Para quem assiste muitos seriados sempre existe aquela produção que pode até não apresentar uma trama totalmente envolvente, mas possui um padrão de qualidade consistente. Com um humor ágil e ótimas referências, este se tornou o caso de ‘Cara Gente Branca’ para mim, gerando assim uma alta expectativa a cada nova temporada. Pode-se pensar então na minha surpresa ao assistir a terceira temporada e me deparar com uma narrativa cansativa, repetitiva e sem uma trama principal para guiar seus personagens que, apesar de muito carismáticos, são totalmente limitados.

Considerando todos estes fatores, o principal problema desta temporada é a falta de continuidade da trama anterior. No final da segunda temporada, Sam (Logan Browning) e Lionel (DeRon Horton) são apresentados à Ordem e tudo indica o envolvimento de ambos nesta organização. Neste ano, esse desenvolvimento é esquecido até o sétimo episódio, onde o grupo volta a sondar os protagonistas e é quando, finalmente, vemos uma trama central unir seus personagens.

LEIA TAMBÉM: Crítica da Primeira Temporada de “Cara Gente Branca”

Até isto ocorrer, cada personagem ganhou novos objetivos pessoais, o que acaba sendo bem positivo para cada um evoluir durante a narrativa. Entretanto, a falta de Sam à frente de uma trama mais urgente é totalmente sentida neste início de temporada, chegando a entediar o espectador pelo excesso de histórias com ausência de verdadeiro protagonismo já que grande parte dos personagens se encontra preso a uma situação ou pessoa.

Apesar destes problemas na construção dos roteiros, “Cara Gente Branca” ainda apresenta boas interações. Desta vez, a trama racial é deixada um pouco de lado para que reflexões sobre gênero sejam realizadas e, neste quesito, a série acerta de verdade. Tanto a vivência LGBT+ trazida por Lionel quanto os questionamentos feitos por personagens femininas como Joelle (Ashley Blaine Featherson) e Coco (Antoinette Robertson), o debate sobre gênero é realmente bem aprofundado.

SINA DA 3ª TEMPORADA?

Olhando pelo lado positivo, existem elementos louváveis da série que voltam a se destacar. Um dos mais importantes neste quesito são as referências à cultura pop e até mesmo a outros seriados, escolha que rende momentos divertidos e críticas consistentes a produções como ‘The Handmaid’s Tale’, por exemplo.

A direção de fotografia também é um atrativo a mais do seriado. A câmera atenciosa sempre captura o ambiente da universidade como grande parte da construção narrativa, como se ela falasse que os personagens são construídos a partir deste ambiente. Esta cumplicidade com a câmera também é utilizada para aqueles momentos em que os personagens olham diretamente para ela como se buscassem falar com o espectador.

Na maior parte da temporada, esta construção simbólica de cenas é muito mais presente no desenvolvimento de tramas do que diálogos propriamente ditos. Neste caso, isto se torna uma grande perda para os momentos fortes da temporada, pois, assim como no ano anterior, as cenas dramáticas são deixadas de lado com ressalva para um único momento em que Reggie (Marque Richardson) novamente se torna responsável por protagonizar momentos mais sérios e decisivos na produção. E, apesar da personagem ser bem-sucedida neste quesito, o espectador está vendo a reciclagem de um recurso já utilizado em “Cara Gente Branca”.

LEIA TAMBÉM: Crítica da Segunda Temporada de “Cara Gente Branca”

Encerrando o copilado de más escolhas, a terceira temporada é finalizada com o mesmo gancho que seu ano anterior. Apesar de 10 episódios se passarem, praticamente nada avança sobre a trama da Ordem e, nem o público, nem os personagens sabem se esta organização é benéfica ou não para os alunos da universidade.

Ironicamente, ‘Cara Gente Branca’ fala mal de terceiras temporadas em séries da Netflix, protagonizando o mesmo defeito que qualquer outra produção. Considerada uma das grandes obras do streaming, o declínio na narrativa e nos roteiros pode ser apenas um lapso passageiro, mas, com tantas séries de qualidade sendo canceladas, não é nada improvável que ela seja a próxima da lista.

‘O Caso Evandro’: uma narrativa macabra repleta de reviravoltas

São poucas histórias factuais com tantas reviravoltas a ponto de serem mais interessantes e impressionantes do que as narrativas de ficção. A série documental “Caso Evandro”, disponível na Globoplay, entretanto, apresenta um conto revelador sobre um Brasil repleto de...

‘The Underground Railroad’: comovente luta pela liberdade e contra o racismo

É muito difícil encontrar uma adaptação audiovisual de um livro que consiga superar a obra original. “The Underground Railroad”, entretanto, não apenas alcança este feito como também atribui novas perspectivas ao romance homônimo escrito pelo premiado Colson...

‘O Legado de Júpiter’: Netflix perde o bonde para ‘The Boys’

Levando em conta todo o conteúdo de super-heróis disponível hoje no terreno das séries de TV e streaming – e é bastante – ainda há muito espaço para o heroísmo, digamos, tradicional: embora brinquem com formatos e gêneros e adicionem algumas complexidades aqui e ali,...

‘Them’: ecos de ‘Poltergeist’ em incômoda série sobre racismo

No começo da década de 1980, Steven Spielberg e Tobe Hooper lançaram Poltergeist: O Fenômeno (1982), que acabaria se tornando um pequeno clássico do terror ao mostrar uma típica família norte-americana de um subúrbio californiano aparentemente perfeito enfrentando...

‘Falcão e o Soldado Invernal’: legado do Capitão América vira dilema da própria Marvel

ATENÇÃO: O texto a seguir possui SPOILERS de “Vingadores: Ultimato”. Histórias de super-heróis de quadrinhos são, por definição, otimistas. Por terem sido orginalmente criadas como fantasias infanto-juvenis, o otimismo faz parte de seu DNA: há um herói, há um vilão, o...

‘Os Irregulares de Baker Street’: Sherlock mal tratado em série péssima da Netflix

Sim, lá vamos nós para mais uma adaptação das obras de Arthur Conan Doyle. A Netflix, por exemplo, mantém uma linha de produção na qual não aborda exatamente a figura de Sherlock Holmes, mas sim, personagens ligados a ele. Após o sucesso de ‘Enola Holmes’ é a vez dos...

‘Small Axe: Educação’: ensino como instrumento de luta racial

Chegamos ao último episódio de “Small Axe”, série antológica dirigida por Steve McQueen (“12 Anos de Escravidão”). Intitulado “Educação”, o capítulo final narra um conto infantil carregado de incompreensões, racismo e a luta por uma educação inclusiva. O diretor, que...

‘Small Axe: ‘Alex Wheatle’: quando se encontra o senso de pertencimento

Duas coisas se destacam em “Alex Wheatle”, quarto episódio da série antológica “Small Axe”: a construção visual e o protagonista. Ao longo das semanas, tenho destacado o trabalho do diretor de fotografia Shabier Kirchner. Seja por sua câmera sensível em “Os Nove do...

‘Small Axe: Vermelho, Branco e Azul’: Boyega contra o racismo policial inglês

Em “Small Axe”, chegamos à semana do episódio que rendeu a John Boyega o Globo de Ouro de Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme. Intitulado “Vermelho, Branco e Azul”, justamente as cores presentes na bandeira do Reino Unido, acompanhamos a saga de Leroy Logan...

‘Por Trás dos Seus Olhos’: imperdível thriller psicológico eletrizante

O quão longe você iria para ter o amor de alguém? Existem escrúpulos na busca pela vida perfeita com quem se ama? Esses são alguns questionamentos levantados pela minissérie da Netflix ‘Por trás de seus olhos’. Baseada no romance homônimo de Sarah Pinborough, a...