Em 2019, a Netflix lançou duas animações com propostas distintas: “Klaus” e “Perdi meu Corpo”. Se a primeira era voltada para o público infantil, a segunda tinha os adultos como seu alvo. Neste ano, “Os Irmãos Willoughby” fica no meio do caminho: apesar de ter um design infanto-juvenil, traz temas reflexivos e mais próximos ao público mais velho.

Dirigido por Kris Pearn (“Tá Chovendo Hambúrguer 2”) e inspirado no livro homônimo de Louis Lowry, “Os Irmãos Willoughby” acompanha os tais quatro irmãos. Negligenciados pelos pais, eles orquestram um plano para fugir e formar a família que desejam. A história é narrada por um gato sarcástico que atua como uma espécie de deus: além de contar o que se passa, o felino mexe na narrativa e a altera quando acha que os acontecimentos necessitam de uma virada.

Os protagonistas de “Os Irmãos Willoughby” lembram muito as crianças Baudelaire em “Desventuras em Série”. Não apenas pelas adversidades enfrentadas, mas, também pela forma como a história é contada. Dividida em episódios fatídicos, a construção possibilita observar, por exemplo, a inserção de elementos visuais que remetem a outras produções.

A negligência e o despertar intelectual das crianças se assemelham ao tratamento dado a pequena “Matilda”. Por outro lado, a vestimenta e a conduta do serviço social é uma versão menos elaborada e mais caricata dos agentes da “Matrix”. E, por fim, o comandante Melanoff e sua fábrica são uma versão pouco sofisticada e econômica da “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

Casos de Família

Por mais infantil que o design de produção, as referências visuais e a narrativa da obra possam soar, as temáticas presentes na animação, no entanto, dialogam melhor com o público adulto do que com o infantil. A animação foge de soluções escapistas e piegas, preferindo adotar uma postura suavemente cínica em relação ao lar Willoughby, principalmente, pela maturidade dos garotos.

Por mais que tenham a capacidade de se virar, nota-se os vestígios do abandono dos pais na forma como os garotos enxergam o mundo, vêem a si mesmas e reagem diante da separação familiar. Pearn procura emular discussões em relação às necessidades infantis e o apoio dado pelos adultos na infância. Quando me refiro a apoio, incluo aqui as relações que nos circundam nessa primeira fase da vida.

Querendo ou não, a maneira como os pais tratam-se afeta a forma como as crianças lidam com o mundo e reverberam em seus relacionamentos. Para muitos, quando adultos, a opção é fugir ou ter algo semelhante como meta de relacionamento. Tim (o irmão mais velho), no entanto, não precisou chegar à fase adulta para optar; para ele, era muito mais cômodo apegar-se a tradição do clã e negar qualquer tipo de amor que fosse lhe oferecido.

A questão é que, apesar de tocar em pontos tão relevantes para a formação dos adultos contemporâneos, a discussão fica muito na superfície e se perde entre tantas tentativas de plot twist.

Isso torna a condução da narrativa confusa e com muitas brechas, dando espaço para discussões frágeis e equivocadas. A falta de aprofundamento dos personagens também contribui para a distorção dos conceitos apresentados. Dessa forma, “Os Irmãos Willoughby” é um bom entretenimento, mas devido a superficialidade com que trata suas temáticas não consegue ser tão interessante quanto outras animações do streaming.

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