Tudo na vida um dia acaba – incluindo os seriados de televisão. A maioria acaba subitamente, via cancelamento, muitas vezes deixando tramas em aberto capazes de deixar seus fãs aborrecidos e debatendo ad infinitum sobre o que poderia ter acontecido nos seus programas favoritos – que o digam os fãs que até hoje discutem sobre a lenda urbana do final de Caverna do Dragão! Apenas poucos e felizardos programas ganham o poder para terminar nos seus termos, do jeito que seus criadores pretendiam, e geralmente após vários anos de produção.

É sempre triste ver o seu programa favorito ser decapitado antes da hora, mas geralmente sabemos os motivos por trás da guilhotina: séries já foram canceladas por problemas nos bastidores, má qualidade, e pela boa e velha queda nos índices de audiência – este, então, deve ser o motivo por trás de 9 entre 10 cancelamentos.

Quando uma série é cancelada por audiência, geralmente temos os números para comprovar. Sempre foi assim nas grandes redes abertas americanas – ABC, NBC, CBS, Fox – e também nos canais a cabo – Showtime e HBO, por exemplo. Mas e no caso da Netflix? O maior serviço de streaming do mundo, e que conta com uma vasta seleção de séries, tanto produções originais quanto atrações de outras fontes, nunca revelou dados de “audiência”, ou de “acessos”, ou seja lá como chamam, dos seus programas.

Get Down

E agora a Netflix chega ao centro de uma nova polêmica – depois da de Cannes – com os cancelamentos, anunciados com poucos dias de diferença, das séries The Get Down e Sense8. Não foi a primeira vez que a Netflix cancelou uma atração: ao longo de sua história a produtora já lançou no abismo a comédia excêntrica Lilyhammer, o terror Hemlock Grove, o épico Marco Polo e o drama de suspense Bloodline.

O fim de The Get Down, série sobre a cena hip-hop de Nova York nos anos 1970, já era mais ou menos esperado. A primeira temporada, dividida em dois blocos que estrearam na Netflix em 2016 e 2017, foi muito cara e não alcançou grande repercussão na imprensa especializada – de novo, não há como saber dados de audiência. A produção também pareceu desorganizada – houve atrasos nas filmagens e o produtor Shawn Ryan, chamado pelo cineasta e produtor-executivo Baz Luhrmann para tocar o dia-a-dia da série, acabou saindo. O preço também foi determinante para o fim – a primeira temporada, de 12 episódios, teria custado 120 milhões de dólares, de acordo com o The Hollywood Reporter.

Mas o cancelamento de Sense8 pegou de surpresa devido ao fato de a segunda temporada ter sido lançada com uma boa campanha de divulgação e aprovação, em geral, dos fãs e da crítica. Então… Como explicar isso?

Sense8
Um cluster complicado

Umas das possíveis explicações para o fim de Sense8 é a ambição da produção. Filmada em 16 cidades ao redor do mundo, só a logística de produção da série já devia ser uma loucura, com atores, diretores e equipe viajando e demorando meses para filmar. Tanto é que a segunda temporada estreou em 2017, dois anos depois da primeira, de 2015 – no meio-termo, a Netflix produziu um episódio “especial de Natal” lançado em 2016. Nos bastidores, a co-criadora e diretora do programa Lily Wachowski deixou a série, ficando tudo a cargo da sua irmã Lana e de J. Michael Straczinsky. Era um seriado muito complicado de fazer, e a exemplo de The Get Down, também não devia ser barato.

Mas é uma pena o cancelamento de Sense8, pois além de ser realmente uma série interessante, ainda apresentava um elenco diverso e internacional, e enfatizava ideias progressistas e de diversidade sexual. E a temporada terminou em aberto – Será que a Netflix produzirá pelo menos um filme para fechar a história? Ainda não se ouviu nada a respeito disso.

Em todo caso, Sense8 deve agora entrar para a história como um experimento, ousado e maluco, talvez a série sci-fi de ação que mais refletiu sobre como era a vida no tumultuado século XXI.

netflix
Custos, “muitas séries”, e como medir sucesso ou fracasso na Netflix?

Depois desses anúncios sobre The Get Down e Sense8, já surgiram até vozes preocupadas com o cancelamento de programas com narrativas e elencos diversos e inclusivos, como nesse artigo da Variety. Mas o fato é que o dinheiro manda, como sempre, na produção cinematográfica e televisiva.

Em minha opinião, vivemos um momento em que as séries conseguem, em si mesmas, ser comparáveis aos grandes blockbusters de Hollywood. Ora, alguns blockbusters passam batidos, enquanto outros viram fenômenos – por que seria diferente com as séries? TV sempre dependeu de repercussão e de gente assistindo, e mesmo na nossa era de ouro atual, isso ainda é verdadeiro. Podemos falar e elogiar (com razão) The Get Down, Sense8 e outras que trazem diversidade para as telas e abordam tópicos importantes para o nosso mundo. Mas se pouca gente assistir, é tchau e benção.

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Nem nome e pedigree garantem a continuidade de uma série. É só olharmos para a HBO: em anos recentes, ela não teve receio de botar True Detective num hiato (eterno?) quando a segunda temporada decepcionou público e crítica, e de cancelar Vinyl mesmo com o nome de Martin Scorsese atrelado a ela. De novo, foram dois projetos caros e cuja relação “custo-benefício” junto à audiência não compensou para a rede.

Quanto aos seus cancelamentos, a Netflix tem adotado estratégias diferentes. Por exemplo, Lilyhammer e Marco Polo foram mortas sem cerimônia; já Bloodline ainda ganhou uma sobrevida, pois os criadores conseguiram concluir a trama na terceira e última temporada. A sobrevida é possível quando a relação custo-benefício a torna viável. Bloodline, mesmo com seu elenco cinematográfico, não custa tanto para produzir quanto Marco Polo ou The Get Down.

Pelo menos por enquanto, a única forma de sentir a audiência de uma produção Netflix é o burburinho na internet e nas redes sociais. Por isso sabemos que Stranger Things e 13 Reasons Why foram sucessos, assim como House of Cards repercutia lá no seu começo – aliás, esta é outra que não está com a continuidade assegurada. Para o tanto de séries que eles produzem, até parece pequeno o número de cancelamentos até agora, o que o CEO da empresa promete mudar num futuro próximo. Nessa matéria da Esquire, Reed Hastings até menciona os critérios para cancelamento da Netflix: “Levamos em consideração o número de pessoas assistindo [e a taxa de crescimento das assinaturas do serviço]”.

house of cards season 3 3ª temporada

O fato é que um dos fenômenos da era de ouro da TV atual é a existência de muitas séries boas! Quem diria que isso um dia seria um problema… Enfim, há muitas opções para se assistir, muito conteúdo de qualidade, e a Netflix também produz (e gasta) muito. Talvez produzindo um pouco menos, e gastando também menos, aumentem as chances de uma seletividade maior, de um investimento maior em qualidade. Mas, de novo voltando ao exemplo do cinema, isso não tem acontecido em Hollywood. Afinal, quanta grana os grandes estúdios não jogam fora todo ano em projetos duvidosos, apesar de estarem produzindo menos filmes? A Warner Bros. foi pródiga nisso: os engravatados de lá realmente acharam que havia muita gente disposta a pagar para ver as milésimas versões de Peter Pan, Tarzan e Rei Arthur?

A Netflix cancelar mais séries será uma coisa ruim ou boa? Vai aumentar a qualidade da programação? Só o tempo responderá. Mas uma coisa já é certa: os cancelamentos chegaram para ficar. Espectadores, aproveitem os dias com suas séries, porque um dia elas vão acabar. Seja lá por qual motivo.

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