Em 1968, um jovem cineasta de 28 anos de Pittsburgh, cidade localizada no Estado da Pensilvânia, se juntou com alguns amigos de longa data e, com um orçamento modesto, rodou o seu primeiro longa-metragem, intitulado “A Noite dos Mortos-Vivos”. Este jovem chamado George Romero deu um novo upgrade no gênero de horror. Seus “filhotes”, conhecidos como zumbis ou mortos-vivos, funcionavam como alegorias político-sociais dentro da instabilidade na qual os EUA viviam na época. Elementos como o preconceito racial, a intolerância social e os problemas de ordem interpessoal foram utilizados como metáforas dentro do filme. Além disso, a Guerra do Vietnã e a proximidade de um holocausto intensificavam a propagação da cultura do medo e alimentavam a paranoia americana.

Logo, o horror adquiria uma nova estética cinematográfica na obra “romeriana”, saindo da esfera clássica (com seus monstros clássicos) e aproximando-se de um terror real e social. O filme de Romero, além de ser uma obra revolucionária influente, trouxe a figura do zumbi para a zona central da discussão, no caso como protagonista, desta maneira o reinventando e o dissociando da figura apresentada pelo cinema nas décadas de 30 e 40, onde personagem tinha um caráter passivo, sendo uma espécie da massa plebeia no horror.

Com “A Noite dos Mortos-vivos”, os zumbis adentraram no imaginário cinéfilo, fazendo grande sucesso nos quadrinhos, televisão (ambos com o seriado “The Walking Dead”) e games (a série “Resident Evil”). Hoje gozam de um prestigio equivalente aos vampiros, sendo indicativos de filmes lucrativos e a certeza que muitas pessoas pagarão para assisti-lo. Por isso nada melhor que começar com um Top 5 Filmes de Zumbis neste especial do Cine Set no mês de outubro, em homenagem aos fãs do terror.

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Escolher apenas 5 filmes em um subgênero tão farto de bons filmes foi bem complicado. Para listar os melhores na minha preferência, acabei deixando de fora a Quadrilogia de Mortos-Vivos de Romero, que se encontra em um patamar acima de qualquer outro filme – inclusive o subestimado “Terra dos Mortos” consegue ser tão brilhante quanto os demais – e funcionam como obras obrigatórias para quem deseja conhecer os filmes de zumbis. Outro clássico da década de 80 também foi deixado de fora porque em breve ganhará uma crítica exclusiva nesta programação especial. Caso você discorde, sinta-se à vontade em fazer a sua própria lista e postar abaixo. Afinal, quando falamos em listas é sempre complicado agradar todos e chegar a um denominador comum.

5. Pelo Amor e Pela Morte (Dellamorte Dellamore, 1993, de Michele Soavi)

Baseado nas HQs italiana de Dylan Dog, de autoria de Tiziano Slavi. Francesco Dellamorte (Rupert Everett) é um coveiro de uma pequena cidade que possui a missão de matar mortos que voltam à vida sete dias depois que foram enterrados. Enquanto lida com os zumbis, Francesco se apaixona por uma viúva (a estonteante Anna Falcin) cujo sentimento vai levá-lo a uma obsessão sem precedentes. O cineasta Soavi é sem dúvida o último romântico do cinema italiano de horror. Depois da ótima estreia com o slasher “Pássaro Sangrento” e a comprovação do seu talento no visualmente assustador “A Catedral”, o diretor atinge a sua maturidade artística nesta divertida fábula surreal que mistura horror, humor negro e romance.

Ao mesmo tempo é uma obra estranha, mas que exerce um fascínio mórbido, talvez pela mensagem de desesperança e pessimismo ao retratar o medo não de morrer e sim de viver em uma realidade cada vez alienada (ah! os anos 90 e seu tédio cultural). Para completar, Soavi nos brinda com momentos surreais e uma relação carnal filmada em tons oníricos e estilizados. Rupert Everett, até hoje conhecido como o amigo gay de Julia Roberts em “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, têm aqui a melhor atuação da sua carreira. No fundo, o próprio filme é uma declaração de amor ao cinema de horror italiano em decadência na época.

4. A Noite do Terror Cego (La Noche Del Terror Ciego/Tombs of The Blind Dead, 1972, de Amando de Ossorio)

No início da década de 70, um radialista de uma rádio espanhola aproveitava as férias para fazer seus filmes. São nestas folgas que o diretor Amando de Ossorio realizou o seu clássico trabalho dos templários cegos mortos-vivos. A predileção do cineasta não é pela critica social e sim pela violência, morte e sexo, discutindo a questão da sexualidade quase de forma obsessiva. No filme, acompanhamos o reencontro de Virginia e Betty depois de anos separadas (e na qual Ossorio insinua de forma sutil um relacionamento lésbico no passado), e que decidem viajar de trem com Roger, amigo de Virginia. Ele é um sedutor nato que dá em cima de Betty,gerando ciúmes na outra que, com raiva, resolve descer no meio no nada indo parar nas ruínas da cidade de Berzano. O que ela não sabe é que no passado, o local abrigou os cavaleiros templários que, depois que retornaram das cruzadas, abdicaram do cristianismo propagando o ocultismo para ter a vida eterna. E é claro que eles retornarão para espalhar o terror.

Apesar do orçamento modesto, o filme prima pela criatividade e estilo onírico – o primeiro aparecimento dos mortos cegos é primoroso graças à encenação de Osorio e pela soturna trilha sonora de tambores e cânticos medievais. No geral, “A Noite do Terror Cego” é uma bela fusão de sexo e horror com altas doses do niilismo clássico de Romero (o final pessimista ilustra bem este ponto). O sucesso do filme, acabou permitindo o diretor realizar uma quadrilogia com os mortos cegos, com destaque para o último (e poético) “A Noite das Gaivotas”.

3. A Morta-Viva (I Walked with a Zombie, 1943, de Jacques Tourneur)

Na lista não poderia faltar um clássico no seu sentido mais literal, que é o caso deste belo filme sobre vodu e magia negra realizado pelo mestre francês Jacques Tourneur, em parceria com o ótimo produtor Val Lewton. No fundo, “A Morta-Viva” é uma mistura interessante de terror psicológico, poesia e atmosfera sinistra. O enredo gira em torno de Betsy Connel, uma enfermeira contratada pelo fazendeiro rico Paul Holland para cuidar da sua esposa catatônica nas Índias Ocidentais. Ao adentrar no mundo familiar dos Holland, Betsy vai compreender os mistérios que ocasionaram o estado patológico da sua paciente.

Tourneur é um diretor que sabe explorar a dicotomia entre a razão e as crenças (vide o ótimo “A Noite do Demônio”) de forma elegante. Aqui ele resgata o morto-vivo até então perdido no purgatório cinematográfico e o eleva para o cinema da seriedade. É um exemplar tanto poético quanto perturbador, no qual faz uma ótima reflexão: seriam os mortos-vivos a síntese da entropia empírica? “A Morta-Viva” também guarda semelhanças com a literatura clássica, no caso com o romance de Jane Eyre. Possui imagens acachapantes (como da foto acima), repletas de sombras que refletem o mundo espiritual e moral em que vivemos, onde nada é determinado ou aparenta ser. Um zumbi de lirismo puro e de altos significados, onde o real e o fantástico estão ligados e nada pode separá-los.

2. Zumbi 2 – A Volta dos Mortos (Zombie 2, 1979, de Lucio Fulci)

Do horror clássico ao brutal e visceral. A picaretagem do cinema italiano de horror sempre foi conhecida, principalmente pelas cópias baratas ou continuações inspiradas em sucessos americanos no gênero. “Zumbi 2″, de Lucio Fulci, é um exemplo disso, pois foi vendido como a continuação de “O Despertar dos Mortos”, de Romero. É o filme que marca o início do diretor carcamano no cinema de horror e que lhe deu a alcunha de “Godfather” do gore. Longe da forte estética italiana, “Zumbi 2” é um banho de sangue que valoriza o horror visceral e bruto repleto de imagens fortes. Anne Bowles (Tisa Farrow, irmã de Mia Farrow) sai em busca do seu pai depois que o seu barco é encontrado à deriva em Nova York. Juntamente com o jornalista Peter West, eles vão à ilha caribenha de Matul (cheia de superstição), local onde o seu pai foi visto pela última vez. É claro que a ilha encontra-se infestada por uma epidemia de zumbis. 

A grande virtude de Fulci é mostrar os zumbis como seres putrefados, dando um visual grotesco jamais visto até então no cinema – a composição que ganha força graças aos ótimos efeitos de Giannetto de Rossi e a trilha sonora de Fabio Frizzi. Sem contar duas cenas emblemáticas: o perfuramento de um olho de forma realística e agonizante (Fulci sempre teve tara por olhos) e a sequência tosca (mas antológica) da luta entre um zumbi e um tubarão. No geral, “Zumbi 2” é um verdadeiro deleite para quem curte vísceras e sangue, não é o melhor do cineasta, mas é sem dúvida o mais intenso da sua filmografia.

1. Não Se Deve Profanar o Sono dos Mortos (Non si deve profanare il sonno dei morti, 1974, de Jorge Grau)

George (Ray Lovelock) é um negociante  de antiguidades que encontra-se em férias no interior da Inglaterra quando a sua moto sofre um acidente depois que Edna (Christine Galbo) comete uma barbeiragem com o seu carro. Juntos, eles vão enfrentar uma horda de mortos-vivos no campo inglês depois que uma máquina experimental reativa os cadáveres. Apesar da trama simples, este filme é um verdadeiro oásis dentro do cinema de mortos-vivos. Depois de “A Noite dos Mortos-Vivos”, é a melhor alegoria sociopolítica já apresentada. Ao mesmo tempo, é repleto de imagens poéticas e bucólicas, captando a essência da dicotomia entre a modernidade e o tradicionalismo, o urbano contra o rural, a contracultura versus a tradição. Grau insere uma crítica de cunho ambientalista, onde a irresponsabilidade do homem diante da natureza e do mau uso dos instrumentos científicos são os desencadeadores do apocalipse.

Não Pa toa é que os humanos são os verdadeiros vilões, liderados pelo fascista inspetor de policia (Arthur Kennedy, ótimo), uma clara referência à ditadura do Governo Franco vigente na Espanha da época. É um olhar ao mesmo tempo pessimista, niilista, poético e cínico, no qual o cuidado estético de Grau faz todo o diferencial, juntamente com efeitos de maquiagem de Gianetto Del Rossi e o apurado trabalho de som – os ruídos guturais dos zumbis de Grau são marcantes. Fora do mundo romeriano, é sem dúvida o melhor trabalho de mortos-vivos. Merece ser descoberto.

Menções honrosas: Se fosse uma lista Top 10, o divertidíssimo e insano “Fome Animal” (Braindead) de Peter Jackson entraria. O magnífico “Terror nas Trevas” (The Beyond), de Lucio Fulci, outro que ficou de fora, ainda que o considere meu favorito no contexto gore do diretor – o motivo é devido não ser um filme puramente “zumbiano”, pois mistura diversos outros elementos de terror. E você, concorda ou discorda? Faça sua lista para discutirmos antes que o apocalipse zumbi comece.

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