Chega a ser impressionante o que acontece com a carreira de Ridley Scott há uma década. Exceto pelo divertido “Perdido em Marte”, são bombas atrás de bombas a cada ano: “Robin Hood”, “O Conselheiro do Crime”, “Êxodo” e “Alien: Covenant”. “Todo o Dinheiro do Mundo pode não ser um desastre destas proporções, mas, também não deixa uma boa impressão.

O suspense acompanha a polêmica em torno do sequestro do jovem John Paul Getty III (Charlie Plummer). Mesmo sendo considerado o homem mais rico do mundo, Jean Paul Getty (Christopher Plummer), recusa-se a pagar US$ 17 milhões, um trocado para ele, pela libertação do neto. A partir daí, a mãe do garoto, Gail Harris (Michelle Williams) passa a lutar para que o magnata do petróleo libere a grana e pague o resgate do filho.

De todos os últimos fraquíssimos filmes dirigidos por Ridley Scott, “Todo o Dinheiro do Mundo” é, de longe, o mais conservador e também menos inspirado. O elenco recheado de estrelas está lá assim como todo o luxo do figurino, direção de arte e a bela fotografia de Dariusz Wolski capaz de explorar a imensidão da mansão com um jogo de luzes e sombras salientando a solidão do personagem do milionário Getty, além da escuridão das ruas que alimenta o clima de perigo presente em cada canto.

Michelle Williams se esforça em trazer ao espectador o desespero de uma mulher cercada de dinheiro, mas, sem poder tocar nele para salvar a vida do filho. A luta e determinação da personagem são encarnadas de modo comovente pela atriz que atinge o auge em uma cena de desespero transformada em alívio em um curto espaço de tempo e feita de maneira sutil.

O que falar então de Christopher Plummer? Imaginar que o ator teve apenas nove dias para gravar as cenas então feitas por Kevin Spacey e conseguir transmitir toda a complexidade do verdadeiro protagonista de “Todo o Dinheiro do Mundo” é admirável. Na verdade, o filme atinge os momentos mais interessantes quando Jean Paul Getty está em cena. Apesar da narração do neto, logo no começo do filme, pedir desculpas ao público por aquelas pessoas não serem como nós em uma situação de risco, é possível compreender as atitudes do magnata por mais que possamos não concordar com elas. A solidão e o temor da decepção são medos compreensíveis independente da classe social e dos números de zeros de uma conta bancária, o que nos aproxima de uma figura por tantas vezes detestável. O discurso de desesperança do milionário para com as pessoas ao redor soa tão próximo de nós a cada dia.

Pena Plummer ficar quase restrito à primeira parte do filme e a tensão entre ele e a personagem de Michelle Williams não ser explorada suficientemente da forma como merecia. No lugar, o roteiro feito por David Scarpa (“O Dia em que a Terra Parou”) pouco aprofunda nos demais personagens como é o caso do faz tudo de Getty, Fletcher Chase (Mark Wahlberg, ruim para variar) ou no bandido bonzinho clichê de todo filme de sequestro (no caso, o bom Romain Durais). Ainda há diversas subtramas como a situação do pai drogado, dos comunistas que querem tirar vantagem da situação, as próprias negociações dentro da família e uma montagem que repete à exaustão a mesquinharia do protagonista, esticando o filme a desnecessários 132 minutos.

Acima de tudo, “Todo o Dinheiro do Mundo” é um filme genérico, um suspense sem grandes sequências de tensão dignas da trama (exceção fica pelo momento “Alien” com sangue espirrando para todo o lado). Nem muito menos é um drama sobre a solidão do poder e como a riqueza cobra caro na vida pessoal, pois, Getty pouco surge em cena após determinado momento da trama. Há um vazio tão grande de rumo e sentido geral no filme preocupante para um cara que já nos deu obras-primas como “Blade Runner”, “Alien: O Oitavo Passageiro”, “Thelma e Louise” e “Gladiador”.

Ridley Scott parece viver da fama e sucesso das produções passadas, além de uma Hollywood pouco pensante nos dias atuais, levando grandes atores a buscarem qualquer saída ao escapismo que domina na indústria. Não é à toa que mesmo com tantas porcarias feitas nas últimas produções, ainda é possível ver gente do naipe de Christopher Plummer, Michelle Williams e Mark Walhberg apostar no cineasta.

É inevitável sair do filme sem se questionar: o que seria de “Todo o Dinheiro do Mundo” sem todos os escândalos dos bastidores?

Respondo: quase nada.

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