Eu jamais vou esquecer aquele momento.

Viaje no tempo comigo, leitor: 1989, tarde de domingo no centro de Manaus. Fui ver Batman de Tim Burton com toda a minha família. Foi no Cine Chaplin e a sala estava lotada, com gente sentada até no chão dos corredores – algo impensável hoje e bem inseguro, se você pensar um pouco. Quando o herói passou voando em sua nave pela tela, rumo à Gotham para acabar com o desfile do Coringa, o cinema veio abaixo. Gritos e aplausos. Eu tinha 10 anos e nunca visto nada parecido. Aquele era o melhor filme do mundo.

Corta para quase 30 anos depois: sessão de cinema de Vingadores: Ultimato (2019). Dia da estreia. Sala também lotada, mas o mundo tinha mudado: agora era um cinema de shopping, e a sala era bem maior que aquela dos anos 1980. Não tinha ninguém sentado no chão – ainda bem. Porém, na hora final, de novo presenciei um cinema vindo abaixo. Aliás, mais de uma vez. Como numa final de Copa do Mundo.

É curioso notar como o segundo momento, por mais especial e intenso que tenha sido, só existiu em parte por causa do primeiro. Afinal, foi Batman que abriu os olhos de Hollywood para o potencial dos blockbusters de super-heróis, embora seu efeito não tenha sido imediato. Afinal, o cinema ainda precisava de mais tempo para conseguir retratar os personagens de histórias em quadrinhos e suas façanhas de modo mais convincente.

Seu marketing e o impacto que teve também se tornaram paradigmas a serem seguidos pela indústria – afinal, os jovens de hoje podem não ter noção disso, mas, em 1989, Batman estava EM TODOS OS LUGARES. Não se podia fugir do filme mesmo em uma época sem internet. Hoje, estamos acostumados com filmes-eventos; naquela época nem tanto.

OS NOMES POR TRÁS DO SUCESSO

Se por um lado, hoje Batman parece em alguns aspectos um filme à frente do seu tempo, são seus riscos e pequenas idiossincrasias que o tornam diferente da maioria dos espetáculos hollywoodianos de hoje. Para começar, foi um projeto gerado em meio a enormes dúvidas: o estúdio Warner Bros. apostou sem garantia de retorno, pois, “filme baseado em HQ” ainda era uma grande incógnita.

O outro grande super-herói da Warner/DC, o Superman, aos poucos viu sua carreira no cinema minguar. E as pessoas ainda tinham muito na mente a imagem do Batman colorido e cômico da série de TV dos anos 1960. Tanto que o projeto de um filme do Homem-Morcego demorou uma década para acontecer e foi o produtor Michael E. Uslan que não deixou a coisa morrer durante esse tempo todo.

E o filme só acabou saindo mesmo porque Uslan e o produtor Jon Peters – uma figura lendária e estranha de Hollywood, que vale pesquisar sobre – conseguiram um astro para ancorar o projeto: Jack Nicholson aceitou viver o vilão Coringa e, esperto que só ele, reconheceu para onde o vento ia soprar e aceitou uma porcentagem das bilheterias em vez de um cachê fixo. Acabou ficando multimilionário por causa do seu trabalho em Batman.

Nicholson também acreditou no diretor, Tim Burton – na época um rapaz de 30 anos que tinha feito uns curtas animados e dois longas que foram bem nas bilheterias, apesar do tom estranho e personagens esquisitos: A Grande Aventura de Pee Wee (1985) e o já clássico Os Fantasmas se Divertem (1988). Detalhe: Burton não gostava de HQs.

Para dizer a verdade, não dava a mínima por elas, mas pegou a propriedade Batman justo na época da revolução dos quadrinhos do fim dos anos 1980, quando o próprio Homem-Morcego estava na ponta dessa transformação com a publicação de O Cavaleiro das Trevas e Ano Um, de Frank Miller, e A Piada Mortal, de Alan Moore. As obras, inclusive, foram uma das inspirações para o Coringa do filme – com uma pitada da versão da série de TV incluída na mistura, claro.

Por mais que Burton não se interessasse por HQs, sua sensibilidade gótica casou com o projeto, e por isso – e pelo estilo visual dos seus filmes anteriores – ele se mostrou uma escolha de direção inspirada. Dirigir Batman foi uma decisão esperta que beneficiou muito a sua carreira e acaba que seu estilo característico está bem presente no longa – o que nem sempre ocorre nos blockbusters sem personalidade do século XXI.

Burton também trouxe seu ator de Fantasmas, Michael Keaton, para viver o herói. E ainda bem que não havia internet na época, porque todo mundo odiou a escolha do baixinho de 1,75 metro. Eu não dei a mínima: para mim, ele era o cara mais legal do mundo.

Ainda hoje sou fã e até o acho um ator meio subestimado, um daqueles que até pode aparecer em um filme ruim de vez em quando, mas que nunca vimos entregar uma atuação ruim. Hoje, sua escalação parece precursora de outras escolhas incomuns para viver heróis, como as de Tobey Maguire para “Homem-Aranha” ou até de Daniel Craig para James Bond.

HISTÓRIA SIMPLES, VISUAL ARREBATADOR

Em termos de história, Batman é muito simples: há um herói, um vilão e o mundo onde eles batalham. Ao invés de contar a origem do herói, o filme já começa com o Homem-Morcego agindo na espetacular Gotham City concebida pelo designer de produção Anton Furst – indicado ao Oscar pelo trabalho. Gotham é uma personagem à parte, talvez a maior do filme, um pesadelo gótico meio moderno, meio anos 1940, onde os homens andam de sobretudo e chapéu, mas, ao mesmo tempo, se ouve Prince nas rádios.

Sem dúvida, é o visual que chama atenção em Batman. E isso inclui o herói, com sua armadura preta que transmite a força imagética que o magrinho Keaton, por melhor ator que fosse, não conseguiria transmitir – infelizmente, ele não consegue mexer o pescoço, claro. Só Christian Bale seria o primeiro Batman do cinema a ter esse privilégio. Keaton, no entanto, é um Bruce Wayne perfeitamente em sintonia com a proposta: um sujeito com um ar de maluco que convence como alguém capaz de sair à noite vestido de morcego, coisa que nem todos os sucessores dele no papel conseguiram.

Não é o Batman dos quadrinhos; é o Batman de Burton e demorou um pouco para as pessoas fazerem essa distinção. Afinal, este Batman mata a torto e a direito. Acha a versão do Zack Snyder sombria? Conte, então, quantos capangas do Coringa morrem ao longo deste filme.

Mas a partir da entrada em cena do Coringa, quando o vilão Jack Napier cai no tanque de produtos químicos, o filme é de Jack Nicholson, sem sombra de dúvida. Burton se mostra visivelmente enamorado pelo seu vilão e seu astro – ele claramente gosta mais do Coringa e do seu desejo de ser um “artista homicida” do que do seu herói repressor.

Estaria o diretor expressando um conflito através do personagem, confrontando seu desejo de criar arte com o fato de estar trabalhando num blockbuster com o qual não tem conexão pessoal? Pode ser que ele tenha resolvido esse conflito, pois, em anos recentes, passou a fazer justamente isso, colocando seus tiques e o seu estilo – hoje já bem diluído – a favor de projetos de estúdio. Mas naquela época, início da carreira, ele poderia sentir esse dilema mais fortemente. Mas divago…

No duelo dos dois caras malucos, Coringa e Batman, fica no meio a mocinha Vicki Vale (Kim Basinger) que até começa como uma personagem interessante, mas vira uma máquina de gritos quanto mais o filme avança. Ela é a voz da razão na história e Burton não se esquece de todo, mas a personagem sofre pelas inconstâncias do roteiro, creditado a Sam Hamm e Warren Skaaren – Hamm disse, anos depois que, do meio para o fim, o filme não segue mais o roteiro dele. Algumas coisas foram mudadas durante as filmagens, por isso, na segunda metade do filme temos a constrangedora cena em que o Alfred (Michael Gough, perfeito) deixa Vicki entrar na batcaverna, com direito até a uns diálogos cafonas.

MEMÓRIAS ETERNAS

No quesito roteiro, Batman não é perfeito. Nem as suas cenas de ação e seus efeitos, que hoje parecem bem básicos para qualquer espectador de filmes hollywoodianos dos últimos anos – Burton não tinha lá muito interesse em filmar ação, também. Mas é o visual, e o clima maluco, que o tornam ainda hoje um filme prazeroso e marcante.

Claro, até a atuação de Jack Nicholson já perdeu um pouco do seu lustre – o Coringa continua divertido, mas há momentos de inegável exagero no trabalho do ator, que recebeu rédeas soltas demais do seu diretor.

Mas o duelo entre Batman e Coringa mudou Hollywood para sempre. E também deixou marcas em uma geração de espectadores que cresceram com esse filme. Em sua época, ele explodiu cabeças: vê-lo era sentir que estávamos adentrando território inexplorado. Batman era a ponta de um iceberg e queríamos mais.

Ainda hoje, a trilha sonora bombástica de Danny Elfman provoca arrepios. Ainda hoje, a apresentação do Batman, a introdução do Coringa, a visão do Batmóvel e o clímax no desfile e na catedral arrepiam. Eu ainda me arrepio a cada revisão, e foram muitas ao longo dos anos. Essas imagens estão gravadas na retina de fãs de cinema do mundo todo.  E lá ficarão.

Porque em filmes, ninguém lembra muito da história com o passar dos anos: são as imagens e as emoções que ficam. Parafraseando Roy Batty em Blade Runner (1982), outro filme que colocou um universo incrível na tela: “em 1989, eu vi coisas que vocês não acreditariam”…

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