Estamos chegando ao fim… A quinta e penúltima temporada de Better Call Saul começa a sua exibição na Netflix com dois episódios, o 5×01 “Mago” e o 5×02 “50% de Desconto”. Ver essa dobradinha de episódios confirma que as peças estão começando a se alinhar no tabuleiro e os destinos de figuras como Jimmy McGill, Mike Ehrmentraut e Gus Fring estão se encaminhando para a época de Breaking Bad.

Outra coisa que dá para se constatar é… Nossa, como essa série fez falta. A quarta temporada foi lançada em 2018, foi um hiato muito grande… É muito bom estar de volta ao “Albuquerqueverso”…

“Mago” abre, como sempre ocorre no início das temporadas, com um segmento em preto-e-branco ambientado pós-final de Breaking Bad. O ex-Saul, ex-Jimmy, agora vive como “Gene” num estado de paranoia, desencadeado pelo segmento em P&B anterior, a abertura da quarta temporada. A paranoia dá lugar a um relaxamento, mas Saul (Bob Odenkirk) é reconhecido. Ao invés de fugir – o que ele quase faz, telefonando novamente para Ed, o vendedor de aspiradores numa bela e bemv-inda ponta do falecido Robert Forster, provavelmente gravada na mesma época de suas cenas para El Camino (2019) – ele decide ficar e resolver o problema por conta própria. Essa resolução vai envolver mais uma reinvenção de um personagem cuja trajetória sempre se relacionou com a sua identidade própria? Saberemos em 2021…

É um episódio de definição para vários personagens. Lalo Salamanca (Tony Dalton) continua sentindo as vibrações estranhas sendo emanadas por Gus (Giancarlo Esposito). E após ter sujado as mãos matando um sujeito legal no final da temporada anterior, Mike é outro que chega a um conflito com Gus. Mas eles vão romper mesmo? Dada a proximidade dos personagens em Breaking Bad, é provável que não, o que explicita o tema principal do episódio: Podemos ter nossos princípios, mas até que ponto nos agarramos a eles face às circunstâncias que a vida nos apresenta?

O dilema também é enfrentado por Kim (Rhea Seehorn). Com o diabinho do Jimmy/Saul lhe sussurrando no ouvido, ela se agarra aos seus princípios, mas os descarta depois na magistral cena final do episódio, depois que Jimmy se afasta. Depois ela desaba, sozinha… Sabemos qual o destino do Jimmy, mas não qual será o dela. Atualmente na série, a maior tensão dramática vem do que pensamos que poderá acontecer com a Kim, por isso momentos como o final de “Mago” se mostram tão fortes. Torcemos por ela, mas no cabo de guerra entre Jimmy e seus princípios, ela pode muito bem acabar sendo uma baixa.

O único que não está em conflito com seus princípios é Jimmy, que neste episódio muda o nome no seu registro de advogado para Saul Goodman de vez e, em mais uma cena antológica de montage da série, é visto numa tenda de circo atendendo a sua clientela de pequenos criminosos, com direito a distribuição de celulares e cartão. Com o Huell (Lavell Crawford) do lado de fora, organizando a fila! Saul vive: De fato, ele acabou de nascer.

‘JUSTIÇA MAIS BARATA’

Já em “50% de Desconto”, o segundo episódio, a justiça passa a ficar mais barata quando Jimmy, agora Saul, promete abater metade dos seus honorários para clientes que cometerem pequenos delitos nos próximos dias. O que leva a outra sequência divertidíssima, com dois marginais embarcando numa onda de pequenos roubos, drogas e hip hop. “50% de Desconto” é mais divertido (e tenso) que seu predecessor, mas é até melhor, comprovando que a produção da série já atingiu um nível realmente de excelência.

Nele, pequenos toques levam a grandes desenvolvimentos. No guarda-roupa do casal, os ternos chamativos de Saul começam a ocupar espaço sobre as roupas de Kim. A crise de Mike atinge massa crítica: o ódio de si mesmo pelo que fez com Werner e por ter virado capanga de Gus leva-o a explodir com sua netinha – o que nunca tinha ocorrido antes – depois de uma mísera perguntinha. E um problema besta de encanamento leva Nacho a se arriscar com a polícia para se aproximar de Lalo, agindo como agente duplo de Gus – Nacho, coitado, nunca teve sorte na série…

E em mais um exemplo de pequeno incidente levando a algo grande, temos o último ato do episódio, quando vemos Jimmy negociar a justiça com a assistente da promotoria após o elevador pifar. De todos os personagens da série no momento, ele é o único que está se divertindo: Jimmy achou seu lugar, adotou um alter ego, se reinventou, se livrou da sombra do irmão de vez. Pagou um alto custo por isso, mas ainda não se dá conta. Talvez isso ocorra em breve, como o final do episódio parece apontar…

Tudo isso é mostrado com a costumeira atenção da série para enquadramentos criativos e simbolismos brilhantes: Kim na escada, se recriminando, literalmente entre a subida ou a decadência em “Mago”; a rima visual do anão do jardim com o sorvete caído no chão em “50% de Desconto”; a montagem precisa na cena de Nacho invadindo o apartamento… Todos os aspectos visuais da série se coadunam para transmitir a vida interior dos personagens. Por tudo isso, a quinta temporada de Better Call Saul já chega “chutando o balde”, à medida que começamos a entrar na reta final do seriado. As emoções estão mais fortes e os acontecimentos, mais impactantes, à medida que os personagens começam a ficar cada vez mais presos nos seus próprios becos sem saída. Até o Jimmy… Ele ainda não percebe, mas já deu os primeiros passos para adentrar no seu. Por enquanto, ele está só se divertindo…

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