Diferente da Branca de Neve que aceitou cegamente a maçã da Rainha Má, Raya é uma protagonista marcada pela frase “Não confiem em ninguém”. Essa postura subversiva aos clássicos de seu catálogo é exatamente o objetivo da Disney, dando continuidade ao caminho traçado por ‘Frozen’ (2013) e ‘Moana’ (2016). Mais ainda: ‘Raya e o Último Dragão’ também se tornou a aposta perfeita para mostrar uma história que se passa longe dos Estados Unidos. Apesar dessas duas principais características serem benéficas tanto ao estúdio quanto ao público, o qual busca maior diversidade em filmes de animação, o verdadeiro destaque da trama é a temática sobre união e confiança entre diferentes culturas sendo abordada de maneira tão atual.

Para além do protagonismo feminino, ‘Raya’ tem como ponto de partida o reino chamado Kumandra. Este, apesar de ser um local fictício, possui elementos de diversas culturas do Sudeste Asiático, algo aproveitado pelo roteiro para fragmentar este território em diferentes regiões. Cada uma tem o nome de partes de um dragão e por gerações os habitantes das cinco regiões brigam entre si e contra a força obscura chamada Druun, a qual transforma a todos que toca em pedra.

A única esperança para todos os povos seria a volta dos dragões, seres mágicos que conseguiram salvar o reino. Assim, Raya (Kelly Marie Tran), habitante de Coração, cresce buscando Sisu (Awkwafina), o dragão responsável por restaurar a paz em Kumandra. Sua busca, entretanto, conta com desafios e inimizades em todas as cinco regiões, mas, principalmente, em Garra, onde sua antiga conhecida Namaari (Gemma Chan) a enganou anos atrás na busca da salvação de seu povo.

A mesma fórmula

Para poupar maiores spoilers e outros detalhes, pode-se dizer que ‘Raya e o Último Dragão’ é um filme que segue a fórmula Disney: um início triste, diversos conflitos, algumas risadas e um final feliz com pequenas surpresas pelo caminho. Mas, apesar de se encaixar na proposta tradicional do estúdio, a produção também conta com aspectos positivos dignos de nota.

Logo de início, se destaca o design de produção de cada uma das cinco regiões de Kumandra, a qual é muito bem executada, pois, apesar de serem locais visualmente únicos e diferentes, existe uma identidade comum entre todos. O visual na realidade, dificilmente, não é apresentado como um elemento positivo neste longa já que todos os pequenos detalhes são bem pensados tais como a iluminação de ambientes até detalhes da roupa de Raya. Talvez o único defeito maior na concepção visual do longa seja a demasiada infantilização dos dragões para o público infantil, deixando-os parecer uma versão atualizada dos ‘Ursinhos Carinhosos’

Outro elemento que deixa a desejar é a escolha dos personagens secundários. No geral, o roteiro desenvolve muito bem a história e consegue justificar os acontecimentos com facilidade, entretanto, ao precisar de habitantes das cinco regiões de Kumandra, são escolhidos personagens descartáveis em sua maioria. Todos possuem como motivação a perda da família para o Druun e existe uma importância em deixar isso claro em diversos momentos, porém, ainda é bem forçado colocar um trio de macacos com um bebê como charlatões profissionais e esperar que o público simplesmente ache fofo.

Raya e Namaari

Mesmo entre essa dualidade de aspectos bons e ruins do filme, existe uma constante que eleva bastante sua qualidade: a relação entre Raya e Namaari. Ambas se conhecem quando pequenas e se tornam amigas, entretanto, Namaari engana a protagonista, ação que é a razão para o Druun ser solto em Kumandra. Desde o acontecimento, Raya é marcada por aquele sentimento citado no início do texto de não confiar em ninguém. E, da mesma forma, Namaari sempre está pronta para uma retaliação por suas atitudes, mostrando como desde o princípio ambas formaram suas personalidades a partir deste encontro.

Essa dinâmica rende, ao longo de ‘Raya e o Último Dragão’, diversas cenas de ação belíssimas, com uma atmosfera própria para cada momento pelo qual elas passam. Na realidade, a luta entre as duas é marcada pelo rancor e lembrança sobre atitudes extremamente egoístas. É nesse aspecto onde a produção alcança uma certa densidade a mais ao mostrar a complexidade no protecionismo entre nações – algo experimentado pelo próprio Estados Unidos durante o governo Trump.

Considerando que esse é mais um filme sem um par romântico para a protagonista, a existência de conflito e empatia com outra personagem é bem-feita, pois, as duas possuem existências complexas e são moldadas por valores de suas culturas. É nessa constante que ‘Raya e o Último Dragão’ consegue reafirmar a importância da união mesmo com diferenças culturais e ideológicas, um conceito muito importante de ser repassado (apesar de não ser facilmente seguido). E essa mensagem endossada pela colorida Sisu diante de seu sacrifício ganha ainda mais material para seu público refletir sobre.

Por fim, o grande achado de ‘Raya e o Último Dragão’ se torna a não existência de um personagem em específico como vilão. Sim, existe a ameaça do Druun, uma força sobrenatural e a presença de Namaari, a rival, mas, nada visualmente que represente o vilão. Aqui, na verdade, o grande inimigo é ideológico, é o pensamento extremista de não confiança e descaso de uma região com a outra, como muitas vezes também acontece na vida real.

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