A 24 horas de La Mans é uma das corridas mais tradicionais do mundo automobilístico. Uma prova de velocidade, técnica e resistência que acontece todos os anos na França e onde, nos anos 1960, a Ford Motors Company fez história. É com este pano de fundo e na disputa entre as gigantes Ford e Ferrari que a cinebiografia dirigida por James Mangold (“Logan” e “Johnny & June”) vai narrar a história de duas figuras lendárias das corridas, Ken Miles e Carroll Shelby em uma jornada de montar um carro veloz, capaz de vencer a atual campeã italiana e finalizar a prova no lugar mais alto do pódio.

“Ford Vs Ferrari” é um espetáculo na arte de captar a essência das competições, capaz de envolver seu público pelas cenas de pura adrenalina e tensão desde a montagem do veículo, até o dia da corrida. Christian Bale, mais uma vez irreconhecível em seu personagem, é coroado como um gigante na arte de interpretar, ao perder todos os quilos de “Vice”, provar e criar um personagem apaixonado, seja pelos carros, pela família e pelas competições. Caros leitores, Bale merece uma indicação ao Oscar 2020 pela performance e por tornar a obra mais do que um simples filme baseado em fatos reais, mas uma obra intensa, o puro cinemão de ação em sua essência.

Ken Miles (Christian Bale) é um piloto britânico experiente, vitorioso, mecânico apaixonado, mas um tanto temperamental. Ele é chamado pelo amigo, o empreendedor (lenda viva do automobilismo) Carroll Shelby (Matt Damon) para um desafio considerado impossível: montar um carro da Ford, mais veloz que da concorrente Ferrari e vencer a 24 horas de Le Mans. Na época, a montadora italiana era a referência em vencer a competição, mas estava quebrada financeiramente. A Ford, por sua vez, precisava superar sua concorrente não só nas vendas, como também pôr um carro para competir e vencer a atual campeã.  Para isso, Lee Lacocca (Jon Bernthal) responsável pelo marketing da Ford, procura o campeão da competição, Shelby. Contrariando a ganância de Henry Ford 2, Ken e Carroll vão criar o Ford GT40 e expor em tela a hipnotizante paixão pela velocidade e a forma envolvente de vencer os desafios.

DE TIRAR O FÔLEGO

“Ford vs Ferrari” tem diversos fatores que o tornam um belo filme. Primeiro, Mangold sabe usar a boa história que tem em mãos, começando pelo roteiro enxuto, coeso, preocupado em pôr em tela os sentimentos de seus protagonistas, com excelentes arcos dramáticos. Suas mais de duas horas de filme são essenciais para dar ao time principal um desenvolvimento focado em criar um vínculo afetuoso com o espectador

Noah Jupe e Caitriona Balfe como Pete e Mollie Miles, respectivamente, são o ponto de afeto e segurança ao personagem de Bale. Como o próprio cineasta disse em entrevista, sua história não é exclusiva para os amantes do automobilismo, mas sim para envolver o grande público, deixando de lado a linguagem técnica, utilizando, sempre que possível, o didatismo e dinamismo das interpretações para nos fazer entender os conflitos internos existentes dentro da trama, principalmente quando expõe a ganancia dos administradores da Ford. É um exemplo de como a dupla não venceu apenas as adversidades externas da grande competição, como também contra a ganância dos membros da Ford.

Mangold é meticuloso em suas escolhas técnicas, com ótimos planos, sequências eletrizantes, muita profundidade de campo durante as competições e planos fechados ao filmar Ken Miles com suas feições de pura entrega e emoção. A fotografia é belíssima, mas nada supera a montagem cirúrgica. Nas cenas de competição, se torna quase impossível notar a troca de planos, nos prendendo apenas à emoção e sensações. É provável que esteja entre os indicados ao Oscar do ano que vem, como prevê o Cine Set.

Christian Bale e Matt Damon são puro carisma e química, a personificação de uma longa amizade que compartilha a paixão, o sonho e a dedicação ao automobilismo. Damon está bem na pele de Carroll Shelby, simpático, brincalhão e estrategista, consegue gerir uma equipe e controlar o gênio difícil de seu parceiro de jornada, Ken. São deles as cenas mais engraçadas do filme e também as mais emocionantes.

O experiente Damon consegue dar vida a lenda que foi Shelby, mas quem brilha mesmo é Christian Bale. Magro, com um rosto quase cadavérico, bronzeado e com o seu sotaque familiar, ele dá vida ao piloto com leveza, precisão e facilidade e nos dá de presente uma interpretação poderosa. Suas expressões sérias, olhar marejado e rosto ranzinza, faz em tela o que ninguém faz como ele, desaparece como astro e aparece como um piloto/mecânico capaz de quebrar recordes e emocionar o seu público.

Único defeito do filme é ter um final anticlimático, quebrando rápido demais e finalizando de uma forma agridoce, sem o peso do filme que ele vinha sendo. Ao final, “Ford vs Ferrari” é sobre a jornada de dois homens que conseguiram realizar sonhos, vencer desafios e fazer história.  

‘Dog – A Aventura de uma Vida’: agradável road movie para fazer chorar

Filmes de cachorro costumam trazer consigo a promessa de choradeira e com “Dog – A Aventura de uma Vida” não foi diferente. Ao final da sessão, os críticos na cabine de imprensa em que eu estava permaneceram todos em silêncio; enquanto os créditos subiam e as luzes da...

‘Red Rocket’: a miséria humana dentro do falso american dream

Recomeçar. Um reinício, uma nova oportunidade, uma nova perspectiva, um recomeço. Estamos sempre nesse ciclo vicioso de dar um novo pontapé inicial. Todavia, há um certo cansaço nesta maratona de reiniciar a vida quando (nunca) ocorre de uma maneira planejada e o...

‘Top Gun: Maverick’: o maior espetáculo cinematográfico em um bom tempo

Precisamos de poucos segundos para constatar: a aura dourada de San Diego, banhada por um perpétuo poente, está de volta. “Top Gun: Maverick” se esforça para manter a mesma identidade estabelecida por Tony Scott no original de 1986 – tanto que a sequência de créditos...

‘Tantas Almas’: olhar sensível sobre questões amazônicas

Captar as sensibilidades que rondam a Amazônia e a vivência de seus moradores é um desafio que nem todos os cineastas estão dispostos a experimentar. A região, nesse sentido todo território sul-americano recoberto pelas suas florestas e rios, desperta curiosidade e o...

‘O Homem do Norte’: Eggers investe na ação aliada aos maneirismos

Considerando o que tem em comum entre os planos definidores de suas obras, podemos encontrar a frontalidade como um dos artifícios principais que Robert Eggers usa para extrair a performance de seus atores com êxito.  Ao mesmo passo que esses momentos tornam-se frames...

‘O Peso do Talento’: comédia não faz jus ao talento de Nicolas Cage

Escute esta premissa: Nicolas Cage, ator atribulado de meia-idade, teme que sua estrela esteja se apagando; o telefone já não toca mais, as propostas se tornaram escassas e o outrora astro procura uma última chance de voltar aos holofotes com tudo. Vida real, você...

‘O Soldado que não Existiu’: fake news para vencer a guerra

Em 1995, Colin Firth interpretou o senhor Darcy na série da BBC que adaptou “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. Dez anos depois, Matthew Macfadyen eternizou o personagem no filme de Joe Wright, tornando-se o crush de muitas jovens e adolescentes. John Madden...

‘@ArthurRambo: Ódio nas Redes’: drama sintetiza a cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento permeia a internet às claras. Para o público com acesso  frequente, é impossível nunca ter ouvido falar sobre o termo. Vivemos o auge da exposição virtual e como opera a massificação para que os tais alvos percam - merecidamente - ou não -...

‘Águas Selvagens’: suspense sofrível em quase todos aspectos

Certos filmes envolvem o espectador com tramas bem desenvolvidas, deixando-nos mais e mais ansiosos a cada virada da história; outros, apresentam personagens tão cativantes e genuínos que é impossível que não nos afeiçoemos por eles. Mas existe também uma categoria...

‘Ambulância – Um Dia de Crime’: suco do cinema de ação dos anos 2000

Vou começar com uma analogia, se me permitem. Hoje em dia, o ritmo e consumo de coisas estão rápidas e frenéticas. Com o Tik Tok e plataformas similares, esse consumo está ainda mais dinâmico (e isso não é um elogio) e a demanda atende às exigências do mercado. A...