O poder de um clássico está, em alguns dos casos (na maioria deles?), no poder dele de alterar a forma como se torna visto com o passar do tempo, por pessoas de diferentes gerações. Assim que foi lançado, Trainspotting, segundo longa-metragem do britânico Danny Boyle, foi visto como um filme que fazia apologia às drogas, às contravenções, além de soar controverso e afetado para alguns críticos e espectadores.

A cena de Ewan McGregor entrando privada adentro na busca por um supositório, logo no início do filme, já era um cartão de visitas que desagradava certas pessoas.

Hoje em dia, há educadores que utilizam o trabalho para exibir aos jovens como um exemplo do que é uma jornada autodestrutiva, que Renton é uma pessoa que teve atitudes criminosas durante a sua trajetória, mas que no final entendeu que aquilo não garantiria para ele um futuro satisfatório, e abandonou o vício enquanto havia tempo, diferente dos seus colegas que se afundaram nele.

Porém isso parece uma maneira incorreta de analisar o filme hoje em dia. Trainspotting só cresceu com o passar dos anos, só teve as suas camadas mais expandidas, e o julgamento que era feito de que o filme aparentava desleixo, ou imperícia da sua equipe artística, deu lugar a um culto e enorme respeito aos conceitos artísticos e técnicos desenvolvidos pela equipe de maneira brilhante.

Muito além da impactante experiência audiovisual que Trainspotting propõe, este é um filme, baseado no livro homônimo de Irvine Welsh, que expõe um lado furioso de uma juventude que não se conecta com a geração dos seus pais, não consegue se imaginar seguindo uma rotina de 8 horas diárias de trabalho seja ele qual for, que não quer se sentir obrigada a escolher um caminho só na vida, e que quer ter o direito de não se preocupar com nada disso e curtir a vida da maneira mais intensa possível. A expressão trainspotting significa um passatempo que não tem serventia, uma perda de tempo que não serve para nada, assim como a rotina do grupo.

O personagem principal, Renton, interpretado por Ewan McGregor, é um garoto que vive dessa forma. Como já diz na antológica sequência de abertura, há muitas coisas que escolhemos ter ou ser a partir do ponto de vista capitalista que vivemos. Nos pegamos fazendo planos para comprar uma casa nova, um carro novo, televisão, ter um melhor emprego, e mais uma infinidade de utensílios e serviços. Mas porquê todos deveriam seguir isso? Ainda mais quando se tem uma válvula de escape capaz de te proporcionar emoções tão intensas, que faz tudo o resto parecer menor. Essa válvula de escape é a heroína, e é a partir dela que começa a jornada de autoconhecimento do personagem.

Sei que pode parecer para algumas pessoas que Trainspotting não possui essa “jornada”, mas se olharmos com os olhos certos, ela se torna bem clara. Renton quer viver de maneira intensa e autodestrutiva, e não ter nenhum tipo de responsabilidade. Mas ele é um garoto inteligente, e sabe que vai chegar um momento em que o mundo vai exigir dele algum tipo de posicionamento e postura, e que permanecer na autodestruição não significa mais ser diferentão e contestador, mas sim ficar estacionado, esperando passivamente o efeito devastador do tempo.

E quando esse dia finalmente chega, ele abraça o estilo de vida que tanto criticara, meio que para permanecer de novo contra a maré. Ele entende que a coisa mais revolucionária que ele poderia fazer é conseguir uma grana, e ir em busca da satisfação material, assim como quase todo mundo faz, e que é isso que o faz permanecer em movimento, até que a próxima reviravolta precise acontecer.

É claro que pelo meio do caminho Renton se enfia em situações contraditórias, que em alguns momentos nos embaralham a cabeça, mas a jornada é claramente essa. A questão é que o filme não toma partido de nada, nem da vida frenética repleta de excessos, nem que tudo termina bem porque Renton ascendeu. Está mais para a ambiguidade e cinismo de Clube da Luta do que para o maniqueísmo de Réquiem Para Um Sonho. E é importante lembrar que Trainspotting veio antes dos dois, e muito provavelmente serviu como referência (nem que seja temática ou estilística) para ambos.

Mas além de uma narrativa instigante e provocadora, Trainspotting tem méritos quase miraculosos da sua equipe técnica. Não lembro de um filme que tenha conseguido uma coesão tão extraordinária de fotografia, montagem e trilha sonora, nesse gênero cinematográfico, quanto a do trabalho Danny Boyle. Em seu apenas segundo longa o diretor conseguiu um resultado tão seguro e acachapante, que confesso que não consigo dizer se os envolvidos no projeto tinham dimensão da grandiosidade do que fizeram enquanto estavam realizando o filme.

Boyle permaneceu como um diretor interessante, que vale a pena ser acompanhado, mas que nunca nem chegou perto de repetir o que conseguira aqui. A direção de Trainspotting é diferenciada, com um domínio de tempo e ritmo poucas vezes vista no cinema. As principais escolhas do diretor são ousadas e provocativas, mas ao mesmo tempo sempre coerentes a uma ideia muito clara, que é a de adentrar num universo marginal, que não se permite ser enquadrado em conceitos pré-estabelecidos de bom gosto ou filme de arte. É uma outra proposta, que pode ser tão rica e desconcertante quanto qualquer outra, desde que haja um artista com sensibilidade por trás de tudo.

E o que dizer do elenco? McGregor, o mais bem sucedido posteriormente entre todos, entrega nuances riquíssimas para Renton. É possível vermos as suas inseguranças e medos por detrás da figura agressiva e inconsequente que ele aparenta, mas durante a sua trajetória vemos um garoto se tornar um homem. Um homem de caráter duvidoso, sem dúvida, mas ainda assim uma pessoa mais madura e com mais camadas, bem diferente do jovem chapado. Sem dúvida a maior atuação da carreira do ator, que emplacou grandes sucessos até, mas nunca uma atuação tão completa.

Além dele, temos um Robert Carlyle assustador como Begbie, impondo uma energia impressionante ao personagem, que realmente soa imprevisível tamanha é a sua agressividade. Jonny Lee Miller e Ewen Bremner como Sick Boy e Spud, respectivamente, completam de maneira fantástica o grupo. O primeiro é uma espécie de versão mais sociopata de Renton, tendo claramente um lado mais sombrio e perigoso por trás daquela figura descolada. Enquanto Spud vai muito além da ideia do viciado esquisitão estereotipado, e cria um ser humano de verdade, aliás, o mais humano do grupo, o que ainda possui alguma empatia pelo outro, numa atuação que seria uma armadilha perigosíssima para atores menos talentosos.

Repleto de cenas memoráveis, Trainspotting é o tipo de filme raro que enxerga potência nas situações menos ortodoxas, que rompe, que não se intimida pela mediocridade e pelo senso comum. Um filme fundamental, que ainda tem muito a dizer para as próximas gerações.

Facebook Comments