Assistir a Super Drags é como retornar a infância e estar diante de uma batida preparada com “As Meninas Super Poderosas”, “A Nova Onda do Imperador”, “Sailor Moon” e os desenhos adultos do Tooncast.

Distribuída pela Netflix, a série é a primeira animação brasileira do streaming e uma de suas apostas mais ousadas e rentáveis. Digo isso, porque os elementos que compõe a produção possuem um potencial ainda pouco explorado pelos serviços direcionados à grande massa. Além de dialogar com um público que é fidedigno e, embora haja avanços significativos, está em busca de produtos os quais possa identificar-se.

Dirigida por Fernando Mendonça, a animação acompanha Patrick, Donizete e Ralph, três amigos que trabalham em uma loja de departamentos e, ao serem chamados para salvar o dia, se transformam nas super heroínas Lemon Chifon, Scarlet Carmesim e Safira Cyan, as Super Drags. Elas são responsáveis por proteger a comunidade LGBT de vilões defensores de ameaças diretas ao público em questão como a cura gay, extremistas homofóbicos, entre outros.

Por ser uma animação adulta, algo que a Netflix reafirma constantemente, “Super Drags” aborda livremente questões relacionadas à sexualidade e temas controversos e polêmicos. Tudo com uma boa pitada de sátira e humor. E talvez nisto esteja alocado boa parte da problemática da série, que ao apelar para a comédia extrema, em que tudo vira zoeira e deboche, esquece de aprofundar-se em colocações relevantes e necessárias não apenas para o público-alvo, mas à sociedade contemporânea.

As dificuldades na narrativa

Durante o desenrolar da trama, há algumas questões que geram incômodo. Uma parcela delas deposita-se no fato de minimizar certos questionamentos para adequá-los ao humor. Tudo bem que a comédia é responsável por conseguir abordar assuntos difíceis como se utilizasse uma luva de película. Bater sem realmente causar grandes danos. Entretanto, há contrapontos que não oferecem tantas defesas. Como por exemplo, Chifon apalpar e segurar a genitália do terrorista desacordado no episódio inicial. Para a proposta da série, torna-se aceitável ela o libertar por ser bonito, mas isso não deixa apreciável sua atitude anterior. Movimentos como Time’s Up e #MeToo pedem justamente para que situações como essa não sejam tratadas como normais dentro do audiovisual quando postos uma mulher e um homem e o mesmo se estende a outros nichos, também. Mesmo que a série isole o “pequeno abuso”.

Outro ponto que também se mostra inquietante é o tratamento dado ao personagem Patrick. O título do episódio que enfoca o personagem e, especialmente, seu corpo comporta problemas semelhantes aos vistos em “Insatiable”, quanto à busca desenfreada por enquadrar-se na estética dita correta pela sociedade. Se a magreza era mágica na produção de Lauren Gussis, , aqui a imagem é tudo. Entretanto, os roteiristas apresentam uma saída inteligente ao colocar o preconceito latente a quem está fora dos padrões e como isso afeta a visão que a pessoa tem de si mesma. Porém, eles acabam lidando com isso de forma superficial, colocando a “lacração” a frente da discussão. Em outras palavras, os elementos encontrados para discutir a gordofobia na série soam preguiçosos, inverídicos e fora de sintonia quando postos na boca das personagens, embora se utilize de meandros vida real como argumento.

Ainda envolto da busca pelo espetáculo em detrimento dos conceitos, está à construção visual da série que chama a atenção pela quantidade de genitália masculina em cada frame. É uma verdadeira ode fálica. Há frases, representações no corpo, em objetos, iluminação e, principalmente, nos planos escolhidos, que costumam enfatizar tanto o tamanho quanto o status peniano. Como se as discussões em grupos LGBTQ estivessem constantemente voltadas a esse assunto, o colocasse como trend topic em qualquer conversa.

Mas tudo isso apenas evidencia a fragilidade do roteiro que, em cinco episódios, repete piadas e tramas enquanto tenta costurar o contato entre personagens e os conectar com eventos anteriores. Isso contribui para a falta de organicidade e fluidez da narrativa, ocasionando perda no setor humorístico, afinal piadas como as que envolvem “Dild-ooo” funcionam apenas nos primeiros episódios. Soma-se a isso a reprodução constante de plots, transformando o roteiro em algo enfadonho, cansativo e preguiçoso. Por conta disso, embora a preocupação de Lady Elza chupar o Highlights (energia vital das gays) e o impedimento do show da Goldiva sejam os principais fios condutores dessa temporada, não é surpreendente que o melhor episódio da série seja o único que trata o conservadorismo evangélico como vilão.

 Os acertos de “Super Drags”

Apesar desses aspectos problemáticos, “Super Drags” sai com um balanço positivo. A série consegue, além de arrancar risadas, ressaltar questões particulares da comunidade LBGTQ e introduzir o espectador leigo a esse universo.

Uma das maiores sacadas dos criadores é apostar na diversidade. Todos os personagens da trama, apesar de carregarem estereótipos, representam a pluralidade de gente, caráter, pensamento e empatia que há na comunidade, especialmente no Brasil. As Super Drags apresentadas em moldes semelhantes as “Três Espiões Demais” e “Meninas Super Poderosas” transportam bem mais do que seus poderes. Elas trazem referências e quebram paradigmas. É divertido poder ver em tela e identificar-se com as gírias nordestinas de Donizete ou pegar as citações a animes que Ralph sempre faz ou ainda compreender as complexidades que Patrick tem em relação ao seu corpo.

“Super Drags” tem traços interessantes que dialogam com as animações dos anos 2000, as quais se tornaram ícones da cultura LGBTQ. Além de presentear o público com o que há de melhor na internet brasileira: nossos memes. Soma-se a isso o espaço que abre para outras produções do gênero e para que outros públicos possam conhecer mais não só padrões e gírias, mas também os problemas corriqueiros do nicho, como os subempregos, a não aceitação familiar, entre outros.

Embora tenha seus percalços, assistir “Super Drags” é como fazer uma viagem no tempo e contemplar como o Brasil ainda tem muito a oferecer no mercado audiovisual.

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