Inspirado pelas cenas de queimas de livros na Alemanha nazista e pela “caça às bruxas” na década de 1950 nos Estados Unidos, inflamada pelo senador Joseph McCarthy que buscava expor comunistas escondidos no país, o escritor e expoente da ficção-científica literária Ray Bradbury escreveu e lançou Fahrenheit 451 em 1953. Na história, ambientada nos EUA de um futuro sombrio, os bombeiros na verdade não apagam incêndios – a função deles é encontrar e queimar livros, pois eles, e o conhecimento contido neles, são banidos na sociedade. Como todas as distopias, o livro de Bradbury é um alerta, e surpreendentemente, passível de uma adaptação para nossos tempos atuais. Afinal, vivemos na época em que cada um acredita no que quer, conhecimento científico muitas vezes é visto como passível de questionamento, e onde muita gente dá mais valor às distrações do dia-a-dia do que às obras de arte já produzidas pela humanidade.

Adaptar Fahrenheit 451 para o contexto atual, mesmo um em que o livro como entidade física já não tem mais tanta importância – ou assim tantos falam – é um desafio. Por isso mesmo, é uma pena constatar que Fahrenheit 451, o filme da HBO, seja tão inconstante… Os roteiristas Ramin Bahrani e Amir Naderi às vezes até acertam o alvo na adaptação, porém erram com frequência muito maior ao inventar coisas novas para a história. Para quem leu o livro, ou até mesmo conhece a versão anterior filmada, dirigida por François Truffaut em 1966, a sensação mais constante durante boa parte do filme é de tristeza, de olhar para a tela e perguntar: “Por que?”

A produção da HBO traz Michael B. Jordan – também um dos produtores do filme – como Montag, bombeiro em ascensão no departamento, e que vive num país que passou por uma segunda guerra civil, onde os cidadãos são meio que vigiados por uma inteligência artificial e as queimas de livros são espetáculos transmitidos pela mídia a serviço do Estado. Existem rebeldes, claro, e com o tempo Montag começa a ver com outros olhos a sua profissão. Ele conhece a rebelde Clarice (Sofia Boutella) e começa a ler alguns dos livros que antes queimava. Com o tempo, sua mudança o coloca em confronto com o Capitão Beatty (Michael Shannon), o chefe do departamento.

A trama básica do livro está lá, mas como se diz, o diabo mora nos detalhes… No filme, a transição do protagonista, de queimador oficial – logo no início do filme até o vemos falando, entusiasmado sobre seu trabalho, para crianças numa escola – a membro da resistência é muito brusca. O roteiro, por algum motivo, cortou a personagem da alienada esposa de Montag, que no livro ajuda a tornar essa transição mais crível. Jordan é muito bom ator, mas não faz milagre, e acaba levando o filme nas costas mais pelo carisma do que pelo nosso interesse no seu personagem.

Outro problema do roteiro é que, aparentemente na tentativa de dar mais dimensão ao Capitão Beatty, os cineastas incutiram nele também um fascínio além da conta pela palavra escrita, a qual chama de “grafite” – ora, se até o antagonista da história foi um pouco conquistado pela literatura, isso erode o esforço do protagonista e até deixa o filme perto de minar sua própria premissa. É preciso andar numa linha fina com esse personagem, o que Truffaut fez de maneira exemplar na sua versão, mas no Fahrenheit 2018 isso se torna até mais complicado com a escalação de Shannon, fazendo mais um vilão na carreira e repetindo alguns trejeitos que já vimos antes. O problema é que o filme, por boa parte da sua duração, não parece se definir quanto ao fato de ele ser um vilão ou não…

Bahrani – um cineasta incisivo que já nos presentou com o excepcional 99 Casas (2014) – também inclui umas atualizações na história e explora um pouco o conflito entre velhas e novas tecnologias. A partir de certo ponto da história, um dispositivo codificado em DNA passa a ser muito importante para a narrativa, e há várias referencias às redes sociais – é possível dar “likes” na hora em que um bombeiro taca fogo numa pilha de livros – e aos EUA pós-Trump. Afinal, um dos lemas dos bombeiros é “Vamos queimar pela América de novo”… Às vezes o filme acerta nessas ideias, às vezes a falta de sutileza é decepcionante – imagens das fogueiras sendo transmitidas nas laterais dos arranha-céus são para lá de exageradas…

O resultado é um filme que não chega a ficar completamente ruim – embora possua momentos ruins – mas por outro lado também nunca chega a “pegar fogo”, com o perdão do trocadilho. Perto do fim as coisas ficam mais intensas e o filma ganha em urgência, chegando até a concluir com uma bela referência a Blade Runner (1982), um dos filmes distópicos mais famosos do cinema. Ora, vivemos numa época propícia para as distopias, com The Handmaid’s Tale fazendo sucesso na telinha e com Blade Runner 2049 (2017) nas telonas. Era uma época propícia para um novo Fahrenheit 451, pois o livro de Ray Bradbury e sua alegoria do futuro continuam poderosos, mesmo com todas as mudanças sociais e tecnológicas que tivemos desde a sua publicação. Mas o resultado desta produção da HBO é um filme desajeitado e que desperdiça um bom potencial. O livro, no entanto, continua bom… Melhor desligar a TV e dar uma lida nele, antes que alguém bata na sua porta querendo queimá-lo. Impossível, você diria? Bem, o alerta de Bradbury está dado.

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