“Ex-Pajé” é a prova de que o distanciamento físico em relação aos personagens que retrata não representa, necessariamente, um posicionamento “em cima do muro”. O novo filme do diretor Luiz Bolognesi (que já assinou roteiros de produções como ‘Bingo – O Rei das Manhãs’ e ‘Como Nossos Pais’) é um testamento do poder que o cinema tem de contar histórias e, com elas, ser o documento de uma era.

Introduzido por uma frase do antropólogo Pierre Clastres sobre etnocídio, o filme começa com imagens de arquivo, do território do povo Paiter Suruí (entre Rondônia e Mato Grosso) em 1969, antes de pular para 2017. O verde que salta aos olhos nos vídeos antigos ainda está presente, mas tem um tom melancólico – se antes ele era de floresta pura, agora é também a cor do mosquiteiro que envolve a cama do personagem principal da história e dos detalhes da igreja que o condena.

Esse é um filme sobre o ex-pajé Perpera. Sim, ex-pajé. Perseguido por um pastor evangélico que questiona suas crenças, ele precisou abrir mão de várias coisas em sua vida para sobreviver. Para quem conhece o mínimo de história do Brasil, o que acontece com Perpera não é novidade: são cinco séculos de morte de índios, seja no sentido literal ou a morte lenta de suas culturas.

Bolognesi usa o micro para lembrar o espectador do macro, ou seja, o personagem em foco frente aos 518 anos de “embranquecimento” das tradições indígenas. Ainda assim, não é um documentário didático. Também não há entrevistas. O que se vê é a mudança e as ameaças pelos olhos de Perpera.

Distanciamento que aproxima

O (ex-)pajé é filmado com distanciamento, seja andando com suas roupas sociais vários números maior que ele, seja fazendo supermercado ou pagando contas na loteria.

Esse distanciamento traz imagens simétricas. O personagem aparece muitas vezes entre frestas, janelas, portas e pilastras, em uma clara menção ao dilema pelo qual ele passa – a divisão ocorre tanto entre Perpera e o pastor evangélico quanto com os aldeões da tribo.

Sem final feliz

Essa divisão também é feita no som do filme: a confusão entre os cânticos e pregações evangélicas logo é sublimada pelas vozes da natureza. O documentário insiste nessa sobreposição, quase que uma forma de avisar que essa guerra não terá fim tão facilmente, mas que quem manda naquele lugar ainda é o verde. A propósito, o trabalho de fotografia assinado por Pedro J. Márquez tem justamente na cor verde (já citado lá em cima) sua âncora principal: a floresta emoldura os conflitos daquela região. Exemplo disso é quando vemos Perpera abrir a escura igreja, e os únicos pontos de luz surgem do verde.

Os sons da natureza e da igreja são os poucos que reverberam na projeção. Há registros de diálogo entre os aldeões, mas o áudio que mais salta aos ouvidos é o de um jogo eletrônico que diverte um pequeno índio: no game, ele precisa matar porcos. Dicotomia certeira.

O filme de Luiz Bolognesi provoca discussões bem mais extensas que seus 80 minutos de tela. Quando, em determinado momento, os poderes do ex-pajé são de necessidade vital para a aldeia, a sensação é de que haverá um “final feliz” para aquele imbróglio todo. Mas se o genocídio da cultura e dos próprios índios só aumenta, como acreditar que Perpera não continuará a ser perseguido?

O grande documentário (produzido por Bolognesi em parceria com Laís Bodanzky) acerta ao não procurar soluções e ao simplesmente dar voz àqueles que querem falar, ou, simplesmente, viver em uma terra que lhes é sua por direito.

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