Em 1989, Batman de Tim Burton virou um sucesso arrebatador nas bilheterias e despertou uma onda de batmania pelo planeta. Três anos depois, em 1992, Burton lançou Batman: O Retorno e… boa parte do público o considerou um filme simplesmente estranho. Ele ainda foi bem nas bilheterias, claro, mas a história maluca, o tom sexual e as esquisitices despertaram uma reação que o estúdio Warner Bros. não esperava. Muita gente reclamou que não era um filme para crianças. E Batman precisava voltar a ser para crianças.

Assim, três anos depois, em 1995, tivemos Batman Eternamente.

A SAÍDA DE BURTON E A CHEGADA DE SCHUMACHER

É o eterno dilema do cinema industrial: como pode um cineasta realizar uma obra que se adeque aos ditames comerciais de um grande estúdio e que, ao mesmo tempo, satisfaça a sua visão artística? Como imprimir um estilo pessoal a esses filmes gigantes que custam milhões e milhões de dólares? E a indústria, deseja isso? O cinema de autor é compatível com os blockbusters? Ainda hoje esse dilema nunca foi de fato resolvido, exceto por alguns poucos cineastas que se aventuraram por Hollywood em toda a sua história. E a Warner estava diante desse dilema em meados dos anos 1990.

O estúdio, claro, o encarou cedendo ao dinheiro. Apesar de Burton até ter apresentado umas ideias para um terceiro Batman, o diretor percebeu que a Warner não queria que ele fizesse mais um. Assim, manteve o bom relacionamento com o estúdio, foi fazer Ed Wood (1994) e deixou o bat-universo – Burton ainda recebe um crédito de cortesia como produtor em Batman Eternamente, embora não tenha trabalhado no filme.

Contratado para fazer um reboot suave, Joel Schumacher foi e é alvo da fúria dos fãs do Homem-Morcego – de forma injusta, diga-se.

Seu substituto foi Joel Schumacher (1939-2020) e aí fica clara a intenção do estúdio: ao contrário de Burton quando foi contratado, o novo contratado já era um realizador experiente, que começou a carreira como figurinista e conseguiu dar o improvável salto para diretor. A maioria dos seus filmes até Batman Eternamente eram dramas e suspenses. Ele não conhecia quadrinhos, mas já tinha flertado com o cinema fantástico em filmes como Os Garotos Perdidos (1987) e Linha Mortal (1990). E tinha um bom histórico com o estúdio.

Schumacher foi muito xingado ao longo dos anos por nerds e fãs de HQs, mas sua escolha fazia sentido para o filme que a Warner queria: um reboot suave, uma nova visão do herói que não ignorasse o que Burton fez, mas que fosse, digamos, mais palatável para o grande público. E que também pudesse vender brinquedos e não constranger patrocinadores como o McDonald’s, como ocorreu com o filme anterior.

UM SET EM PÉ DE GUERRA

Schumacher, o operário, fez o filme que podia. E depois de aceitar o trabalho, até leu algumas HQs, se encantou por O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e nunca escondeu que queria fazer uma adaptação dela ou que gostaria que seu Batman fosse sombrio. Portanto, leitor e fã do Batman, Schumacher não merece o seu ódio. Culpe a Warner.

Tecnicamente, Batman Eternamente é uma sequência dos anteriores. Porém, logo nos primeiros minutos do filme, já sentimos algo diferente com um close no traseiro do Homem-Morcego enquanto ele ajeita seu uniforme. Aliás, agora é possível ver mamilos no peitoral do traje e há neon nas rodas do Batmóvel. E Alfred (Michael Gough, que sobreviveu à troca de diretor) pergunta ao Batman se ele quer levar um sanduíche. O herói responde que vai passar no drive-thru. Hmm, ok.

E há um novo ator recheando a armadura do Homem-Morcego: Val Kilmer. Afinal, quando Tim Burton se afastou do projeto, Michael Keaton também o fez. Kilmer faz um Batman/Bruce Wayne bem insosso e, no recente documentário Val, ele se referiu ao trabalho como um sonho de infância transformado em pesadelo pelas condições da filmagem e pela roupa, que o limitava bastante. Para completar, Kilmer também não se deu nada bem com Schumacher.

Tommy Lee Jones não gostava nada de seu parceiro de cena, Jim Carrey. E não esconde isso até hoje.

Enfim, neste terceiro filme, o herói começa enfrentando o Harvey Duas-Caras (Tommy Lee Jones na pior atuação da sua carreira, tentando imitar o histrionismo do Coringa de Jack Nicholson, embora isso não tenha nada a ver com seu personagem). Não tarda e surge outro vilão, o Charada – interpretado por Jim Carrey no auge da sua popularidade – e os dois se aliam. Carrey também mencionou em anos recentes que Jones abertamente o odiava. Puxa, o set de Batman Eternamente devia ser um lugar estressante MESMO…

Enquanto Bruce Wayne enfrenta uma crise pessoal – nunca aprofundada pelo roteiro – e os avanços da psicóloga Chase Meridian (Nicole Kidman, linda, mas também entregando uma atuação bem fraquinha), ele presencia o assassinato da família do acrobata Dick Grayson (Chris O’Donnell) e resolve ajudá-lo. Grayson acabará se tornando o Robin, parceiro do herói.

FILME À SERVIÇO DE SUAS ESTRELAS

Poucas coisas são mais “Hollywood dos anos 1990” que os Batman de Schumacher. Nessa época, os astros ainda eram tratados como mais importantes do que o conceito do filme: Carrey basicamente foi pago para ser ele mesmo e fazer as caras e bocas a que o público já tinha se acostumado. Seu vilão domina Gotham City usando um aparelho parecido com um liquidificador. Com tudo isso, não é difícil para o comediante roubar a cena, embora fiquemos com a sensação de que ele inventou na hora quase todas as suas falas.

Já Kilmer e Jones estavam no auge, enquanto Kidman e O’Donnell eram grandes promessas – este ultimo é o típico adolescente de 30 anos que Hollywood adora colocar em filmes, mas, pelo menos, O’Donnell parece acordado e disposto em cena, diferente de Kilmer. O Robin, no entanto, é um horror de personagem, definido por clichês: rebelde porque usa brinco e rouba o Batmóvel, quase saído de um vídeo da MTV.

Schumacher, a propósito, dirigiu videoclipes, o que ajuda a explicar a estética do filme. Em Batman Eternamente, é como se a Gotham dos filmes anteriores tivesse passado por uma recauchutagem estilo Broadway: tudo é berrante, com cores e estátuas gigantes – em certo momento, um helicóptero colide contra a Estátua da Liberdade, que não fica em Gotham, pelo que eu saiba.

Parece que não, mas, Nicole Kidman está em “Batman Eternamente”.

É um mundo que se apropria das cores das HQs e das suas bobagens e inverossimilhanças, mas não as mostra de maneira criativa nem majestosa como Burton tinha feito. Nos primeiros minutos, a Gotham e os cenários de Batman Eternamente até seduzem e impressionam visualmente, mas depois de um tempo tudo começa a despertar uma leve dor de cabeça.

No fim das contas, ainda há um ou outro momento divertido no filme: uma boa cena de ação aqui, um momento de humor involuntário ali, uma bizarrice acolá. E o duelo de overacting explícito entre Jim Carrey e Tommy Lee Jones acaba sendo estranhamente cativante – quem sabe Jones não exagerou na sua atuação para não desaparecer ao lado de Carrey, seu “inimigo” de cena? Mas tudo resulta num mero produto, não exatamente um filme com uma história coerente. É um produto feito para satisfazer as necessidades e acionistas de um grande estúdio hollywoodiano.

BLOCKBUSTER TÍPICO HOLLYWOODIANO

E deu certo: Batman Eternamente foi um dos maiores sucessos de bilheteria de 1995, a trilha sonora vendeu bem – o disco tem de PJ Harvey a U2 e a melosa Kiss from a Rose, do Seal, sabiam disso, garotada? – e muitos pais compraram brinquedos do filme para suas crianças. Não é à toa Batman muda de uniforme ao longo do filme. A Warner ficou feliz.

E por um tempo, alguns fãs do personagem também: hoje em dia, todo mundo, claro, prefere a visão de Burton, mas não foi assim na época. Batman Eternamente arrecadou mais grana que seu predecessor, e nessa era do cinema super-heróico, pré-X-Men: O Filme, pré-Marvel, isso parecia ser o bastante. Na época, a maioria das pessoas curtiu.

Batman de Val Kilmer está mais interessado nos negócios do que em ser um bom filme.

Mas, ao mesmo tempo em que é um artefato de sua época, Batman Eternamente parece hoje com o típico blockbuster que Hollywood tem nos empurrado há décadas: uma coleção de clichês inseridos em uma trama bem simplória, com muitos efeitos visuais e tudo conduzido por uma visão bem mais comercial do que artística. E por causa disso, por sua atualidade, o filme ainda faz escola: assista a Mulher-Maravilha 1984 (2020) e me diga se a vilã daquele filme não é a irmã gêmea do Charada do Jim Carrey.

Em Hollywood, tudo é cíclico e o espírito dos Batman de Joel Schumacher ainda está conosco. Mas não culpe o diretor: ele só fez o trabalho dele, o que lhe mandaram. Bote a culpa na dona Warner. Aliás, esse ditado sempre se aplica toda vez que topamos com um Mulher-Gato (2004), Lanterna Verde (2011) e todas as trapalhadas do universo DC no cinema.

Nunca sai de moda dizer: bote a culpa na dona Warner.

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