Adiar a leitura do último capítulo daquele livro que você tanto gostou de acompanhar. Enveredar os caminhos de novas séries no serviço de streaming enquanto o finale daquela que você assistiu por anos aguarda na lista de espera. Guardar o download daquele filme coreano elogiadíssimo para depois por ansiar um “momento ideal” de degustá-lo. Há várias formas de procrastinar o consumo pelo prazer que o aparente congelamento de suas possibilidades gera. Assim é minha relação com “Adoráveis Mulheres”. 

Esclarecendo: assistia à versão de 1994, dirigida por Gillian Armstrong, repetidas vezes durante a infância e pré-adolescência. Era um filme que simplesmente reunia todos os itens interessantes a uma jovem nesse momento da vida naquele contexto: a personalidade bem demarcada das irmãs March, a representação de um lar acolhedor e valores progressistas (até certo ponto), entretenimento leve através da remodelação de elementos do melodrama… olhando em retrospecto, o trabalho de direção de elenco aliado ao cuidado com figurino, fotografia e o roteiro ágil de Robin Swicord foram os principais pontos que cimentaram um impacto tão delicado, mas permanente naquela menina engatinhando (na vida e na cinefilia). 

Esse preâmbulo serve para explicar minha relutância em ler a obra original na qual o filme se baseia, o livro de Louisa May Alcott. Afinal, não foi bacana a experiência de ter me decepcionado com o estilo de escrita de Jane Austen (desculpa sociedade) depois de assistir à impecável adaptação de Ang Lee (“Razão e sensibilidade”, 1995). Mídias diferentes apresentam demandas diferentes e essa é uma discussão para outro momento, mas no caso da adaptação de Greta Gerwig, meu desafio como espectadora e crítica era outro: como “desbancar” a versão de Armstrong, sendo que o aspecto de memória afetiva é tão forte para mulheres cinéfilas de minha geração? Visto o filme, descobri que meu desafio era ainda mais complexo… 

Um feminismo solúvel 

O trabalho de Gerwig com o filme atual lhe conferiu uma responsabilidade traiçoeira, pois embora a última adaptação de “Adoráveis Mulheres” não seja exatamente um filme essencial dentro de um cânone da história do cinema, ele é adorado por seu público-alvo. Sentimentalismos à parte, a diretora teve em mãos uma faca de dois gumes para modernizar livro e películas anteriores.  

Por um lado, a nova versão traz pitadas de um feminismo solúvel e palatável; por outro, despe da obra características que outrora a tornaram irresistíveis. Focando no primeiro ponto, confesso que, como crítica, me questiono cada vez mais sobre a serventia de se oferecer esse feminismo liberal em doses homeopáticas para o grande público. Afinal, há décadas o cinema vem fazendo isso, e sempre esbarramos com retrocessos na representatividade atrás e em frente às câmeras.  

Será mesmo que o feminismo precisa que o casamento de Jo (Saoirse Ronan) e Friedrich (Louis Garrel, gostoso como sempre) seja ambíguo através do processo de edição do longa? Que a tia March (Meryl Streep, bem protocolar) nos brinde com pílulas da história do período do Feminismo de Primeira Onda? Que Meg (Emma Watson, numa atuação nada inspiradora) fique triste por não poder ajudar o marido a pagar as contas da casa (trabalhada no lema do #HeForShe, segundo o qual homens devem lutar pelo feminismo porque também sofrem as consequências do patriarcado)? Não me pergunto isso em tom de ironia; só sinto que “Adoráveis Mulheres” não é o veículo mais interessante para isso, porque seu objetivo sempre foi ser uma obra comercial sem grandes pretensões desde que Alcott escreveu o livro, e sendo que o feminismo na contemporaneidade só faz sentido se aliado ao cruzamento de raça, classe e/ou o reconhecimento de que patriarcado e capitalismo são basicamente a mesma coisa – todo o resto é desculpa para vender camisetas da Mulher-Maravilhaaction figures da Rey (que, confesso, compraria, porque adoro Star Wars. A vida é um mar de contradições, não é mesmo?). 

Meg personifica bem esse dilema para mim no filme: a personagem foi criada para representar o modelo de feminilidade servil e abnegada da época – características presentes na versão cinematográfica de 1994 – contrapondo-se a Jo. Já no roteiro de Gerwig, ela deseja ter mais dinheiro para adquirir bens de consumo, entristecendo-lhe depender do marido. Seu final é feliz na medida que dá aulas de interpretação (?) na escola da irmã, hipoteticamente se realizando como indivíduo. Porém, a escolha equivocada de Watson para o papel torna a personagem praticamente descartável, sem nuance e sem apelo, pois mesmo as mulheres “tradicionais” deveriam ser melhor contextualizadas e apresentadas; afinal, tal ideal era o pretendido às moças daquela época (e, convenhamos, nesta época também, para boa parte da sociedade). Se fosse para moldar a trama ao gosto do feminismo de 2020, a dupla Gerwig/Watson poderia ter se esforçado mais. 

Outro ponto ilustrativo desse meu argumento é Jo. Se em 1994 Armstrong trazia uma Jo March moleca e instintiva (nesse sentido, a figura de uma jovem Winona Ryder caia como uma luva), hoje as estripulias de Saoirse Roman não me soam tão marcantes, mesmo numa obra de época, por mais que suas demandas permaneçam relevantes, se ilustradas com mais paixão.  

Talvez seja uma questão geracional mesmo, mas a versão da Jo que vi no longa de Gerwig me parece menos espontânea do que a imagem que tinha da personagem. Imagino-a usando mom’s jeans e postando trechos de seus contos nos stories do Instagram (com o Laurie hipster de Timothée Chalamet dando vários likes), ao invés de se dedicar ao árduo trabalho da escrita, por mais fantasiosa que fossem as tramas de seus contos. Porém, creio que tal ajuste tenha algum apelo com o público jovem de hoje, uma geração cada vez mais afoita por ser reconhecida como “especial”, mesmo sendo, como a maioria esmagadora das pessoas que já passaram pela face da Terra, apenas ok, na melhor das hipóteses. 

Movimentos friamente calculados 

O que me incomoda mesmo é que há algo de claramente calculado nessas mudanças, ao passo que seus efeitos são negativos para o todo do filme. Voltando ao personagem de Friedrich, por exemplo, ele poderia muito bem ser eliminado da trama, posto que pouco vemos como a relação entre ele e Jo se fortalece, ao ponto do filme precisar de um diálogo expositivo no qual 90% do elenco diz à Saoirse Ronan que sua personagem está apaixonada. Isso me leva a pensar que o problema não era eles casarem ou não, mas como um elemento foi pouco ou mal desenvolvido na direção. Dos males, o menor, pois ver algum Garrel é melhor que não ver nenhum… 

Ainda assim, eu me pergunto: qual o sentido de eliminar uma parte marcante da obra original com a “desculpa” de “modernizá-la” se personagens como Meg permanecem rasas em seu tratamento? Se o objetivo é atualizar o viés progressista da trama original, por que Meg e Marmee (Laura Dern, que não me agradou muito nesse papel) são coadjuvantes tão apagadas, quando as experiências dessas mulheres são o núcleo do que representou as consequências do patriarcado para a maioria esmagadora de mulheres da época? Pelo menos, Beth (Eliza Scanlen) compensa a deficiência de Watson na atuação, acertando em cheio a introspecção de sua personagem sem deixar de desenvolver o lado melodramático que a demarca (assim como toda a trama). 

Temos também o interessante discurso de Amy (Florence Pugh, o destaque do elenco) adicionado à versão de Gerwig. Nele, explica-se que as mulheres tinham pouquíssimas chances de acumular bens próprios, sendo o casamento uma transação mais econômica que sentimental na vida delas. Interessante sim, relevante também, mas não muito bem encaixado naquele universo que deveria ser mais simples, doce e sentimental que demarca o núcleo da narrativa. Por sorte, o magnetismo de Pugh confere certa unidade à quase esquizofrenia que o roteiro dá a sua personagem, que transita entre ser pueril e a pessoa mais sensata dos Estados Unidos e, quiçá, do mundo. 

Sei que deveria ter, tradicionalmente, enveredado por explicar algo da sinopse de “Adoráveis Mulheres” parágrafos atrás. Falar sobre aspectos técnicos. Explanar sobre a beleza que é o trabalho de figurino de Jaqueline Durran. Poderia até mesmo discorrer sobre o desperdício de Bob Odenkirk no papel do pai das meninas. Mas, ao invés disso, fui conferir a ficha técnica do longa de Gerwig para verificar que aquele foi um set absurdamente tradicional: muitos homens (brancos) nas atividades vistas como “técnicas” e “exatas”, como as referentes à fotografia e elétrica, e mulheres em peso nos setores de figurino e direção de arte. Olhando rápido, lembra a divisão básica de equipe da versão de 1994. Por que, em pleno 2020, não podemos mudar isso também?  

Se for para apenas jogar um verniz de aparente modernidade que não fede nem cheira, por que não trabalhar com o material tal como ele se propõe desde sua concepção inicial: leve, um pouco datado mesmo em seus ecos protofeministas, mas nem por isso menos divertido? Registros dão conta de que Alcott não queria mais que isso, e há inúmeras histórias revolucionárias por serem contadas nas quais as jovens de 2020 poderiam se ver representadas na potência que os tempos atuais demandam. 

Creio que, após a experiência de escrever sobre “Adoráveis Mulheres”, compreendo um pouco melhor as viúvas de Marvel e DC que reclamam de como seus super-heróis favoritos foram descaracterizados no cinema. Ao mesmo tempo, penso que o problema não é o desafio da transposição do livro para filme, ou a paixão suscitada por uma versão anterior da obra. É inegável, por exemplo, que Christopher Nolan (por mais que eu tenha preguiça desse diretor) repaginou com maestria seu Batman; Gerwig, nesse sentido, ficou pelo caminho com nossas adoráveis mulheres. Sorte dela que, tal como boa parte do público de filmes de super-heróis, nós gostamos tanto de Meg, Jo, Beth e Amy que vamos conferir o filme mesmo assim. 

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