Foi há exatos 15 anos que a cortina vermelha de Baz Luhrmann abriu pela terceira vez, no que seria o último capítulo de uma trilogia iniciada com “Vem Dançar Comigo?” (1992) e “Romeu + Julieta” (1996). Assim como nos outros filmes, o tema “amor” foi o ponto de partida para uma trama cheia de meandros, mas em uma escala muito maior. E quando digo ‘muito maior’, é porque Luhrmann não economizou em absolutamente nada para fazer o espectador embarcar em uma viagem rumo à Paris da virada para o século XX.

O exagero assumido da produção rendeu milhões nas bilheterias e dois Globos de Ouro e dois Oscars na estante.  Ainda assim, os mais puristas não gostaram da salada que o trio Baz-Nicole Kidman-Ewan McGregor fez. A escolha de músicas atuais e a montagem frenética desagradaram uma parcela dos cinéfilos na mesma medida em que garantiu o filme no coração de outros.

Divergências à parte, certo é que o filme conseguiu espaço na história do cinema recente por ter ressuscitado um filão que, a não ser por algumas produções isoladas, estava esquecido pela indústria cinematográfica: o musical. Pensando nisso, o Cine SET enumerou 3 razões para você voltar a assistir “Moulin Rouge!”, 15 anos depois:

  1. A trilha sonora

A melancólica “Nature Boy”, de Nat King Cole, no apresenta ao protagonista da história. Daí para a frente, são 127 minutos de uma salada musical que tem U2, David Bowie, Queen, Madonna, Nirvana, Whitney Houston e tantos outros ícones pop desse mesmo século XX ao qual Christian e seus amigos dão as boas-vindas no filme. À medida que a trama caminha para cores mais dramáticas, as canções vão ficando mais e mais viscerais, culminando em uma performance poderosa de “Roxanne”, que de hit oitentista do The Police vira um tango que expressa toda a dor de Christian.

As escolhas de Luhrmann nesse sentido não são tão aleatórias quanto ele deixa parecer. Cada canção cabe perfeitamente na história – a já citada “Nature Boy” e  mais lembrada, “Your Song”, costuram toda a trajetória de Christian, um rapaz solitário que acreditava no amor e que não tinha bens materiais a oferecer para o objeto de seu afeto, a cortesã Satine.

Em contrapartida, nossa heroína é apresentada com o soco duplo de “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” e “Material Girl”, canções que sintetizam o que os homens esperavam de Satine – e as interações que ela tem com o dono do clube, Harold Zidler (Jim Broadbent) durante essa apresentação mostram que essa é a única imagem que ele quer vender.

2. Nicole Kidman: nasce uma estrela

Quando “Moulin Rouge!” estreou, Kidman era figura cativa nos tabloides graças ao término do casamento com Tom Cruise e muitos viram o filme (e a subsequente indicação ao Oscar) como um “tapa na cara da sociedade” que só enxergava a atriz como a sra. Cruise.

Ok, a intenção desses ‘comentaristas’ pode até ser boa, mas desmerece um pouco o trabalho da atriz. “Moulin Rouge!” foi um dos primeiros filmes onde Kidman realmente teve chance de mostrar o seu talento. Ela já havia feito maravilhas no ótimo “Um Sonho Sem Limites”, de Gus Van Sant, mas foi com Satine que a australiana viveu seu auge.

É fácil descartar a heroína romântica e vivê-la com displicência, ainda mais quando ela está em posição de poder em relação ao escritor pobretão, e é a interpretação de Kidman que tira Satine desse lugar-comum. Aliam-se a isso a química inegável que ela teve com McGreggor e a sua pequena, mas poderosa voz, e o resultado não poderia ser outro que não o sucesso obtido.

3. A megalomania de Luhrmann

No papel, a história de “Moulin Rouge!” não tinha nada de novo. Quem já leu “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, já conhecia a história do romance proibido envolvendo uma cortesã parisiense com tuberculose. O que tornou a obra cinematográfica especial foi justamente os elementos carnavalescos de Luhrmann.

Se em “Vem Dançar Comigo?” e “Romeu + Julieta” ele já havia ensaiado, em “Moulin Rouge!” ele vai à forra. O que o público tem é uma montagem ‘over’ e uma estética totalmente ‘kistch’, embaladas por canções de compositores cujos pais provavelmente nem eram nascidos na virada do século.

Luhrmann se revela generoso com seus atores. Talvez nenhum diretor tenha captado tão bem a beleza de Nicole Kidman quanto ele o fez neste filme. Ele alça a Satine de Kidman ao status de musa – note que ela demora a aparecer, mas que, mesmo quando não ainda não surge, seu nome já nos é conhecido.

Mas, não se engane. “Moulin Rouge!” é um filme de diretor. Aqui, Luhrmann brinca com a história do cinema e da França e se permite a sacrilégios totalmente perdoáveis nesse universo diegético, como a lua de George Meliès, que surge iluminando Paris e canta com Kidman e McGreggor, ou a citação da canção mais famosa de “A Noviça Rebelde”. A liberdade artística que Luhrmann toma pode parecer pretensiosa, a forma com que ele as emprega é – surpreendentemente – econômica (nem todos percebem a lua de Meliès, por exemplo).

Veredito:

Ame-o ou deixe-o, “Moulin Rouge!” tem seu valor e seu legado. Graças ao sucesso dele, os estúdios resolveram voltar a prestar atenção nos musicais, ainda que os exemplares que vieram depois não sejam lá tão brilhantes (‘Hairspray’, ‘Caminhos da Floresta’, ‘Mamma Mia!’…). Fato é que será difícil emular a originalidade desse filme de 2001, ainda mais em um gênero que, volta e meia, se engessa nas convenções e não consegue transpor a barreira Broadway-Hollywood (‘Nine’, ‘Rent’).

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