Em “O Franco-Atirador”, Sean Penn ingressa oficialmente na nova receita pronta dos filmes de ação: longas protagonizados por heróis veteranos de meia-idade, preparados para mostrar que cinquentões também podem chutar bundas muito bem. Depois de Liam Neeson ameaçar alguém ao telefone e inaugurar a moda, seguido por Kevin Costner, Pierce Brosnan e Keanu Reeves (sim, ele já tem 50 anos), Penn chega ao clube pelas mãos do diretor Pierre Morel, o mesmo responsável pelo primeiro Busca Implacável.

A história banal acompanha o ator na pele de Jim Terrier, um ex-matador de aluguel responsável pelo assassinato do ministro das minas do Congo, na África. Por conta disso, Terrier se vê obrigado a fugir do país e abandonar sua amada, Annie (Jasmine Trinca), aos cuidados de Felix (Javier Bardem). Oito anos depois, o passado bate à porta e ele sai numa caçada Europa afora para tentar sobreviver e descobrir quem é o responsável pela queima de arquivo geral entre os envolvidos na operação.

O prólogo de “O Franco-Atirador” promete um filme que nunca se concretiza: imagens de arquivo e de reportagens exploram o cenário desolador do Congo, a fim de pintar o contexto político internacional do país como ponto de partida para o longa. Essa trama política, porém, nunca chega realmente a engatar, já que o roteiro prefere focar no triângulo amoroso Terrier-Annie-Felix e, claro, no bom e velho tiro-porrada-e-bomba. Todo o drama envolvendo África, ONGs e os brancos salvadores da pátria (ou não), na verdade, parece apenas um elemento jogado no filme pelo próprio Sean Penn, que (pasmem) coassina o roteiro com Don Macpherson e Pete Travis, e sempre foi reconhecido também por seu lado ativista e engajado. Talvez isso explique o envolvimento do ator no longa – além do fato de um pé-de-meia a mais sempre ser bem-vindo.

Se, por um lado, a trama não funciona, Penn pelo menos tenta emprestar ao projeto sua atuação sempre marcada pela entrega corporal e psicológica (“Sobre Meninos e Lobos” e “Milk” estão aí de prova), compondo Terrier como um personagem brutal, intempestivo e, ao mesmo tempo, inteligente. Apesar disso, o roteiro não lhe dá lá muita coisa a fazer a não ser mostrar o físico bem malhado sempre que possível – e se não fosse pelas rugas no rosto e a postura de macho alfa, talvez o ator atraísse tantos gritos histéricos quanto um Taylor Lautner descamisado na franquia “Crepúsculo”. Pelo menos se destacam os momentos em que Terrier prefere usar a cabeça a partir para a briga, ilustrando a sagacidade do protagonista em reverter armadilhas a seu favor e enganar seus inimigos.

No entanto, os outros nomes competentes do elenco não têm a mesma sorte: Javier Bardem está regular como um pseudovilão, pelo menos até o momento em que é atingido por uma bebedeira repentina que não condiz com o que foi visto do personagem até então; Ray Winstone é simpático e carismático como o amigo leal do protagonista, ao menos; e Idris Elba é totalmente desperdiçado, aparecendo basicamente em três cenas apenas para dizer que fez parte do filme. Já à atriz italiana Jasmine Trinca resta o papel ingrato de donzela em perigo feita de joguete num universo de machões.

Nem mesmo a “porradaria” do filme é tão empolgante assim: embora a violência gráfica marque presença, as lutas têm coreografias fracas, e os capangas no encalço de Terrier parecem estar sempre esperando que ele lhes quebre a cara. Culpa da direção fraca de Morel, que também investe em soluções visuais óbvias e repetitivas como o enquadramento em que o personagem de Bardem se interpõe entre o casal principal, os flares constantes da doença de Terrier ou os flashbacks que explicam algo que acabamos de ver.

Em seu último ato, “O Franco-Atirador” se lembra de que havia uma intenção de ser uma trama de conspiração política internacional e volta a apostar em discussões sobre os atos dos personagens e de empresas multimilionárias que se aproveitam do cenário de caos de países africanos em guerra civil. Porém, para Morel, parece que basta encerrar o filme com um repórter falando escancaradamente a moral da história para considerar esse um bom trabalho. Talvez seja se o que você procura é simplesmente um filme com Sean Penn descamisado metendo a porrada em geral; se não, pode deixar pra lá. Afinal, é uma questão de tempo até descobrirmos quem vai ser o próximo astro de ação com mais de cinquenta anos, num subgênero que parece estar se esgotando cada vez mais rápido.

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