É até meio difícil tentar fazer uma abordagem crítica do filme A Mulher na Janela sem falar um pouco do seu longo e tortuoso caminho até o lançamento. O diretor do longa, o britânico Joe Wright, começou a trabalhar nesse projeto, uma adaptação do livro  do autor A. J. Finn, ainda em 2018, logo depois que seu filme anterior, O Destino de uma Nação (2017) teve uma bem sucedida carreira na temporada de premiações, rendendo o Oscar de Melhor Ator a Gary Oldman. Como produtor do filme estava o renomado Scott Rudin, e o longa encontrou lar no Fox 2000, selo do estúdio 20th Century Fox para suas produções mais alternativas. Wright atraiu um elenco estelar – quando a produção foi anunciada, até se comentava que Amy Adams, a escolhida para viver a protagonista, enfim ganharia seu Oscar com esse papel. Mas o filme foi pego no turbilhão conjunto de sessões-teste que confundiram o público, troca de roteiristas, refilmagens em 2019, a compra da Fox pela Disney e uma pandemia global. O resultado: um projeto que inicialmente despertava atenção pelo seu potencial artístico e de prêmios acabou sendo lançado com pouco alarde na Netflix.

O atraso do filme, inclusive, o levou a estrear perto do oscarizado drama Meu Pai (2020), de Florian Zeller. Os paralelos são expressivos, a ponto de ser possível definir A Mulher na Janela como Meu Pai encontra Janela Indiscreta (1954), o clássico de Alfred Hitchcock. No filme, Adams interpreta Anna Fox, uma outrora psicóloga que há meses vive confinada em casa, não por medo da COVID, mas sim por uma forte agorafobia – temor de locais abertos. Ela está sob medicação e tratamento, mas de cara o espectador percebe que se trata de uma pessoa perturbada. A vida de Anna se complica ainda mais quando ela vê – ou pensa ver – um crime cometido na casa em frente, e tenta convencer a polícia e a todos ao seu redor do que viu.

Porém, a diferença básica entre A Mulher na Janela e Meu Pai é que no filme estrelado por Anthony Hopkins, a doença do protagonista e a deterioração da sua mente eram usadas, paradoxalmente, para nos fazer conhecer o personagem e aumentar o senso de tragédia ao redor dele. E o filme nos fazia ter empatia por ele. Em A Mulher na Janela, nunca se sente empatia pela personagem de Adams. Além de ela ser uma personagem difícil, definida somente pelo seu problema psicológico que já nos mantém à distância de cara, o roteiro não consegue despertar uma muito necessária empatia por ela. O resultado é um filme que fica sem centro.

De certa forma, o filme comete o mesmo erro do recente Era Uma Vez um Sonho (2020), também com Adams: o roteiro e a direção colocam nas costas dela, uma atriz da qual todo mundo gosta, a responsabilidade de fazer funcionar personagens difíceis, e ela sozinha não dá conta desse desafio. Adams é uma ótima atriz, mas não faz milagre. Quando enfim descobrimos a causa da agorafobia da Anna, algo que poderia nos fazer despertar empatia por ela, falta só meia hora para o filme acabar e aí já é tarde demais. Porque o roteirista decidiu deixar essa informação como um plot twist, um momento “a-há!” que a narrativa não precisava ter, é algo difícil de compreender.

TERCEIRO ATO DESASTROSO

Visualmente o filme é até interessante, com a fotografia de Bruno Delbonnel transformando o apartamento de Anna num ambiente opressivo, e também imbuindo alguns cômodos de iluminação especial e cores que refletem o estado de espírito da protagonista. Wright, um diretor que não conseguiu mais fazer jus à promessa dos seus primeiros filmes – Orgulho e Preconceito (2005) e Desejo e Reparação (2007) – de novo se mostra um cineasta exibido, aqui colocando sua câmera em ângulos estranhos, compondo momentos surreais e dividindo o quadro, quase à la Brian De Palma.

Porém, essa estilização acaba tirando ainda mais o chão do espectador. Ora, se vemos tudo pelos olhos da protagonista, e ela não pode confiar nela mesma, ficamos sem chão na narrativa e ainda por cima presos num único cenário com uma figura estranha que não nos cativa. Chega a ser difícil assistir a esse filme – Meu Pai também era, mas pelo menos lá tínhamos um suporte, um ponto de referência na figura humana de Hopkins. Aqui, não.

Apesar de tudo… Até o meio, A Mulher na Janela ainda consegue segurar um pouco o espectador, pela curiosidade. Então vem o terceiro ato para melar de vez a experiência, com dois personagens aparecendo, em sucessão e convenientemente, para despejar um monte de diálogos expositivos e explicar a trama para nós. É a deixa para Wright brincar de Hitchcock, cair em velhas armadilhas de gênero e resolver tudo do modo mais anticlimático possível.

Por todo o filme, vemos atores muito bons como Gary Oldman, Julianne Moore, Wyatt Russell e Brian Tyree Henry, além, claro, da própria Adams, brigando com o material, tentando fazê-lo funcionar junto com a direção, e os esforços são notáveis. Mas A Mulher na Janela no fim das contas é um pastiche que só constrói clima e entrega muito pouco ao espectador, e nem funciona como estudo de personagem ou drama. Mas havia potencial ali, em algum momento. Talvez o resultado final do filme seja mais interessante visto sob a luz do estado atual da indústria cinematográfica de Hollywood. Ele nos mostra que a estrada até a tela, seja ela grande ou pequena, é cheia de boas intenções e armadilhas em potencial, e que a Netflix hoje se mostra o depósito de muitos filmes condenados pelo sistema, sempre ávido para pegar no contrapé qualquer espectador desavisado.

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