Intitulado o maior evento de humor da América Latina, o Risadaria aconteceu entre os dias 4 e 13 de abril em São Paulo. Seria a primeira vez em que poderia conferir este festival e entrei no site para conferir quais seriam os shows e atrações.

Cada clique dado era como uma piada de mau gosto: apresentações de Danilo Gentilli com Léo Lins e Murilo Couto; um stand-up comedy com Diogo Portugal, Fábio Rabin e Maurício Meirelles do CQC; Oscar Filho, Rafael Cortez e Paulo Bonfá (ok, este último passa); o mito Marco Luque e, claro, Rafinha Bastos. A curadoria contava com nomes que um dia já conseguiram ser realmente engraçados como Marcelo Tas e Marcelo Madureira (do Casseta & Planeta).

Desisti e fui gastar minha graninha com o Festival Varilux de Cinema Francês.

A sensação de não ter jogado dinheiro fora no Risadaria se confirmou com a chegada de “Copa de Elite”, o “Todo Mundo em Pânico” brasileiro e grande aposta do humor do cinema nacional em 2014. Os 90 minutos de projeção evidenciam a pobreza de discurso, utilização de clichês para arrancar o riso de qualquer maneira e descrença na inteligência do público.

Existe o non-sense e o trash. No primeiro caso, há uma busca pela completa falta de lógica, beirando o absurdo e a incoerência; já o trash procura ser uma proposta crítica e debochada sobre determinado universo em que a obra humorística está inserida, brincando com filmes do gênero para mostrar as tolices dessas produções. Por mais que se esforce, “Copa de Elite” está muito longe desses estilos.

Trata-se de algo ruim mesmo. Primeiro porque pretende ser uma espécie de homenagem divertida a esses grandes filmes (exceto “Tropa de Elite”, os outros filmes passam longe de serem unanimidades). Não existe o intuito de bagunçar para valer com as possíveis falhas dessas produções. O objetivo é pegar pequenos trechos de cada um e fazer tiradas pretensiosamente divertidas. O famoso humor do bem sem machucar ninguém.

Como se não bastasse todo esse pudor, o diretor e roteirista Vítor Brandt se mostra incapaz de conduzir a trama de forma, no mínimo, decente. Mesmo com a busca sendo a paródia de sucessos do cinema nacional a todo momento, não há como acompanhar um filme sem que este não ofereça o mínimo de história para que você consiga seguir os personagens. Os esforços de Marcos Veras e Júlia Rabello para trazerem certa personalidade, respectivamente, a Jorge Capitão e Bruna Alpinistinha (olha o trocadinho aí gente!!!!!), se dilui a cada nova piadinha, enquanto o restante do elenco está apenas disposto a fazer caricaturas como é o caso de Rafinha Bastos, esse pseudo-gênio do mundo pop ao dizer frases tão boas quanto as piadas dele.

Se a história nesse tipo de filme se torna quase um artigo de luxo, as piadas poderiam compensar. Só que os humoristas nacionais parecem não conseguir criar situações engraçadas sobre o cotidiano. Tiradas boas como “Minha Nossa Senhora dos Reacionários” ou da promoção da operadora telefônica durante uma operação policial se perdem no meio de brincadeiras com cocôs de criança, piadinhas com o sertanejo universitário, graças com celebridades (Bruno de Luca é o alvo) e gags mal aproveitadas (o sequestrador ginasta, por exemplo, é a pior de todas).

Claro que “Copa de Elite” precisa de clichês para ser um real exemplar do nosso humor. Isso significa piadas com anões traficantes, gaúcho gay, argentino vilão nacional, brincadeiras com vibradores e objetos sexuais. Não faltam também trocadilhos como na triste alusão a “Meu Nome Não é Johnny”, gracejos com homossexuais (o tal BOP não parece o batalhão do Pitbicha?) e os efeitos sonoros típicos das videocassetadas do “Domingão do Faustão” (perdi a conta de quantos miados de gatos foram utilizados). Por fim, há sempre espaço para um homem vestido de mulher, sendo o bad-boy Alexandre Frota o palhaço da vez a usar bibelôs e um vestidinho florido na “paródia” do filme “Minha Mãe é Uma Peça”.

Para que usar a cabeça, caro espectador. O humor no Brasil não precisa disso; ele é espertinho e já deixa tudo datado para você. Qualquer mísera dúvida sobre qual filme será sacaneado, Brandt ajuda a lembrar. Quando Jorge Capitão e Alpinistinha entram no elevador, ambos falam cinco (!) vezes “Se Eu Fosse Você”. Ainda bem que eles não entraram outra vez para falar a continuação. Usou a expressão “sucesso para burro”? Mostra um burro, ora pois. Isso para não falar do quebra-cabeça.

Nessa altura do texto, você deve estar perguntando por Anitta.
Sim, a funkeira está lá, porém, nada faz.
Participa apenas para ser o nome mais popular do elenco, servindo de chamariz para atrair mais gente para os cinemas em meio a um elenco tão pouco popular. Simples assim.

Diga-se uma verdade: “Copa de Elite” não ficará sozinho como símbolo da mediocridade do humor nacional. Basta ligar a televisão ou ir nos stand-up comedy da vida para ver comediantes no ciclo da piada de gay-negro-gostosa-celebridade-sexo-político ladrão. Em um país tão desigual e contraditório como o Brasil, ter uma classe de humoristas como a atual (salvo raras exceções), sem coragem para questionar e ironizar os nossos absurdos, serve para nada.

Viva os “Pânicos”, “CQC’s”, “Legendários”, “Zorras” e todas as comédias da Globo Filmes.

E PRE-PA-RA: “Olimpíada de Elite” vem aí!

NOTA: 4,0

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