada à fotografia de Colin Watkinson e Zoe White transformava o horror em obra de arte. Ainda há essa composição, porém a violência se tornou notável. Os planos detalhes e a geometria imagética dão um tom elegante a construção visual, alimentando a claustrofobia e os incômodos decorrentes da expressão facial das personagens, especialmente o elenco feminino como um todo. Como a temporada investe em apresentar lugares distintos e que outrora apenas se ouvia falar, a geometria visual utilizada para mostrar esses lugares é esteticamente admirável e claustrofobicamente ameaçadoras, como o caso das Colônias e dos ambientes utilizados na fuga de June.

A utilização das cores continua sendo um trunfo visual e estético, especialmente ao explorar o contraste existente entre o vermelho das aias, o turquesa das esposas e o marrom de tia Lydia. Esse contraponto sustenta o jogo de força e poder que ocorre em The Handmaid’s Tale e, pra ser mais específica, na mansão dos Waterford, que ao tratar de violência foi um dos lugares mais centrais da temporada.

Waterford e o Pequeno Poder

Há muitos comentários na internet de que a série foi ao encontro da violência e a colocou como gatilho para a atitude dos personagens, mais ou menos o que D&D fizeram a partir da quarta temporada de “Game of Thrones”. Contudo, nem todos os atos violentos conseguiram se colocar como plot para novas situações, para mim, soou mais como algo relacionado à cultura de Gilead que se construiu em cima da violação de direitos e da violência contra mulher que dessa vez tornou-se explicita, principalmente por conta do Comandante Waterford.

É admirável a evolução da família Waterford. Fred confirmou sua posição como homem fraco cuja única importância é o poder, mesmo que para isso tenha que machucar sua companheira e fingir regozijar-se com a natalidade, quando na realidade só lhe interessa o status quo que o nascimento lhe traz. Enquanto na temporada anterior essa fraqueza ofereceu momentos de respiro a Offred, agora o homem fraco evoluiu para um monstro. Quem realiza e permite as ações que ocorrem entre o casal Waterford é no mínimo fraco e indigno. Fred almeja o poder, mas a que custo? Nesta conjuntura é importante observar o papel que Serena desempenhou em tudo isso. A temporada nos possibilitou conhecer um pouco do casal antes da instalação de Gilead e como a dinâmica entre eles foi afetada com as próprias ideologias de Serena.

Se Fred é monstro, ela teve papel crucial para transformá-lo no Comandante Waterford – líder frio, calculista, falso, assassino e sem escrúpulos. Suas palavras “Seja homem” serviram como “gatilho” para a transformação de Waterford. Torna-se difícil aceitar as escolhas feitas pela senhora Waterford. É perturbador ver uma mulher forte tornar-se subserviente ao homem, e mais ainda a assistir ser vítima de violência doméstica, sabendo que ela poderia não estar passando por essa situação, mas que é a responsável por tantos males dentro da distopia. Claro que a mão da narrativa pesa muito mais sobre ela do que sobre Fred. O atentado que lhe impossibilitou a gestação é um exemplo. Entretanto, seu martírio não justifica suas ideologias ou a falta de sororidade. Mesmo quando há um resquício de bondade em Serena, seus próximos atos destroem o que havia de bom. E tudo isso a preço da maternidade.

A semente

Ouso dizer que o maior pilar dessa temporada é a maternidade. Serena afirma em mais um momento de agressão psicológica de Waterford que tudo o que fez foi por seu desejo de ser mãe e há muitos momentos que seu humor varia como se ela realmente estivesse grávida. A maternidade também é o que salva o bebê Angela, além de sermos apresentados a Emilly e Moira como mães e a relação de June com Holly e o quanto o conflito da aia com a mãe afetou sua visão de mundo.

É dentro dessa construção que a maternidade soa como um karma para June que quer ser diferente da mãe feminista e por isso as lembranças com Holly e Hannah se tornam mais freqüentes e é também este o motivo de sua escolha no final surpreendente. June é mãe e a violência de Gilead aflorou seus instintos mais primitivos, especialmente por ser a progenitora de duas meninas que podem experimentar os mesmos horrores da sociedade misógina que se encontram, por isso as palavras de Isaias se encaixam tão bem na descrição dessa temporada. Neste quesito, o plot de Eden é fundamental para balançar as estruturas femininas e introduzir uma pequena revolução feminista que passa pelas Redes das Martas e dá o tom da season finale. A morte une as mulheres que estão acostumadas a perder tudo, na temporada que fala mais abertamente sobre o feminismo.

O outro lado

Todos são psicóticos em relação a natalidade. E isso incomoda no tratamento destinado as aias, se é delas que o fruto pode ser germinado, por que as tratar como lixo? As aias sofrem uma pressão constante e ninguém se importa com o real estado que se encontram, tudo que lhes interessa é o útero, como se nunca tivessem visto uma gravidez antes e não soubessem como o emocional e psicológico são imprescindíveis nesse momento.

Nesses meandros, sem perceber, tudo que os fundamentalistas pregavam como importantes, e serem a causa da escatologia, se torna banal para eles. O casamento vira algo tomado pelas aparências e obrigações da sociedade, o paralelo aplicado entre os rituais na Colônia e com os Olhos explicita isso. A religião é um subterfúgio para o poder, assim como a procriação. Tudo o que a República de Gilead anuncia em seus bordões repetitivos é maltratado e insignificante.

Nolite Te Bastardes Carborundorum

Em contrapartida, a resistência se mostra mais forte. Os planos de fuga e os sussurros são mais constantes, os atentados e os protestos no Canadá evidenciam que há movimentações. As quais diferem das atitudes de cruzar os braços de Luke, que continua conformado com o que tem. Entretanto é nos simbolismos dos primeiros episódios que essa obstinação toma corpo. June abandona Offred e assume quem é em seu âmago. A queima das roupas de aia, do cabelo e o corte na orelha são simbolismos de que está deixando a Offred da primeira temporada e revelando a June que estava em torpor. E como diz Rita, essa June é incrível. É ela quem vemos ao fim da temporada e a que dá a Fred o que todas as pessoas da mansão Waterford e o público gostariam de fazer. June tem sororidade e é capaz de despertar e compartilhar um dos sentimentos mais ignorados em Gilead: o amor. A relação dela com Nick é uma das poucas coisas que tornam a vivência aceitável.

Desse modo, a segunda temporada de The Handmaid’s Tale consolida a distopia de Margaret Atwood a partir dos pilares da violência e a maternidade. A ampliação do universo fictício oportunizou ao público uma compreensão maior do regime fundamentalista, ao responder indagações que permaneceram da primeira temporada e da leitura do livro. Embora essas escolhas narrativas tenham acarretado novos questionamentos que podem ser respondidos no ano que vem. Enquanto isso, aguardamos pacientemente os próximos passos de The Handmaid’s Tale.

Blessed be the fruit!

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