Como um filme que começa de forma tão irritante e pretensiosa pode ter uma reviravolta em sua segunda metade, com algumas das cenas mais eletrizantes produzidas em 2015? Bem, é fácil. Robert Zemeckis fez o oposto alguns anos atrás, com “O Voo”, uma produção que chega ‘chegando’ para depois desacelerar e se tornar um filme genérico de Supercine. Baseado na mesma história real que foi objeto do documentário “O Equilibrista” (2008), “A Travessia” só lembra o filme anterior de Zemeckis porque traz um protagonista do sexo masculino em meio a adversidades causadas pela sua profissão. De resto, é um bem-vindo retorno à forma de um cineasta que parece finalmente ter domado o “monstro” do 3D.

De cara, já aviso: “A Travessia” é um desafio para o espectador que tem medo de altura. O pesadelo da vertigem parece ser aqui o passatempo preferido de Zemeckis, que brinca com as sensações do espectador do início ao fim da história do Equilibrista Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt). É uma pena que a produção precise lançar mão de uma sem graça quebra da quarta parede. Se a intenção era fazer com que eu me apaixonasse pelos lindos (cof cof) olhos azuis de Levitt, sinto muito.

Esse recurso fica ainda mais desnecessário à medida em que a história evolui, já que vem acompanhado de uma narração quase tão boa (só que não) quanto a de “Tim Maia” (2014). Ainda assim, Zemeckis encanta ao claramente mirar em “Amélie Poulain” e “Moulin Rouge” (ambos de 2001) para ambientar a primeira fase da narrativa. Junta-se a isso o carisma inegável de Gordon-Levitt, esbanjando um francês fluente e, depois, um bom sotaque ao falar inglês. 

O ator sempre entrega trabalhos convincentes, mas é como Philippe Petit que ele realmente mostra poder carregar um filme. Se acreditamos que Petit pode, enfim, realizar o sonho de atravessar as torres gêmeas em um cabo de arame, é porque o olhar de Gordon-Levitt nos passa essa confiança (apesar das malditas lentes azuis).

Apesar disso, o filme é mesmo um trabalho de autor. No segundo ato do filme, Zemeckis se revela um verdadeiro brincante, ao passo que nos faz ter um susto por minuto. Com a ficção ao seu favor, o cineasta nos entrega momentos de levar o coração à boca, especialmente no ato final da história. Isso com o auxílio de efeitos visuais de encher os olhos e do combo trilha sonora + efeitos de som, que contam mais do que qualquer narração desnecessária que teima em interromper momentos que seriam melhor preenchidos com o silêncio e o vazio que Petit tanto sente lá no alto.

“A Travessia” só se transforma em um grande filme por causa de Zemeckis. Escolado nos motion captures da vida, o diretor aproveita cada oportunidade que tem de jogar com os medos da plateia, tal qual Petit fez naquela manhã de 1974, ao mesmo tempo que faz algo que muitos cineastas têm tentado fazer desde 2001: uma singela homenagem à selva de pedra criadora de sonhos (sim, parafraseei Alicia Keys, e você, que é feio?). “Orfã” de Woody Allen, Sidney Lumet e tantos outros, Nova York agradece.

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