José Mojica Marins, o Zé do Caixão, faleceu neste dia 19 de fevereiro, devido a uma broncopneumonia. Tinha 83 anos e já estava com a saúde frágil há algum tempo, então essa notícia não é totalmente inesperada. Ainda assim, é um momento triste para o cinema e a cultura brasileiros. Aliás, neste campo ultimamente só temos más notícias, não é mesmo?

Infelizmente a vida não é como no cinema: Nas telas, Mojica morreu e reviveu algumas vezes ao interpretar seu famoso personagem, que o tornou reconhecido mundialmente. Mas quanto mais conhecemos a vida dele e sua trajetória, mais fica clara a sua paixão pelo cinema, pela câmera, pela realidade inventada que só existe na tela. E como ator e personagem se confundem.

Um ícone do cinema

Mojica nasceu em Vila Mariana, São Paulo, em 1936, numa sexta-feira 13 – parece coisa de filme, não é? Sua família tinha ascendência espanhola e ele cresceu rodeado por quadrinhos e filmes – seu pai foi gerente de um cinema. Na escola, não queria saber de estudar nem de jogar bola; preferia participar das peças do teatro escolar. E via filmes: westerns, aventuras do Zorro, musicais e, claro, os filmes clássicos de terror estrelados por nomes como Boris Karloff e Bela Lugosi. E quando ganhou de presente do pai uma câmera 8 mm, seu destino foi selado, de certa forma.

Estudiosos cunharam o termo “sincretismo religioso” para explicar a mistura de religiões que existe no Brasil. Bem, não tardou para Mojica começar a fazer seus próprios filmes e construir um “sincretismo cinematográfico”. Seu primeiro longa, lançado em 1959, foi o primeiro faroeste brasileiro: A Sina do Aventureiro, no qual ele foi diretor, concebeu o argumento, compôs canções para a trilha sonora e apareceu numa ponta. Depois se arriscou num dramalhão, Meu Destino em Tuas Mãos (1963). Nenhum dos dois empolgou as bilheterias.

Vamos ver isso em contexto: Como Mojica realizou esses dois longas? Bem, ele era maluco, e convencia outros a embarcarem nas suas maluquices. Fundou uma escola de atores, de onde saíam os intérpretes dos seus filmes, e juntava aliados para compor sua equipe – o cineasta Luís Sérgio Person, que mais tarde faria o clássico São Paulo: Sociedade Anônima (1965), deu umas dicas no roteiro de Sina, ou melhor dizendo, ajudou a organizar os rabiscos de Mojica. Já o próprio nunca abriu um livro de cinema na vida. Em todos os aspectos, ele foi o protótipo brasileiro do realizador independente e que aprendia na prática. Aliás, os alunos da sua escola eram convencidos a comprarem cotas dos filmes de Mojica, o que ajudou a financiá-los…

Mas logo surgiram os problemas: Estava casado, com uma família para cuidar, e duro. Seu próximo filme tinha de fazer sucesso. E então veio o pesadelo… Diz a lenda que Mojica sonhou, uma noite, com uma figura esguia e vestida de preto que o arrastava para o cemitério, até a sua lápide, e nesse sonho ele teria visto o ano da sua morte. Acordou em pânico, assustando a esposa. A experiência foi tão forte que o levou a pensar em fazer um filme de terror. O que era praticamente inédito no Brasil.

Ele juntou os trocados que pôde – chegou a vender a mobília de casa – e produziu entre 1963 e 1964 À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Seu filme era centrado na figura de Zé do Caixão, na verdade Josefel Zanatas, o coveiro de uma cidadezinha perdida no interior do Brasil. Zé é temido e odiado pelos moradores, e zomba da religiosidade e dos comportamentos provincianos ao seu redor. Obcecado em gerar o filho perfeito, que lhe dará “a continuidade do sangue”, ele passa a cobiçar a esposa do seu melhor amigo, com resultados assustadores.

O “pulo do gato” do filme, além da fotografia criativa de Giorgio Attili – foi ele quem concebeu o icônico plano em que Zé é visto numa janela comendo um suculento bife, em desafio à procissão da semana santa que passa embaixo dele – é o personagem de Mojica. Como várias figuras do terror, Zé tem consciência dos tabus da sociedade e nos perturba ao mexer com eles. Ele ri da religião do povo – o filme é verdadeiramente anticristão. E mesmo sendo o vilão do filme, é a figura mais carismática e tem razão em algumas das suas observações. Ele joga na cara dos cidadãos, e do espectador, algumas hipocrisias da sociedade. Zé do Caixão é o nosso bicho-papão porque aponta um espelho para o Brasil. E o faz pegando emprestados ingredientes do cinema de terror da época: A capa dele vem do Drácula do Lugosi, o cemitério cenográfico lembra os dos filmes da Universal…

O filme foi um sucesso de bilheteria no lançamento em 1964, porém Mojica praticamente não viu a cor da grana dele. Mas conseguiu se estabilizar, um pouco. Alguns anos depois, veio a sequência. Em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), Zé do Caixão retorna após ser dado como morto no anterior – Mojica pega a trapaça da ressurreição do monstro emprestada de A Noiva de Frankenstein (1935) – e, mais endiabrado do que nunca, sequestra algumas mulheres e as tortura, em busca da futura mãe do seu filho perfeito. Em minha opinião, é um filme até melhor que o original, mais ambicioso e com a incrível sequência do Zé no inferno. O inferno na visão do Mojica é colorido – o filme inteiro é em preto & branco exceto por esse segmento – e frio, um verdadeiro pesadelo sexual que até lembra Dante, mas provavelmente o diretor nem sabia quem é esse. É realmente impressionante.

O filme saiu num momento político conturbado: A censura do governo militar, que começava a engrossar, forçou Mojica a incluir um final em que Zé aceita Cristo. Foi o começo da relação conturbada do diretor com a censura. A partir daí seus filmes seriam atacados, cortados à revelia do autor ou banidos. Foi o caso de O Despertar da Besta, também conhecido como Ritual dos Sádicos: Produzido em 1969, o longa foi proibido pela censura e nunca lançado comercialmente no Brasil, tendo sido exibido apenas em festivais, vários anos depois.

Impedido de colocar sua visão artística por completo na tela, Mojica prosseguiu trabalhando nos anos 1970 e 1980, fazendo filmes pornôs, apelativos e ocasionalmente trazendo de volta Zé do Caixão em antologias e aparições na TV. Muitas vezes participava de programas de auditório por dinheiro, para ser ridicularizado pelas plateias. O próprio Mojica teve culpa nessa prostituição da sua figura, pois gostava de ser celebridade. Mas com o tempo o Zé se tornou uma presença quase confortável, uma caricatura, longe da força das suas primeiras aparições.

A ressurreição

Depois de anos de vacas magras, na década de 1990 os filmes antigos de Mojica começaram a se tornar cultuados na Europa e nos EUA. De repente, “Coffin Joe” virou uma figura muito conhecida entre os fãs de cinema fantástico e alternativo pelo mundo inteiro, o que contrastava com o esquecimento do cineasta aqui no seu país, e o preconceito para com ele e sua obra. E perto do final da década, Mojica foi descoberto por um novo público por causa do Cine Trash, programa da Rede Bandeirantes que exibia filmes de terror apresentados por Zé do Caixão e suas assistentes de palco sensuais. O Cine Trash chegou a passar até nas tardes, horário pouco apropriado para os filmes que exibia, e as “pragas” do Zé faziam sucesso.

Com o tempo, a reavaliação de Mojica no exterior tornou possível a ele realizar um velho sonho aqui no Brasil: Completar a trilogia oficial do Zé do Caixão, o que ele enfim conseguiu realizar nos anos 2000. Em 2008, foi lançado Encarnação do Demônio, com o retorno de Mojica ao seu famoso personagem. O tempo passou, mas sua ideologia permaneceu viva, e acompanhamos o desfecho da sua busca de décadas pelo filho perfeito num filme com bastante sangue e toques de torture porn, a moda do terror mundial da época. Acabou sendo o último trabalho de Mojica como diretor.

O legado

A morte de José Mojica Marins chega numa época em que a cultura, e o cinema do país em particular, parecem estar sob ataque de setores da sociedade e de forças religiosas que seriam justamente o alvo das zombarias de Zé do Caixão em seu auge. Com a morte de Mojica, o Brasil perde uma figura ímpar, um artista provocador que nos fez ver a nós mesmos pela ótica distorcida da sua visão pessoal. Nos seus melhores trabalhos, ele parecia conseguir estabelecer uma linha direta entre a tela e seus pesadelos, seus “delírios de um anormal”, sem filtros. Em vários dos seus filmes, a sensação era de que um louco estava dirigindo. E isso é bom.

O legado dele é o de não desistir, de ousar produzir cinema estilo guerrilha num país onde qualquer um que faça um longa já pode ser considerado um herói. Hoje, o gênero terror experimenta um momento de efervescência no país: todos os cineastas que se aventuram nele por aqui seguem os passos de Mojica e podem usar sua trajetória como inspiração. Ele realmente foi um ícone de outra época do cinema – hoje quem tentar jogar cobras ou aranhas sobre atrizes vestindo camisolas diáfanas vai ouvir reclamação. Mesmo assim, é a sua visão satírica, a determinação dele e seu amor pelo cinema que podem e devem servir de inspiração. Só o fato de ele ter continuado a produzir por tanto tempo – e agora até mesmo os seus filmes sem valor artístico ajudam a compor o escopo da sua obra – se configura como ato de resistência. E lições de resistência nunca são demais para os artistas brasileiros, ainda mais agora.

Perdemos um homem do cinema. Mas o espírito zombeteiro de Zé do Caixão permanece vivo em seus filmes. Por isso, devemos vê-los. Nos filmes, o monstro sempre vive. Até quando morre.

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