Um dos livros mais interessantes que li sobre cinema é Easy Riders, Raging Bulls: Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood. Aqui acompanhamos de que maneira uma série de jovens deslocados injetou vida na monótona indústria de cinema de Hollywood, inspirados em filmes europeus que quebravam a tradicional narrativa cinematográfica norte-americana. Nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, William Friedkin, Peter Bogdanovich, Dennis Hopper foram importantes para inserir a contracultura no cinema, conversando diretamente com uma geração inquieta, questionadora, com desejo de novas sensações e experiências.

E um dos filmes que criou espaço para a chegada de toda uma geração de novos cineastas foi Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, filme indispensável para se conhecer a Nova Hollywood.

Na trama, baseada em fatos reais, Clyde (Warren Beatty) é um assaltante que saiu da prisão há pouco tempo, quando encontra Bonnie (Faye Dunaway), uma moça que vive uma vida pacata, e que procura melhorar de vida, durante a Grande Depressão. Os dois se apaixonam e decidem, convencidos por Clyde, assaltar bancos por onde passarem, e assim sempre se manterem longe da polícia. Depois de cometerem uma série de crimes, eles recebem a companhia do jovem C.W. (Michael J. Pollard), e do irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman), e a sua esposa, Blanche (Estelle Parsons). Com a chegada dos demais, o grupo se torna ainda mais famoso, intitula-se “A Gangue Barrow”, e tornam-se procurados pela polícia de vários estados, causando revolta e admiração por onde passam.

Bonnie e Clyde é pura contravenção. Trata-se de um filme extremamente corajoso, muito à frente de seu tempo, com uma maturidade admirável. Ao contar a história de um grupo de criminosos, o diretor Arthur Penn opta por não fazer nenhum tipo de julgamento, nem para bem ou para o mal, nos apresentando àquelas figuras como verdadeiramente são.

Figuras, aliás, extremamente bem construídas pelo excepcional roteiro de David Newman, Robert Benton e Robert Towne e desenvolvidas pelo seu elenco extraordinário. Todos os atores principais do filme foram indicados ao Oscar de 1968, sendo que Estelle Parsons venceu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. E com inteira justiça. Se no início da jornada, Bonnie e Clyde são pessoas de “boa índole”, que não têm a intenção de machucar ninguém, apenas querem tirar dinheiro dos bancos, com o passar do tempo eles se tornam mais profissionais, e cometer homicídios, em algumas circunstâncias, se torna algo inevitável se eles quiserem permanecer juntos.

Todos eles têm, cada um, a sua motivação pessoal para realizar os crimes: Clyde faz isso porque é o que sabe fazer de melhor, Bonnie tinha uma vida monótona, queria ter mais emoções, C.W. era um rapaz ingênuo, que tinha a chance de, junto com os criminosos, viver uma vida cheia de aventuras e descobertas, Buck queria acompanhar o irmão na aventura por ter a chance de ficar perto da família, além de também querer voltar com a sua vida de assaltos, e Blanche, que primeiramente acompanha o grupo por causa do marido, mas depois, mesmo reprovando suas atitudes, mostra-se bastante à vontade com os seus roubos. Aliás, é engraçado ver como eles se divertem com a fama, sentem-se orgulhosos por seus roubos serem conhecidos em quase todo o país, e as pessoas também queriam fazer parte dessa história, como quando vemos testemunhas, e policiais, sendo entrevistados após um roubo, e todos se mostram excitados a dar o seu depoimento, pois sabem que, de alguma maneira, entrarão na história daquele grupo.

Mas a maior parcela de responsabilidade pelo sucesso do filme está no desenvolvimento dos personagens que dão título ao filme. A relação entre eles é muito diferente da do macho alfa, que determina os passos da mulher, sendo o dominante da relação. Clyde é um homem cheio de fragilidades, mesmo sendo um homem durão. Sua falta de aptidão sexual é uma escolha ousada, e ao mesmo tempo brilhante, pois mostra que o sexo não é fundamental na relação deles, tem mais coisa envolvida, um respeita o outro pelo que são. E Faye Dunaway surge apaixonante como Bonnie, no apogeu da sua beleza, que dá um charme hipnotizador à personagem. O seu carisma é irresistível, e contribui de maneira decisiva para que vejamos aqueles assaltantes de outra maneira.

Olhando com os olhos de hoje há nitidamente um problema de marcação nas cenas. A movimentação dos personagens, em alguns diálogos, soa artificial, parecendo claramente imposta, sem que ela fosse determinada organicamente. O problema fica ainda mais grave quando se analisa as cenas de ação, principalmente aquelas em que há troca de tiros em carros. As situações são resolvidas de maneira simplista, sendo pouco convincentes.

Mas a qualidade do trabalho é tanta, que tais detalhes se empalidecem diante de tantos acertos. E o final inevitável, mas ainda assim devastador, deixa claro que se trata de um filme diferente, daqueles que ficam em nossas memórias por um longo tempo, um clássico obrigatório.

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