É normal que, em algum momento da vida, artistas se ponham a refletir sobre a mortalidade. Com “Vortex”, o cineasta ítalo-argentino radicado na França Gaspar Noé (“Clímax”) entra para esse clube. O filme, exibido no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano depois de sua estreia em Cannes, toca em vários dos temas da obra de Noé, mas vem com uma sutileza jamais vista em sua filmografia.

A produção acompanha um casal em seus anos outonais, interpretado por Dario Argento (sim, o grande diretor de horror italiano) e Françoise LeBrun, enquanto desfalecem. Ele tenta escrever um livro sobre cinema e tem um caso extraconjugal que não vai a lugar nenhum. Ela é uma psiquiatra aposentada que continua prescrevendo medicamentos para si mesma apesar de ter demência. Juntos, apesar de todo o amor, os dois são uma receita para o desastre.

UM ‘fait accompli’

A morte sempre esteve nos arredores das tramas de Noé, mas em “Vortex”, ela ocupa o primeiro plano. Seus protagonistas morrem aos poucos, como “todos aqueles cujos cérebros apodrecerão antes de seus corações” – a quem o filme é dedicado. Em seu apartamento parisiense, que parece seu caixão, eles se esbarram, mas, pouco se veem de verdade. Os dois estão presos em suas viagens individuais rumo ao vazio.

À exceção de poucas cenas, a maior parte do filme é contada em tela dividida, com uma câmera na mão acompanhando o personagem de Argento e outra a de LeBrun. Essa divisão reforça a solidão do envelhecimento e isolamento que a deterioração da mente causa mesmo entre as pessoas mais próximas. Mesmo com esse recurso, que permanece sempre em destaque, “Vortex” é o longa de Noé que menos depende de uma fotografia ousada para causar impacto – e o mais focado em atuações desde “Irreversível”.

Como sua história acompanha uma desintegração lenta, o ritmo da produção é inegavelmente moroso. Com robustos 142 minutos, o filme se estende demais em certos trechos e poderia ter perdido uns bons 20 minutos sem nenhum prejuízo a seu impacto – principalmente, em seu terço final, no qual muitos dos acontecimentos tem um aspecto de fait accompli.

REDENÇÃO NÃO, AFETO SIM

“Amor”, de Michael Haneke, é um longa que toca em temas similares e poderia fazer uma boa sessão dupla com este por ser um claro predecessor. Ambos os diretores partilham um niilismo e uma descrença na capacidade de sentimentos elevarem a condição humana, mas as comparações acabam aí. Estilisticamente, onde o filme de Haneke é frio e comedido, o de Noé é expansivo e sem compostura.

Mesmo com suas longas tomadas e peculiar trabalho de câmera, Noé cria um conto sensível (ainda que duro) e devastador. Quando na metade do filme, a mulher pede conforto ao seu homem e suas mãos se tocam, atravessando a barreira da tela dividida, a plateia é convidada a refletir sobre esse toque. Ao fim de “Vortex”, não há redenção. Há apenas o lembrete de que, na hora da última travessia, o que ficará serão os momentos de afeto – nada mais.

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