Há uma sequência que poderia ter sido a salvação de “The Cloverfield Paradox”: Mundy (Chris O´Dowd) está fazendo um reparo em uma área da nave quando, de repente, o braço acaba sendo engolido pela parede. Depois de muita luta, ele escapa aliviado, mas, com um detalhe: o braço sumiu. Os três minutos seguintes são de um nonsense delicioso de tão ridículo.

A produção lançada pela Netflix de forma surpreendente após o término do Super Bowl 2018 podia se agarrar no melhor do filme B com muito sangue e humor barato para divertir o público. Infelizmente, a busca por se levar à sério demais faz o filme apostar nos clichês mais previsíveis da ficção científica com terror ambientados no espaço, ou seja, um filhote mal-acabado de “Alien”.

“The Cloverfield Paradox” começa mostrando a Terra enfrentando um grave problema energético que ameaça o equilíbrio entre as nações. A salvação é no espaço com um grupo de astronautas em busca de uma fonte ilimitada de energia. As coisas se complicam quando o planeta desaparece em uma das tentativas, deixando a tripulação desnorteada. Situações estranhas, porém, começam a acontecer envolvendo novas dimensões e mundos paralelos.

Mesmo apostando em modinhas, “Cloverfield” sempre soube se utilizar muito bem dos artifícios propostos para trazer novidades. Seja colocando um filme de monstros gigantes no formato found footage (primeiro “Cloverfield”) ou com as ótimas atuações de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead dando consistência ao suspense (“Rua Cloverfield 10”). Decepciona ver “Paradox” ser tão preguiçoso e não trazer nada de novo para o subgênero dos filmes espaciais e do próprio terror.

Logo de cara, é possível identificar quem vai morrer e viver, os vilões e todos os estereótipos possíveis e imagináveis. O elenco com personagens de diversas regiões do mundo e falando vários idiomas sugere representatividade e diversidade, porém, tudo vai por água abaixo pelo roteiro da dupla Oren Uziel (“Anjos da Lei 2”) e Doug Jung (“Star Trek: Sem Fronteiras”) ser incapaz de desenvolver minimamente qualquer um deles caindo nos velhos clichês.

Temos o russo sempre a ponto de fazer uma loucura, o irlandês engraçadão, o alemão inteligente e misterioso (Daniel Bruhl, aliás, pagando os pecados e boletos aqui), a chinesa corajosa, mas, em eterno estado de dúvida, o americano herói (David Oyelowo sentindo saudades da Ava DuVernay) e o nosso representante brasileiro sendo o religioso e, por vezes, bundão da parada. Isso para não falar da loura misteriosa que você nem precisa pensar muito para saber o que ela fará mais adiante. Quem se salva um pouquinho mais é a inglesa interpretada pela ótima Gugu Mbatha-Raw que faz o possível para dar dignidade e densidade dramática com o que pouco oferecido pela trama.

Não bastasse o roteiro pobre, o nigeriano Julius Onah não se mostra um diretor dos mais criativos na construção das cenas de ação e, no máximo, consegue entortar e sair correndo com a câmera para dar uma agilidade ao que vemos. A exceção fica pela bela sequência fora da nave com um desfecho trágico em que consegue dimensionar bem o tamanho da complexidade da operação dos astronautas.

A total falta de criatividade do design de produção para fazer algo que não fosse utilizar os restos dos cenários de “Star Trek”, “Alien: Covenant” e do episódio “USS Callister”, de “Black Mirror” e o uso abusivo da trilha sonora e efeitos sonoros que nos faz agradecer do filme não ter sido lançado nos cinemas são os principais problemas técnicos da produção.

“The Cloverfield Paradox” se assemelha ao péssimo “Vida” do ano passado. Sorte que a estratégia da Netflix da estreia surpresa funcionou e não deixou este filme fraquíssimo ganhar o que merece: a irrelevância.

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