Apesar de ser necessário seguir um ramal, para entrar numa trilha, e aí sim pegar um barco para chegar ao destino, as gravações de Antes o Tempo Não Acabava, novo longa-metragem de Sérgio Andrade, acontecem em Manaus, no bairro Puraquequara. Para ser mais específico, no Paranã do Puraquequara, de acordo com um técnico que presta serviços à produção.

É num cenário bastante bonito, com abundante vegetação, que estava acontecendo a gravação do filme numa ensolarada manhã de sexta-feira, 21 de novembro. Após conversar rapidamente com a equipe, logo fui informado que não se tratava se uma cena qualquer: era somente a gravação da sequência final do longa! Que sorte a minha! Ocorreu exatamente de conseguir um espaço na gravação de um dia tão importante: senti-me privilegiado por isso.

Sérgio Andrade comandou o primeiro longa rodado no Amazonas em décadas: “A Floresta de Jonathas”

Mas é em ocasiões como essa que fica clara a falta de credibilidade que os jornalistas possuem perante a sociedade. Com muito bom humor, ainda que com uma ponta de cobrança de verdade, fui solicitado de que de jeito nenhum falasse sobre informações dessa cena no meu texto, pelo amor de deus, coisa e tal. O próprio Sérgio Andrade disse que o Cine Set seria acusado de cometer o maior spoiler da história se revelasse informações da cena.

Como não quero que o Cine Set ganhe esse “reconhecimento” e por entender o lado dos realizadores, vamos ignorar o caráter da cena.

No local havia cerca de 30, 40 pessoas trabalhando. As gravações começaram no dia 3 de novembro, e cada dia teve aproximadamente 12 horas de trabalho. Um trabalho árduo, sem dúvida, que Andrade faz questão de ressaltar a sua equipe: “É muito bacana trabalhar com essa equipe que é um pouco menor do que a do A Floresta de Jonathas. Na questão de respeito, paciência, de execução do trabalho, estou muito satisfeito”.

Comigo estava Ivo Lopes Araújo, diretor de fotografia de filmes brasileiros de destaque como Tatuagem e O Homem das Multidões, que permanecia na cidade por conta de um curso de direção de fotografia que estava ministrando. Em um determinado momento ele me confidenciou: “Set é uma maravilha pra quem está trabalhando, mas não é tão legal pra quem está apenas de passagem”. Tive de concordar. A energia que rola ali parece limitada à equipe, àquelas pessoas que já estão num ritmo mais constante de trabalho. Quem pega o bonde andando acaba ficando à margem.

Sérgio Andrade nos bastidores de Antes o Tempo Não AcabavaMas para Sérgio o clima parecia ideal, e ele demonstrava estar tranquilo em relação a adrenalina que é o set de filmagem, haja vista que esse momento do filme acontece de maneira diferente para cada diretor: “Eu sempre fico muito ansioso antes de gravar. Sempre vem uma ansiedade grande, mas agora eu já estou ambientado, acostumado com esse set. O filme não foi muito diferente do que a gente planejou. A única diferença é com questão de chuva: atrapalha às vezes, mas em alguns dias a gente pegou um dia nublado que ajudou também”, explica Andrade.

Perambulando pelo local num intervalo de uma cena para a outra, encontrei Anderson Tikuna, ator indígena, protagonista do filme. Pedi pra conversar com ele enquanto a equipe ajustava a luz, mas ele disse pra conversarmos apenas após a gravação. Que mancada a minha, pensei. Mas logo percebi que não se tratava de nenhum tipo de estrelismo ou algo do tipo. Ele apenas permanecia concentrado no papel mesmo nos intervalos, e demonstrava bastante rigor em relação a isso.

Não é a toa que o seu trabalho é muito elogiado por membros da equipe. “Eu gosto muito do trabalho do elenco e o Anderson está excelente. A dedicação dele impressiona pelo fato de estar presente em todas as cenas do filme”, conta Andrade. Tal opinião também é compartilhada por Rita Carelli, preparadora de elenco do filme, que também atuou na produção: “O Anderson chega no set sabendo o que vai fazer, quais são as cenas, e ele tem ferramentas, que a gente criou na preparação, que ele acessa na hora de filmar, e está muito legal”.

O ator já trabalhou em Tainá 2, além de ter participado dos dois últimos filmes de Sérgio Andrade, A Floresta de Jonathas e Cachoeira. Mas nada que se comparasse a responsabilidade desse personagem em Antes O Tempo Não Acabava. De etnia tikuna, Anderson nasceu em Tabatinga, mas desde os 7 anos de idade mora em Manaus, junto com a família. Ele reconhece a grande responsabilidade que tem neste trabalho, mas mostra-se tranquilo em relação a isso: “Já atuei em outros filmes, mas não como agora. Aqui eu que estou levando a história, me expondo a cada dia a ir para frente. Estou me dedicando bastante para esse filme do jeito que o diretor pede”, conta o ator.

As gravações terminam nesta quarta-feira, 26 de novembro, e darão vez a mais um longo processo que é a pós-produção. Em um determinado momento da gravação, não pude deixar de ouvir que Sérgio falava que já estava desenvolvendo seu novo roteiro. Questionado sobre o assunto, ele se mostrou rápido e rasteiro: “Ainda não tenho nada pra falar sobre, estou na metade. Pode-se dizer que será uma ficção científica ambientada na Amazônia. Mas eu posso estar mentindo pra você também (risos)”.

Anderson Tikuna em cena de Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade

Fotos: Divulgação/Facebook

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