Astro mexicano surgido no já clássico “Amores Brutos”, de Alejandro González Iñarritu, Gael García Bernal tornou-se um dos principais rostos do cinema latino dos últimos 20 anos. Estrelou obras importantes como “E Sua Mãe Também”, “Diários de Motocicleta”, “O Passado”, “No”, “Má Educação”. Diferente de Rodrigo Santoro, traçou uma carreira mais criteriosa em Hollywood com produções como “118 Dias”, de Jon Stewart, e “Babel”, além da premiada série “Mozart”. 

Paralelo a isso, Gael seguiu firme no propósito de investir na carreira de diretor. O primeiro longa, “Déficit”, de 2007, teve repercussão tímida. Daí por diante, fez obras em que dividia a direção com outros cineastas e também em curtas-metragens solos. Ao lado do amigo e conterrâneo Diego Luna, fundou em 2018 a ‘La Corriente del Golfo’, produtora para bancar os próprios projetos pessoais de ambos.  

Chicuarotes” marca o primeiro longa-metragem da ‘La Corriente del Golfo’ e o retorno de Gael García Bernal à direção solo nos cinemas. A obra traduz muito mais esse caminho traçado de forma milimétrica pelo mexicano do que chega a brilhar por méritos próprios, mesmo que o resultado seja suficientemente satisfatório ao longo de seus 95 minutos. 

Ambientado na Cidade do México, a obra mostra a história de Cagalera (Benny Emmanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal), dois jovens moradores do bairro da periferia de San Gregorio de Atlapulco, os quais são chamados pejorativamente de ‘chicuarotes’. Para sair do estado de pobreza em que vivem, a dupla decide sequestrar o filho do açougueiro local, porém, a inexperiência deles complica tudo e cria uma situação ainda pior. 

MAR DE REFERÊNCIAS 

Como todo cineasta nos primeiros passos, Gael García Bernal deixa transparecer todas as inspirações e referências em “Chicuarotes”. A cena inicial é a versão latina para o começo de “Pulp Fiction”, enquanto “Amores Brutos” surge quase como um irmão mais velho e espiritual, guiando todas as (excessivas) subtramas e o espírito trágico que perpassa a produção. 

Chicuarotes” também bebe da fonte de “Pixote” e todos os violentos dramas sociais que se tornaram a tônica de parte da produção latina desde “Cidade de Deus”. A ausência do Estado, a justiça sendo feita pelas próprias mãos, a pobreza extrema exposta pela direção de arte nas casas e regiões por onde habitam os protagonistas, a criminalidade dominante como única saída para jovens das regiões periféricas, a perda da humanidade diante da barbárie, o destino trágico rondando aquelas figuras estão todas lá batendo ponto. 

O maior pecado do longa reside mais no previsível roteiro e na incapacidade de criar personagens com quem realmente nos importemos. Parceiro de Luna e Gael, o roteirista Augusto Mendoza se concentra na criação de obstáculos para Cagalera e Moloteco sem nunca abrir espaço para dar a oportunidade sobre o que pensam e quem são aqueles garotos desesperados. A empatia surge mais quando a história demonstra a inabilidade dos rapazes em conseguir executar o crime – no melhor estilo “Fargo”.  

No melhor estilo de Alejandro González Iñarritu em “Amores Brutos”, Augusto Mendoza ainda incha “Chicuarotes” com uma série de subtramas que roubam o foco da história central. Toda a situação de violência familiar da mãe e o filho que esconde a homossexualidade são assuntos relevantes, mas, que se tornam superficiais e mal desenvolvidos pela falta de tempo em tela. Estes problemas não comprometem mais devido à segurança de Gael na direção e ao elenco, formado por não-atores da região, capaz de oferecer verdade ao que vemos em tela, especialmente, Gabriel Carbajal com seu inseguro e melancólico Gabriel Carbajal, ilustrado à perfeição com sua triste maquiagem de palhaço. 

Apesar de chegar uma década atrasado e o filão parecer cada vez mais cansativo e sem criatividade, Gael García Bernal sabe que o assunto ainda povoa o imaginário do mundo inteiro quando se pensa em América Latina a ponto de conseguir espaço nos principais festivais de cinema – “Chicuarotes”, aliás, foi lançado em Cannes no ano passado. Dentro da estratégia de fortalecer a produtora e os novos passos da carreira, a produção cumpre seu objetivo mesmo que sem muito brilho.  

‘Os Segredos de Madame Claude’: desperdício de um ícone em filme tão fraco

Tenho um pé atrás com produções que buscam abordar personagens reais com o intuito de vender diversidade e inclusão. Essa sensação é mais aguda diante de projetos que discutem personalidades femininas como “Maria Madalena” (Garth Davis, 2018) e “Joana D’Arc” (Luc...

‘Amor e Monstros’: pouco mais de ousadia faria um grande filme

Os melhores momentos de Amor e Monstros, parceria dos estúdios Paramount Pictures com a Netflix, estão logo no início do filme. É quando o narrador da história, o jovem Joel, reconta o apocalipse que devastou a Terra e que transformou insetos e animais em criaturas...

‘We’: o cinema como construtor de uma memória coletiva

"We", o novo filme de Alice Diop, é várias coisas: uma lembrança familiar, uma celebração das vidas comuns e uma busca pela identidade da França nos dias de hoje. Acima de tudo, o documentário, que ganhou o prêmio de Melhor Filme da mostra Encontros do Festival de...

‘Chaos Walking’: ótimo conceito nem sempre gera bom filme

Toda vez que se inicia a produção de um filme, cineastas participam de um jogo de roleta: por mais bem planejada que seja a obra e não importando o quão bons sejam os colaboradores que eles vão reunir para participar dela, tudo ainda pode acabar mal. Cinema é...

‘Locked Down’: dramédia na pandemia sucumbe à triste realidade

Dentre tantas situações inesperadas da pandemia da Covid, com certeza, a quarentena forçada foi uma grande bomba-relógio para conflitos conjugais e familiares. Agora, se conviver ininterruptamente com quem se ama já é desafiador, imagine passar semanas, meses dentro...

‘Godzilla Vs Kong’: sem vergonha de ser uma divertida bobagem

Não há como contornar: Godzilla vs Kong é um filme bobo. Todos os filmes “versus” feitos até hoje na história do cinema, com um personagem famoso enfrentando outro, foram bobos, e essa nova investida do estúdio Warner Bros. no seu “Monsterverse” – a culminação dele,...

‘Collective’: aula sobre o fundamental papel do jornalismo investigativo

“Collective” é, provavelmente, o filme mais marcante desta temporada de premiações. O documentário dirigido por Alexander Nanau traz à tona denúncias concernentes à corrupção no Ministério da Saúde romeno, algo super atual no período pandêmico e que dialoga com...

‘Moon, 66 Questions’: drama familiar foge do convencional em narrativa ousada

Livremente inspirado em tarô e mitologia, "Moon, 66 Questions" explora as falhas de comunicação e os conflitos geracionais de uma família através dos olhos de uma adolescente. O drama grego, exibido na mostra Encontros do Festival de Berlim deste ano, é carregado de...

‘Fuja’: suspense protocolar impossível de desgrudar da tela

Suspenses domésticos, quando bem feitos, acabam rendendo boas experiências. É o caso deste Fuja, lançado na Netflix – iria originalmente para os cinemas, mas a pandemia alterou esses planos. Não há nada nele que já não tenhamos visto antes, em outras obras tanto...

‘Meu Pai’: empática experiência sensorial da demência

"Meu Pai" começa ao som de uma ópera que acompanha os passos de uma mulher que anda por uma rua aparentemente pacata. Não demora muito e percebemos que essa música é escutada por outro personagem em fones de ouvido. Essas duas cenas simples revelam logo a essência do...