Um passeio heterodoxo pelos bastidores do processo criativo, “Shirley” usa o cenário de um filme de época como pano de fundo de um drama cáustico. O longa de Josephine Decker, que estreou no Festival de Sundance e foi exibido no Festival de Londres deste ano, mostra uma poderosa Elizabeth Moss na pele da escritora estadunidense Shirley Jackson.

O longa reimagina a criação de um dos romances de Shirley do ponto de vista de Rose (Odessa Young), uma jovem que visita a casa que a autora divide com o marido Stanley (Michael Stuhlbarg) no início dos anos 50. Mesmo planejando só uma breve passagem, Rose acaba se mudando para lá com seu esposo Fred (Logan Lerman) e cuidando das tarefas domésticas a pedido de Stanley. Uma vez sob o mesmo teto, o casal mais novo se torna a presa perfeita para as maquinações do casal mais velho.

Logo de início, Shirley se mostra uma pessoa abusiva e determinada a causar o máximo de dano com o mínimo de esforço. Stanley, por sua vez, é um bully descarado, alternando entre a bajulação e violência como lhe apetece. Com uma máscara de normalidade que sua esposa não possui, ele é um tipo particular de monstro.

Qualquer pessoa minimamente racional bateria em retirada depois de poucos dias com esses dois e é isso que Rose sugere. Fred, no entanto, vê na estadia deles como uma oportunidade de avançar na cadeira acadêmica e insiste que fiquem – uma decisão que põe seu próprio casamento em jogo.

SENSORIAL EM FORMATO TRADICIONAL FUNCIONA

Shirley” toma diversas liberdades artísticas na hora de retratar sua personagem-título, omitindo seu lado organizado e até mesmo a existência de seu filho Laurence, que já era vivo na época retratada aqui. Sua contraparte ficcional é boêmia, propensa a depressões e psicologicamente sufocada. De certa forma, ela se sente presa por seu casamento, pela sociedade, pelas expectativas de gênero e por suas próprias histórias.

O roteiro de Sarah Gubbins, adaptado do romance de Susan Scarf Merrell, é impiedoso nos diálogos ácidos, dando amplo material para Elizabeth Moss criar uma personagem irresistivelmente insuportável. Além disso, através de Shirley e Rose, ele analisa as histórias de crime e as canções de assassinato do ponto de vista da opressão feminina, no qual a morte serve como alternativa à uma vida de invisibilidade e exclusão.

A diretora de fotografia Sturla Brandth Grøvlen pinta esse canvas angustiante com cores mortas e muita câmera na mão e a música largamente baseada em coral e cordas da compositora Tamar-kali dá às cenas a perene sensação de algo terrível está para acontecer. Decker, que vem de uma carreira de filmes mais experimentais, prova que seu cinema extremamente sensorial também cabe em formatos mais tradicionais. Quem ganha é o espectador.

‘Spencer’: Kristen Stewart luta em vão contra filme maçante

Em "Spencer", Kristen Stewart se junta ao clube de atrizes - que inclui Naomi Watts (“Diana”) e Emma Corrin (“The Crown”) - que se lançaram ao desafio de retratar a Princesa Diana. A atriz traz uma energia caótica à personagem e a coloca no caminho de uma quase certa...

‘O Garoto Mais Bonito do Mundo’ e o dilema da beleza

Morte em Veneza, o filme do diretor italiano Luchino Visconti lançado em 1971 e baseado no livro de Thoman Mann, é sobre um homem tão apaixonado, tão obcecado pela beleza que presencia diariamente, que acaba destruindo a si próprio por causa disso. E essa beleza, no...

‘Venom: Tempo de Carnificina’: grande mérito é ser curto

Se alguém me dissesse que existe um filme com Tom Hardy, Michelle Williams, Naomie Harris e Woody Harrelson, eu logo diria que tinha tudo para ser um filmaço, porém, estamos falando de “Venom: Tempo de Carnificina” e isso, infelizmente, é autoexplicativo. A...

‘A Casa Sombria’: ótimo suspense de desfecho duvidoso

Um dos grandes destaques do Festival de Sundance do ano passado, "A Casa Sombria", chegou aos cinemas brasileiros após mais de um ano de seu lançamento. Sob a direção de David Bruckner (responsável por dirigir o futuro reboot de "Hellraiser"), o longa é um bom exemplo...

‘Free Guy’: aventura mostra bom caminho para adaptação de games

Adaptar o mundo dos jogos para as telonas é quase uma receita fadada ao fracasso. Inúmeros são os exemplos: "Super Mario Bros", "Street Fighter", "Tomb Raider: A Origem" e até o mais recente "Mortal Kombat" não escapou de ser uma péssima adaptação. Porém, quando a...

‘A Taça Quebrada’: a angustiante jornada de um fracassado

Não está fácil a vida de Rodrigo: músico sem grande sucesso, ele não aceita a separação da esposa ocorrida há dois anos (sim, 2 anos!) muito menos o novo relacionamento dela, além de sofrer com a distância do filho e de ver o trio morar na casa que precisou deixar. E...

‘Halloween Kills: O Terror Continua’: fanservice não segura filme sem avanços

Assim como ocorreu com Halloween (2018), a sensação que se tem ao final da sua sequência, Halloween Kills: O Terror Continua, é de... decepção. O filme dirigido por David Gordon Green que reviveu a icônica franquia de terror no aniversário de 40 anos do clássico...

‘Flee’: a resiliência de um refugiado afegão em animação brilhante

A vida de um refugiado é o foco de "Flee", filme exibido no Festival de Londres deste ano depois de premiadas passagens nos festivais de Sundance (onde estreou) e Annecy. A produção norueguesa é uma tocante história de sobrevivência que transforma um passado...

‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’, o filme que mudou Hollywood

Em 2008, dois filmes mudaram os rumos de Hollywood. Foi o ano em que o cinema de super-heróis passou para o próximo nível e espectadores pelo mundo todo sentiram esse abalo sísmico. O Marvel Studios surgiu com Homem de Ferro, um espetáculo divertido, ancorado por...

‘After the Winter’: drama imperfeito sobre amizades e os novos rumos de um país

"After the Winter", longa de estreia do cineasta Ivan Bakrač, é uma ode à amizade e ao amadurecimento. A co-produção Montenegro-Sérvia-Croácia, que teve sua première mundial na seção Leste do Oeste do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano, retrata...