Lançado em 2012, o curta de ficção A Mão que Afaga da diretora baiana Gabriela Amaral Almeida se destacou em diversos festivais nacionais e internacionais. No Festival de Brasília daquele ano, faturou 7 prêmios candangos, inclusive, superou o longa-metragem vencedor da noite, o pernambucano Era Uma Vez Eu, Verônica de Marcelo Gomes.

Na categoria de curtas, o trabalho de Gabriela faturou os principais prêmios: atriz, roteiro, montagem para  Marco Dutra (que juntamente com Juliana Rojas, dirigiram um belo exemplar do horror nacional este ano, As Boas Maneiras) e melhor curta do júri popular e da crítica. Vale ressaltar, que de 2012 para cá, Gabriela Amaral escreveu roteiros para Dutra e Rojas, e este ano estreou na direção do terror O Animal Cordial.

A Mão que Afaga (clique aqui para assistir ao filme) conta a história de Estela (Luciana Paes, ótima por sinal), uma operadora de telemarketing solitária que mesmo falando com mais de “200 pessoas” por dia, tem sérios problemas de comunicação. Além de lidar com os desaforos dos clientes, ela precisa planejar o aniversário de 9 anos do filho Lucas de 9 anos com que mantém uma relação emocionalmente frágil.

A Mão que Afaga é um curta um tanto quanto inusitado. Gera o desconforto no espectador em seus 19 minutos por extrair o humor negro dentro do melodrama. Gabriela explora muito bem, a angústia, a solidão e a incomunicabilidade das relações. Sua narrativa não tem trilha sonora, os diálogos são diretos e simples e sua câmera praticamente oscila entre planos de proximidade demasiada – ampliando um sentimento de enclausuramento – e distanciamento excessivo – que proporcionam estranheza – para definir um ambiente de carência.

Neste ponto, a parte técnica do curta se destaca pela qualidade impecável. A fotografia, direção de arte e montagem traduzem para o espectador, o sentimento e a visão subjetiva de Estela frente ao ambiente, no caso sua inadequação e apatia. A opacidade presente nos cenários, como o local de trabalho e o apartamento de Estela, apenas expõem a artificialidade da vida da personagem. O ambiente mesmo colorido é predominado por cores neutras e nada vibrantes, apoiadas apenas por uma luz fúnebre que deixam os personagens quase tragados pelas sombras.  Os planos estáticos escolhidos por Gabriela ampliam a esquisitice, para dar um toque farsesco que combine com a tônica de humor negro da produção.  O curta, assim, constrói com bastante qualidade no aspecto visual, todo sofrimento da personagem.

Nota-se em A Mão que Afaga respira muito uma dramaticidade que se mistura ao horror surrealista e ao tragicômico, para discutir assuntos relevantes como o isolamento e a incomunicabilidade das grandes metrópoles. Observar-se, uma atmosfera com uma precisão eximia para o desconforto, ainda que sua estrutura realista permita um tom misterioso e assustadoramente tenso. Temos um curta que é praticamente divido em metade drama e a outra metade no humor, ironia e acidez, com diversos personagens melancólicos mergulhados em situações absurdas.

Estes elementos, serão facilmente identificados, para quem conhece o universo de filmes produzidos por Marco Dutra, Juliana Rojas e Gabriela Amaral. Dutra que é montador do curta escreveu com Juliana e Gabriela o roteiro de Quando Eu Era Vivo, lançado dois anos depois. Inclusive, A Mão que Afaga com sua temática e visual, é um parente próximo de Trabalhar Cansa (2011), primeiro longa-metragem de Roja e Dutra que também se apropriava de uma atmosfera de desconforto, personagens deslocados e com dificuldades para se encaixarem nos papéis sociais.

Mesmo que deslize pela repetição de situações e ideias na sua curta duração, A Mão que Afaga é ousado por provocar o riso nervoso no espectador e por mostrar o quanto somos frágeis nos nossos laços afetivos, reprimindo os desejos devido um controle emocional severo e pela rotina repetitiva. O desejo do toque, do afeto que é bem mostrado na última sequência do curta (e que explica seu título), deixa claro que muitas vezes você pode retirar da estranheza, a beleza de gestos simples para minimizar a profunda angústia e uma existência menos apática.