Com a responsabilidade de adaptar lendas do folclore brasileiro para um cenário urbano para atingir um público global, Carlos Saldanha (‘Rio’ e ‘Touro Ferdinando’) cria em ‘Cidade Invisível’ um suspense policial fácil de ser consumido em um streaming como a Netflix. Com formato mais curto que outras séries nacionais da plataforma, a nova produção simplifica seu roteiro, deixando uma história cheia de furos e atalhos ao mesmo tempo em que consegue render um entretenimento eficiente. 

A história acompanha o detetive Eric (Marco Pigossi) lidando com a morte suspeita de sua esposa Gabriela (Julia Konrad) em um incêndio florestal. Ao retornar para o trabalho, ele decide investigar o assassinato e se depara com uma comunidade repleta de criaturas míticas, chamadas de entidades pela população local. 

A trama é contada inicialmente de forma linear e, aos poucos, insere as histórias de origem de cada uma das entidades. Assim, nos dois primeiros episódios, não existem grandes novidades para o público já que o início de ‘Cidade Invisível’ apenas estabelece os conflitos iniciais de forma bem básica. Eric, por exemplo, é o arquétipo de um policial que passa por um trauma e é descredibilizado ao voltar para o trabalho. 

Fora a pouca atenção aos personagens secundários na trama, o roteiro também apresenta alguns atalhos para justificar situações. O grande problema disto é a obviedade presente nesse elemento: são caminhos que dizem respeito somente a uma solução específica e concluída rapidamente sem efeitos maiores no restante da história. A identidade do pai de Eric surge como uma importante revelação, porém, acaba ignorada mais adiante. O próprio vilão principal, Corpo-Seco (Eduardo Chagas) passa por essa situação, pois, pouco é revelado sobre si mesmo com a grande responsabilidade de antagonista que lhe é dada. 

O FOLCLORE BRASILEIRO 

Indicado duas vezes ao Oscar em categorias de animação – Melhor Filme de Animação com ‘Touro Ferdinando’ (2018) e Melhor Curta-Metragem de Animação por ‘A Aventura Perdida de Scrat’ (2004) – Carlos Saldanha não é somente um mestre neste setor como também se tornou uma referência em Hollywood em mostrar o Brasil para o exterior do ponto de vista turístico como foi visto na franquia ‘Rio’. Assim, as lendas apresentadas em ‘Cidade Invisível’ são explicadas de forma prática, mas interessante e misteriosa. 

Além de cada entidade ter sua devida construção narrativa com a explicação de origem e poderes, o que realmente impressiona positivamente é a adaptação de elementos na construção visual. Isac (Wesley Guimarães), também conhecido como Saci, não tem um gorro vermelho tradicional, mas sim, uma espécie de bandana a qual desempenha a mesma função, seu próprio nome é um anagrama para sua entidade, da mesma forma que o nome do Boto Cor-de-Rosa é Manaus, remetendo a região Norte e à origem da lenda. 

OPORTUNIDADE PERDIDA 

Por outro lado, a pequena menção à região Norte do país e uma tímida aparição de atores indígenas (os quais nem sequer têm falas) não são suficientes para deixar claro a origem de tais lendas e da própria construção do folclore brasileiro. Como já ficou provado em ‘Bandidos na TV’, a Netflix possui meios para filmar suas produções fora do Sudeste, mais ainda, tem também condições de acompanhar a cantora Anitta em sua série de shows pelo Brasil e exterior como foi visto nas produções ‘Vai Anitta’ e ‘AnittaMade in Honorio’.  

Mas, mesmo com a possibilidade de filmar em locais mais condizentes com o tema proposto, ‘Cidade Invisível’ fragmenta o Rio de Janeiro em três cenários: o turístico, o pobre através de uma ocupação e o místico da comunidade Vila Toré, local habitado pelas entidades. 

Essa escolha, além de ser pouco prática para narrativa – sendo preciso até inserir um rio numa cidade litorânea para justificar a existência da Iara e do Boto Cor-de-rosa – também exclui novamente o Norte da cultura brasileira, além de deixar no esquecimento a importância da cultura indígena na construção dessas histórias. Ou seja, ‘Cidade Invisível’ possui boas intenções e dá destaque ao tema ambiental na relação de construtoras e posse de terras florestais, porém, poderia ter dado maior visibilidade para questões ligadas ao folclore e suas origens. 

CLÍMAX DE ALTO NÍVEL 

Mesmo possuindo apenas 30 minutos, o último episódio da série consegue entregar um grande clímax. As simplificações no roteiro preparam o espectador para um confronto final, o qual é elevado pela ótima performance de Fábio Lago. Os caminhos que levaram seu personagem Iberê até o confronto com Eric, novamente, não possuem grandes complexidades, mas, é um bom momento para enaltecer a capacidade do elenco e o próprio carisma dos personagens. O elenco de forma geral funciona muito e, além de Fábio Lago, destaco Áurea Maranhão como uma revelação positiva ao interpretar um papel de pouco impacto na história e, mesmo assim, sempre ser facilmente notada em cena. 

Dentro do catálogo brasileiro na Netflix, a obra de Carlos Saldanha é uma adição valorosa, a qual pode até não ser uma série incrível, mas possui muitos momentos bons e marcantes. Com uma proposta cativante, ‘Cidade Invisível’ apresenta uma concepção mais interessante que o produto final, ou seja, no papel, ela é uma série muito importante para a cultura brasileira, porém, na prática, é mais um recorte bem excludente que, ao menos, não deixará tais lendas caírem no esquecimento. 

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